Cine HTE: Rocky IV

Hoje no Cine HTE iremos comentar de um dos grandes clássicos dos filmes de esporte: Rocky. No quarto filme de um dos personagens mais famosos da história do cinema, Sylvester Stallone interpreta novamente o boxeador da Filadélfia Rocky Balboa, que terá como desafio enfrentar o soviético Ivan Drago. Além das reflexões padrões, de o lutador mais fraco vencendo o mais forte, do esportista com menos recursos vencendo outro com mais apoio tecnológico, esse filme também traz uma sutil reflexão ao final, que só pode ser entendida contextualizando o momento em que o filme foi gravado. Hoje, creio que todos os leitores desse humilde artigo tenha já visto ao menos uma vez o filme, então fico mais tranquilo de contar passagens e comentar o final dele.
O ano de lançamento era 1985. O mundo vivia em meio a chamada Guerra Fria, onde o conflito armado entre as forças do Ocidente, liderada pelo capitalismo dos Estados Unidos, e as do Oriente, liderado pelo comunismo da União Soviética era constante. Stallone mesmo tratou desse confronto no seu outro personagem igualmente famoso no cinema, Rambo. E medo de um novo confronto nuclear entre as duas potências ainda era latente. E, no esporte tivemos os reflexos desses confrontos políticos, com os diversos boicotes de Estados Unidos e União Soviética aos Jogos Olímpicos, principalmente nos Moscou, em 1980, Los Angeles, quatro anos depois.
Hoje, o mundo vive novamente confrontos políticos semelhantes aos da época, com as crises entre Palestina e Israel e também da Rússia, principal nação do bloco Soviético, com a Ucrânia. E onde o filme Rocky IV encaixa-se em tudo isso. Em tudo. O principio da película já mostra o ex-adversário de Balboa, Apollo Creed, desafiando uma exibição contra o recém-chegado aos EUA, Ivan Drago, com o discurso americano padrão armado. “Não é uma luta minha contra ele, somos nós (EUA) contra eles (URRS).” dispara Creed. Nessa exibição, a luta termina com a vitória de Drago e a morte de Creed. Para vingar o amigo, Rocky vai a Moscou lutar contra Drago. Enfrentando uma plateia hostil, um lutador mais forte e mais alto, Rocky, como é natural nos filmes da série, após perder todos os rounds, nocauteia seu adversário.
Afora todo o americanismo presente em todos os filmes de Hollywood, é nesse final, já na entrevista pós-luta, que Stallone nos oferece a reflexão. “Eu cheguei aqui esta noite… sem saber o que aconteceria. Vi muita gente me odiando e eu não soube como reagir, então acho que não gostei de vocês também. Nesta luta vi muitas mudanças: o que acharam de mim e o que eu achei de vocês. Aqui estavam dois caras matando-se. Mas acho que é melhor do que 20 milhões morrendo. E, se eu mudei e vocês mudarão, todos podem mudar.” diz Balboa.
E a mudança que ele comenta é uma mudança interior. Rocky não deixou de ser um representante dos EUA capitalista nem a multidão deixou de ser da comunista União Soviética. O que mudou foi o sentimento de um pelo outro. Ambos não se conheciam e tinham medo um do outro, por isso escolheram o ódio ao invés do respeito. A partir do momento que a torcida pode ver quem era aquele lutador que estava ali e Rocky pode ver que a plateia não era tão ruim assim. E o medo e ódio transformaram-se em respeito. Essa foi a mudança ocorrida, partida de dentro de cada um.
Quantas vezes, em face ao desconhecido, escolhemos o medo, a raiva sem ao menos nos darmos ao trabalho de conhecer o outro. Sempre achamos que o problema está no outro, seja no trabalho quando achamos que nosso chefe quer nos atrapalhar, seja nas relações pessoais quando colocamos no outro a responsabilidade pela dificuldade de convivência, considerando-os com qualquer qualidade que nos for conveniente para sustentar nosso ponto de vista, sem ao menos dar-lhes o benefício da dúvida, sem ouvir, sem tentar compreender o motivo por trás das ações. E, para superarmos isso, somente através de uma mudança que parte de dentro, de cada um de nós. Quando nos deparamos com situações difíceis e desconhecidas, não adianta criar barreiras. É necessário conhecer e respeitar as coisas e pessoas como elas são.
A única mudança possível é mudar o seu sentimento com relação ao próximo, só assim é possível compreender os diferentes pontos de vista e de vida. Os palestinos têm sua cultura e suas crenças assim como os israelenses e devem ser respeitados, tanto de um lado quanto de outro. O mesmo vale para Rússia, Ucrânia e EUA. Essa é a sutil reflexão que esse clássico do cinema esportivo trás para nós. É necessário que todos procurem conhecer mais o que os une do que os separa. Somente assim a humanidade poderá pensar em ter uma convivência pacífica, não só no âmbito político, como no social.
Ficha Técnica
Título Original: Rocky IV
Tempo de duração: 91 min
Ano de lançamento (EUA): 1985
Direção: Sylvester Stallone
Roteiro: Sylvester Stallone
Produção: James D. Brubaker, Robert Chartoff, Arthur Chobanian, Irwin Winkler
OBS: A seção Cine HTE não tem a pretensão de fazer uma crítica em si dos filmes, mas relatar e refletir sobre os ensinamentos que são abordados na história, seja baseado em fatos reais ou mera ficção.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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