Cine HTE: Virando o jogo

Depressão e ansiedade são dois temas amplamente debatidos no campo da psicologia. Para muitos analistas, a causa dos dois é a mesma: A falta de conectividade com o presente. Estudos feitos nos EUA e na Inglaterra apontam que uma pessoa está pensando 75% do tempo no seu passado, 20% no futuro e apenas 5% do tempo está concentrado no presente. Para discutirmos um pouco sobre esses temas rever o filme “Virando o jogo” (The Replacements, 2000).
Virando o jogo conta a história do Washington Sentinels, time de futebol americano que, após ser deflagrada greve dos jogadores profissionais na liga, contrata o nada convencional técnico Jimmy McGinty, interpretado por Gene Hackman, e uma série de jogadores amadores que há muito não participavam de um jogo. Dentre eles o QB Shane Falco, personagem vivenciado por Keanu Reeves. Os Sentinels precisam vencer três das últimas quatro partidas da liga para conseguir a sonhada vaga para os playoffs e esses grupos de jogadores sem nenhuma experiência tinham recebido uma segunda chance em suas vidas.
O tema da ansiedade é trazido logo após a primeira partida desse novo grupo, em que saíram derrotados. O técnico reúne o grupo para uma conversa e pede aos seus jogadores que dividam seus medos. Shane Falco explica o seu como areia movediça e explica: “Você está jogando e, de repente, uma coisa dá errado. Depois outra, e outra e outra. E você sente que não consegue mais respirar, como se estivesse sendo sugado por uma areia movediça”. Falco explica aqui o sentimento de muitas pessoas com depressão. Se você conhece alguém que sofre dessa doença psíquica deve ter ouvido relatos parecidos.
Oscar Wilde, um dos mais importantes escritores do século XIX, dizia: “O home que se ocupa do passado não merece ter um futuro”. Quem passa a vida remoendo erros do passado e projetando os medos acaba por descobrir que a única coisa que possuía eram os momentos que deixava fugir das mãos. No caso citado por Falco acima, ele se deixava dominar pelos erros do passado e não conseguia voltar ao jogo.  Perdia a conexão com o presente, com o momento em que poderia mudar sua história no jogo e caia na areia movediça.
Voltando ao filme, na partida decisiva, Martel, QB titular e desafeto declarado de Falco, fura a greve e começa jogando, com Falco fora do estádio. O time não vai bem, Martel com sua arrogância não consegue levar o time a boas campanhas e, no intervalo, Falco entra no vestiário para assumir o time na decisiva partida. Em meio a brigas, Martel declara “Isso não muda nada Falco. Eu tenho dois anéis de campeão e você nunca passará de um substituto”. Falco simplesmente responde: “É. Eu posso conviver com isso”. Falco mostra aqui que o passado não importa, que ele está focado em vencer aquela partida. Na volta ao campo, o técnico Jimmy McGinty complementa: “Dallas voltaram da greve e não temeram vocês e deveriam. Porque para vocês não existe amanhã, e isso o torna homens muito perigosos”. Ou seja, para Falco e demais jogadores, não existe o ontem nem o amanhã. Somente existe o agora, que é exatamente o momento em quem eles podem atuar.
Novamente citando Oscar Wilde, ele dizia que “o passado sempre poderia ser anulado. O arrependimento a negação ou o esquecimento poderiam fazê-lo. Mas o futuro é inevitável”. Todo medo é uma insegurança em relação ao que está por vir, mas, já que o futuro é aquilo que ainda não aconteceu, o único oráculo confiável para cada pessoa é ela mesma. Nossas expectativas condicionam nosso futuro ao regerem nossas atitudes cotidianas. Isso é o que Jimmy McGinty colocou que como não existe amanhã, suas atitudes de agora, no jogo que está acontecendo, somente servem o propósito da partida em si. Ninguém está esperando novos contratos, novos jogos. Só existe, para esses jogadores, a partida em curso. É nela que está o foco de todos.
Para combater a depressão e a ansiedade não precisamos de vários remédios que nos transformam em verdadeiras bombas químicas. Precisamos entender e aceitar nossas decisões e acontecimentos passados e construir nosso futuro através das atitudes que tomamos aqui e agora, no presente, que é o único momento em que podemos agir e fazer tudo o que podemos. A cada momento que nos concentramos no presente, temos menos tempo para lamentar o passado e gerar expectativas de um futuro que pode ou não acontecer. Essa é a reflexão que temos que fazer sobre nossa vida.
Ficha Técnica
Título Original: The Replacements
Tempo de duração: 109 min
Ano de lançamento: 2000
Direção: Howard Deutch
Roteiro: Vince McKewin
OBS: A seção Cine HTE não tem a pretensão de fazer uma crítica em si dos filmes, mas relatar e refletir sobre os ensinamentos que são abordados na história, seja baseado em fatos reais ou mera ficção.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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