Cine HTE: O Recomeço

Se você pudesse voltar no tempo, o que você faria? Tomaria as mesmas decisões? Quais seriam as consequências? Sempre que esse tipo de pensamento vem a mente, a resposta é de que as decisões seriam outras e que a vida seria melhor. Esse pensamento nos prende a ilusão de que desperdiçamos nossa vida, podendo desencadear doenças psíquicas, como a depressão. Tal pensamento é a temática do filme O Recomeço (Touchback, 2011).
A trama dessa película é centrada no personagem Scott Murphy, ex quarterback colegial que, no jogo final, ao arriscar um TD corrido que levaria sua equipe a conquista do campeonato, lesiona gravemente o joelho, que o deixa incapacitado de jogar futebol americano novamente e conviver com um aparato em sua perna que o ajuda a caminhar. Murphy, já mais velho, se lamenta profundamente de ter arriscado essa jogada, uma vez que tinha o status de melhor jogador do país e era escolha certa no próximo recrutamento das universidades e teria a “vida garantida” desse momento em diante. Agora se encontra em graves problemas financeiros, tendo que sustentar sua esposa e suas duas filhas.
Desesperado e desesperançado em meio a sua situação atual, Murphy opta pela desistência da própria vida. Leva seu automóvel a um local isolado e tenta o suicídio por ingestão da fumaça do combustível do veículo. Em meio ao seu coma, sonha com a volta no tempo, na época em que jogava um pouco antes da fatídica final. Sabendo como seria seu futuro, tenta dar um rumo diferente para sua vida. Mas as decisões diferentes o tornam diferente. Sua atual esposa na época não o apreciava tanto. Ele tenta falar ao seu técnico Hand (interpretado por Kurt Russel) que não irá jogar, fingindo uma contusão. E, a cada decisão que toma, vê que o caminho não é tão feliz assim. Não consegue conquistar sua esposa com seu jeito diferente, seu técnico e companheiros de time passam a não o respeitarem por fugir de um momento que pode ser glorioso para todos.
Clóvis de Barros Filho, filósofo e professor de Ética da USP, comenta em seu livro “Ética e Vergonha na cara” que “não vivemos as tristezas das hipóteses de vida que não vivemos, dando a impressão permanente de que teríamos evitado as tristezas que sentimos se tivéssemos optados por outros caminhso, porque, calaro, aqueles percalços, não os conhecemos propriamente. Quando escolhemos, temos a impressão de que os problemas acabaram. De jeito nenhum! Uma vez feita a escolha, fica sempre a impressão de equívoco, fazendo com que nossa vida seja permanentemente acompmanhada por um sentimento de angústia”. Exatamente o sentimento do personagem principal do filme, que, vendo a vida desabar, recorre nas escolhas não fez uma vida que não viveu, achando que seria melhor que é. O sonho remonta o contrário, que a vida dele é perfeita com a família que formou e, que se seguisse outro caminho não seria necessariamente mais feliz por conta disso.

Essa reflexão que o filme nos traz remonta a dois pensamentos de William Shakespeare, o mais famoso escritor britânico, autor de obras como Hamlet e Romeu e Julieta. Shakespeare dizia que “Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente”. E complementava “Chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais segura de atrair outras”. Essa dor que Murphy tinha por não ter conseguido seguir o caminho que pretendia na época o prendia a um presente e futuro que jamais existiria e lhe causava uma agonia profunda e desencadeava uma depressão que o fez querer terminar com a própria vida. Murphy não podia ser mais jogador de futebol americano universitário. E, se o fosse, não teria sua esposa e o respeito de todos que os conheceram. O rumo da sua vida teria sido diferente e não necessariamente melhor do que se tornou.

O saudoso jornalista Joelmir Betting sempre comentava que “o passado não conhece seu lugar”. Lao-Tsé, filósofo oriental antigo, complementaria “Se você está deprimido, é porque está vivendo no passado; Se você está ansioso,é porque está no futuro;Se você está em paz, está vivendo no momento presente”. Essa paz que Murphy precisava encontrar. A paz com o que ele está vivendo no momento, como agricultor, com uma esposa e duas filhas. Essa paz é a que cada um de nós tem que buscar. Entender o passado, mas deixá-lo em seu lugar. O presente é que importa. É nele que podemos tomar as decisões que irão nortear a nossa vida. A felicidade não está no que poderíamos ter. Está no modo como conduzimos a nossa trajetória, o nosso caminho. Está no modo de como aceitamos o que nos aconteceu e prosseguimos vivendo no nosso melhor.
Ficha Técnica
Título Original: Touchback
Tempo de duração: 118 min
Ano de lançamento (EUA): 2011
Direção: Don Handfield
Roteiro: Don Handfield
OBS: A seção Cine HTE não tem a pretensão de fazer uma crítica em si dos filmes, mas relatar e refletir sobre os ensinamentos que são abordados na história, seja baseado em fatos reais ou mera ficção.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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