Cine HTE: O Homem que Mudou o Jogo

Planejamento é a palavra de ordem no futebol brasileiro. Os novos craques em terras tupiniquins não são mais atacantes ou meias ofensivos. Tampouco goleiros. Menos ainda técnicos. Esses craques, ao invés de chuteiras, utilizam terno e gravata. Ao invés do gramado, seu campo é um escritório com ar condicionado. São os executivos denominados “gestores de futebol” dos clubes que ditam o sucesso das equipes. Nomes como Alexandre Mattos e Rodrigo Caetano não estão mais somente nos debates televisivos e radiofônicos, mas também nas mesas de bar e cafés nos escritórios. E para entendermos a importância desse recente personagem do nosso futebol, vamos utilizar o longa-metragem “O homem que mudou o jogo” (Monneyball, 2011).
O filme conta a recente história verídica do time de beisebol Oakland Athletics, conhecido também como Oakland A’s, e seu General Manager (o gestor executivo) Billy Beane, personagem interpretado por Brad Pitt. Querendo montar um time forte para colocar os A’s entre os protagonistas da MLB, porém tendo um orçamento bem inferior às principais forças da liga, tais como NY Yankees, Boston Red Sox, SL Cardinals, LA Dodgers dentre outros, Beane vê o sonho distante de poder ser concretizado, afinal, sem dinheiro e sem o glamour de outras equipes fica difícil atrair grandes jogadores. Em uma das suas negociações, conhece Peter Brand, um analista que tinha formulado um sistema para definir como fazer contratações, olhando as reais necessidades do time e buscando atletas que tenham as características necessárias para aquela função. Traduzindo para o nosso futebol, se a necessidade seu time já tem um jogador como PH Ganso, meia canhoto cerebral, mas sem velocidade, você precisa contratar jogadores de movimentação, velocidade e recomposição para jogar ao lado dele, caso contrário, o meio de campo fica desequilibrado. Peter Brand, antes de ser contratado, comenta com Beane que “o objetivo não deve ser contratar jogadores, e sim contratar vitórias”. Ou seja, não basta falar que precisa de um jogador para determinada posição, tem que ser o jogador correto, que complemente com o restante da equipe a fim do time tornar-se vencedor.
Com essas premissas, Brand e Beane analisam o mercado de Agentes livres e negociam com outras franquias jogadores que não são destaques, mas que juntos, num contexto favorável, poderiam montar um bom elenco, capaz de fazer com que o time de Oakland entrasse na galeria de times que lutam por vagas nos playoffs e não fizesse apenas figuração durante a temporada. Com batalhas internas, de pessoas que, a princípio, não acreditavam nas novas idéias. E vemos que não adianta ficar somente no planejamento. É preciso fazer com o que plano traçado seja seguido, independente dos conflitos que isso possa gerar. No transcorrer do filme, vemos que o técnico é um dos que não confiam muito no processo e escala de acordo com seu pensamento e não conforme as contratações foram realizadas. Nesse ponto que Beane mexe os ponteiros, realizando as trocas necessárias e se impõe como líder, dando as cartas.
Se o começo da temporada foi medíocre, após a intervenção de Beane e Brand, Oakland se reergue, quebra o recorde de vitórias consecutivas na MLB, o time engrena e a vaga aos playoffs é conquistada. Beane começa a ser cotado para assumir a gestão executiva das grandes franquias, como os Red Sox, mas prefere ficar em Oakland. Mesmo sem ele, seu modelo passa a ser copiado e executado, com sucesso, por outras equipes.
O que estamos vendo no futebol brasileiro nos dias atuais muito se assemelha ao que ocorreu com o Oakland no período relatado no filme. Utilizando o caso de Alexandre Mattos por exemplo. No Cruzeiro, time que não recebe as mesmas cotas de patrocínio e televisão dos grandes de São Paulo e RJ, montou o elenco bi-campeão brasileiro basicamente com jogadores renegados em outros grandes clubes e com destaques em equipes menores, caso de Éverton Ribeiro, por exemplo, algumas apostas da base do clube e contratações pontuais de nomes disputados, como Manoel, Dedé e Julio Baptista. Os resultados estão aí para provar que o planejamento foi bem feito. E Mattos, assim como Beane, começou a ser cobiçado por outros clubes, assim como já era assim com Rodrigo Caetano no RJ. Mattos esse ano começa o trabalho no Palmeiras, que virou o ano com a moral lá embaixo após o centenário mais vexatório da história, com o clube quase indo para a Série B pela terceira vez nos últimos 10 anos. Em pouco tempo, reformulando o elenco e ganhando a disputa com os principais rivais na contratação de Dudu, Mattos já recebe do palmeirense um voto de confiança para que o time volte a ser protagonista no cenário nacional.
Para não perder o costume de fazer citações, um antigo provérbio chinês diz que “Se quiser derrubar uma árvore na metade do tempo, passe o dobro do tempo amolando o machado”. Ou seja, para vencer em longo prazo, o planejamento é essencial. No formato de 38 rodadas e pontos corridos, cada vez mais os campeonatos serão decididos pelos craques de terno e gravata, que, escolhendo corretamente os jogadores e técnico que farão parte de seu elenco, terão mais chance de sucesso.
Ficha Técnica
Título Original: Moneyball
Tempo de duração: 133 min
Ano de lançamento (EUA): 2011
Direção: Bennett Miller
Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin
OBS: A seção Cine HTE não tem a pretensão de fazer uma crítica em si dos filmes, mas relatar e refletir sobre os ensinamentos que são abordados na história, seja baseado em fatos reais ou mera ficção.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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