Somente na África do Sul: uma Copa do Mundo inesquecível

Ele era mais alto do que você pensava que fosse. Ele andava do jeito que você imaginava. O impacto de sua presença era como você imaginava e isso te dava um nó na garganta; não é todo dia que se vê uma das personalidades mais famosas do mundo a metros de você, vestido de um jeito um tanto inesperado (o uniforme dos Springboks). As memórias de muitas partidas se vão. Não a da final da Copa do Mundo de Rugby de 1995. Duas décadas depois (sim, você está ficando velho), aquela tarde está tão fresca na memória, como o momento em que Nelson Mandela atravessou o campo do Ellis Park.
As cabines de imprensa ficavam no meio-campo, logo acima da arquibancada principal. Logo à direita do túnel dos jogadores. Ficamos assustados, sem pai nem mãe, após a permissão do voo rasante da South African Airways. Sem nenhum aviso, o jato passou muito perto, parecia um filme de terror. Tão perto que sentimos que podíamos tocá-lo. Na parte de baixo a mensagem: “Boa sorte, Bokke” .
Se um rasante não foi suficientemente assustador por si só, lá veio ele fazendo uma volta de 90 graus e passando sobre nossas cabeças novamente – qual a direção que iria não sabíamos. O medo de todos no estádio era que seus transponders e altímetros estivessem desregulados – e isso nos deixaria no centro de um desastre tremendo. Esse novo rasante passou muito perto do topo do estádio, nos forçando a abaixar instintiva e desesperadamente à procura de abrigo.
Somente na África do Sul.

Tão perto que sentimos que podíamos tocá-lo © Getty Images

 

O choque nos manteve atônitos por um breve período.
Daí nos deparamos com outro momento incrível. Olho para a direita. Não acredito! A apenas alguns metros de distância, alguém muito parecido com Madiba caminhava para o campo. Como estava usando uma camisa dos Springboks com o número 6 nas costas, pensei: o que está acontecendo? Que remédio louco eu tomei hoje de manhã por engano? Não, não estava louco. Ao ouvir a multidão gritando feliz ao perceber que tinham reconhecido quem era aquele intruso, aquele torcedor fanático, me dei conta de que não estava sob o efeito de nenhuma droga.
Depois de uma incrível sequência de fatos, era inevitável que os Springboks ganhariam a final – com a pitada de tensão ao vencer os All Blacks na prorrogação – permitindo Mandela a fazer uma apresentação memorável da Copa do Mundo, um indicador-chave de que havia esperança para o que, por muito tempo, era um país dividido e um esporte que por décadas promoveu as virtudes do branco em detrimento da comunidade negra local.
Este mix de sentimentos, essas seis semanas insanas de 1995, quando a África do Sul quis mostrar ao mundo que, mesmo por tanto tempo isolada, poderia receber um evento desta magnitude e se manter no topo da lista dos eventos inesquecíveis de Copa do Mundo de Rugby. Com certeza foi a menos entediante de todas as sete Copas.
O momento em que o rugby de Mandela reconciliou o país.
Homenagem Springbok a Nelson Mandela
Ainda sim eu tinha que estar preparado para qualquer coisa após presenciar o retorno triunfal dos Wallabies três anos antes, quando os Springboks foram recebidos novamente no cenário internacional. Após 23 anos de hiato, os Wallabies estavam a caminho da República e com várias semanas de loucura à espera. O capitão australiano Nick Farr-Jones se mostrou preocupado antes do tour de 1992, dizendo que poderia estar sendo utilizado como fantoche político; e daí David Campese inflamou o povo sul-africano ao chamá-los de arrogantes.
Um pedido de paz veio em seguida quando os Wallabies, juntos dos All Blacks (que estavam em tour pela África do Sul naquele momento) foram convidados para a mais extraordinária e inesperada reunião de política e esporte da história. O encontro se deu em uma mina de ouro, a 226 metros abaixo de Johannesburg. O que a tornou especial: O Presidente sul-africano F.W de Klerk, o Secretário de esportes Africano Steve Tshwete e o Chefe Mangosuthu Buthelezi do Partido Liberdade Inkatha foram convidados também.
Parecia um pesadelo de segurança nacional, especialmente com a tensão entre o Congresso Nacional Africano (ANC) e o Inkatha, que estavam brigando havia algum tempo. Eram também críticos veementes do governo de De Klerk. Mas estavam jogando conversa fora com os jogadores numa cabine à meia-luz dentro da mina. Havia muita fumaça porque estavam fazendo churrasco. A cabine estava lotada, e algumas mulheres vestidas de dançarinas burlescas dançavam can-can nos intervalos do encontro – isso ajudava os viajantes que sentiam falta de casa. Conversar estava quase fora de questão, porque a bateria Africana tocava em ritmo frenético, parecia o Olodum em dia de jogo do Brasil na Copa de futebol e toda a barulheira deixava todo mundo quase surdo.
Me vêm à memória alguns momentos esquisitos, onde confrontavam De Klerk perguntando-o se ele tinha planos de visitar a Austrália. Sua resposta foi categórica: “Nunca fui convidado”. Em seguida o Chefe Buthelezi tentou se esgueirar sem ser notado. Perguntado se, por utilizar uma gravata de um jogador All Black indicava que ele era um All Black, ele piscou, mostrou uma marota gravata australiana na mão esquerda e disse sorrindo: “Agora eu tenho a gravata correta”.
Voltando ao nível do solo, fizemos um tour pelo carro de De Klerk, que mais parecia um tanque de guerra. Seu motorista estava fortemente armado e seu carro, além de ser à prova de balas e ter vidros com espessuras inimagináveis, tinha metralhadores nas portas e uma bazuca no chão.
Somente na África do Sul.
O tom político que este tour teve se manteve por uns dias, quando alguns jogadores australianos e representantes do governo foram convidados para uma audiência com o então representante da ANC Nelson Mandela. A imagem dele sentado na sala de conferência com um bonezinho dos Wallabies repercutiu no mundo inteiro. Após a reunião, ele então expressou suas expectativas do tour aos representantes dos Wallabies, quando se provaram cruciais após não darem certo na semana seguinte.
Nick Farr-Jones e os Wallabies só jogaram o tour de 1992 após entendimentos diplomáticos© Getty Images
Os Wallabies foram convidados a comparecerem às partidas históricas entre Nova Zelândia e África do Sul no Ellis Park. No mais hostil dos ambientes, os delegados da partida rejeitaram o pedido da ANC de não tocar antes do jogo “o hino dos brancos” Die Stem. Louis Luyt, o honorável presidente do Transvaal rugby, permitiu que fosse cantado, forçando a ANC a ameaçar o fim do apoio aos Wallabies ao restante do Tour.
Isso significava que a segurança dos jogadores australianos não poderia mais ser garantida, e então os forçaria a não ter outra opção senão a de voltarem para casa antes do prometido jogo contra os Springboks na semana seguinte em Cape Town. Após alguns dias de tensão, que incluiu uma inusitada entrevista coletiva às 2 da manhã com o presidente da Australianan Rugby Union Joe French em seu quarto de hotel em Port Elizabeth, onde ele participou de pijamas, eventualmente a ANC aceitou e permitiu que a partida de Newlands acontecesse…
Três anos depois, os Wallabies não repetiram o feito de Cape Town, onde Tim Horan os conduziu para a vitória recorde por 26-3 nos Springboks.
Em 1995, havia interrupções diferentes. A guerra da Super League de Rupert Murdoch havia criado uma distração enorme, com a ARU preocupada em perder jogadores australianos importantes para as ligas com maior poder aquisitivo. Um grupo de rugby que havia se formado recentemente, a World Rugby Corporation, estava também aliciando os jogadores com contratos lucrativos e atraentes para deixarem a liga atual. O jogo estava sofrendo pressão e risco de ser dividido.
Assim como também os Wallabies cometeram o erro de viajarem para a África do Sul com jogadores fora de forma. Seu calendário de treinos era, no mínimo, questionável e estavam longe de serem um grupo coeso e estabelecido, constantemente distraído pela dicotomia WRC/Super League. Não foi surpresa quando perderam na estreia para os Springboks em Newlands e caíram nas quartas-de-final com o drop goal de Rob Andrew, perdendo para a Inglaterra.
Para os Wallabies, a Copa do Mundo de 1995 foi um caso que não terminou bem. Sua humilhação foi multiplicada quando a delegação esbarrou com alguns grupos de torcedores na conexão em Perth e descobriram o que pensavam os torcedores sobre a eliminação precoce do torneio. Não foi nada gentil ou consolador. Mesmo 20 anos depois os jogadores falam com lembranças nada agradáveis do encontro em Perth.
Para os australianos que continuaram seu caminho para a África do Sul, foi uma ocasião especial. A mídia internacional estava preocupada em trabalhar em um país que sofrera um longo período de isolamento político, causando um atraso em muitas áreas, particularmente no campo da tecnologia e comunicação. Esperávamos algo muito ruim e fomos positivamente surpreendidos – Com a África do Sul trazendo ajuda de fora para que as nossas exigências fossem cumpridas.
E houve, claro, estórias intermináveis para nos distrairmos, com o torneio sempre nos agraciando com belos dramas. O andamento da Copa do Mundo ocorreu tranquilamente, com alguns tropeços aqui e ali e uns sustos, mas culminou na final mais dramática de todos os tornamentos que haviam ocorrido, até então.
Como nem tudo são flores, houve alguns probleminhas, alguns insolucionados até hoje. Como a velha história de que a comida dos All Blacks foi sabotada por uma garçonete chamada Susie uns dias antes e eles passaram mal. Aquele momento mágico em que Jonah Lomu atropela uma legião de ingleses (Você conferiu o retrospecto dos 20 anos aqui) está vivo em nossas lembranças; assim como a carta do torcedor neozelandês que dizia: “Lembrem-se que rugby é um jogo coletivo: Todos os 14 devem passar a bola para Jonah!”. Eles eram o time a ser batido.
No início do torneio, a África do Sul era considerada uma das top 4 ou 6 do mundo, mas nunca favorita ao título da Copa do Mundo. Os Springboks sabiam que era muito difícil parar o fator Lomu. Para fazê-lo, convenceram o país inteiro de que eram embaixadores por direito. Por toda a Copa, os Springboks carregaram incessantemente o slogan: “Um Time. Um País.” Funcionou gradualmente.
Na noite da final, os All Blacks decidiram ficar no hotel, com inúmeros jogadores reclamando de dores no estômago e dores pelo corpo. Vinte dos 26 jogadores alegaram intoxicação alimentar. Mains disse depois que Susie havia sido paga para colocar uma erva local chamada “Truque Indiano” no estoque de café de chá do time. Os Springboks agradeceram – e muito – ao árbitro galês Derek Bevan. Quase no fim da semifinal contra a França, Bevan preferiu não marcar penais no scrum, que dariam a vantagem para Les Bleus, fazendo os anfitriões finalistas, meio que envergonhados pelo que o árbitro decidiu.
Os All Blacks faziam parte dos que duvidaram da performance do árbitro. Como foi revelado mais tarde no livro de Lance Peatey “In Pursuit of Bill” (sem tradução para o português), que retrata a história da Copa do Mundo, Louis Luyt, agora presidente de rugby da África do Sul, disse para o capitão neozelandês Sean Fitzpatrick assim que os All Blacks chegaram em Ellis Park para a final: “Sean, fiz tudo que estava em meu poder para garantir que os Boks jogassem contra os All Blacks na final e aqui estamos”.
Bevan não apitou a final, o inglês Ed Morrison ficou no comando e o jogo foi para a prorrogação; o ferrolho foi quebrado quando Joel Stransky acertou um lindo drop goal, proporcionando uma onda de alegrias pela Nação Arco-Íris. Os dirigentes sul-africanos levaram na gozação isso tudo. Luyt, no fim do jogo seguiu os All Blacks para os túneis, após ter presenteado Bevan com um relógio de ouro e dito que a África do Sul foi a primeira “campeã de rugby de verdade”.
Somente na África do Sul.

Texto extraído e traduzido de http://en.espn.co.uk/super-rugby-2015/rugby/story/265103.html

Vinícius Guedes

Administrador de Empresas pela UFRRJ, Segurança Privado, Árbitro de Rugby pela RioRefs, jogador pelo Itaguaí Rugby. Gosta de esportes, filmes, séries e muita música.

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