Quebrando paradigmas e vencendo os preconceitos

No filme Um domingo qualquer (Any Given Sunday, 1999), o quaterback Willie Beaman do Miami Sharks, equipe de futebol americano fictícia, está em uma entrevista em um programa esportivo e comenta: “Os negros são 80% dos jogadores da liga, mas quantos são os quarteback? Poucos. E técnicos (Head Coach)? Nenhum.” Claro que a NFL na época já do filme já tinha os técnicos negros, mas o dialogo do filme mostrava que ainda faltava um espaço para decretar a igualdade racial, em termos de oportunidades, que tanto se fala. Esse diálogo mostrava que ainda havia um tabu a ser vencido nas funções mais nobres, ou mais cerebrais.
Becky Hammon, treinadora
do San Antonio Spurs na Suumer League
Traçando um paralelo com a luta de igualdade de direitos de homens e mulheres, podemos ver essas situações ainda ocorrendo nas mais diversas modalidades esportivas. É bem comum vermos seleções e equipes profissionais femininas sendo treinadas por homens. Porém, o contrário é extremamente raro. Por esse motivo causou grande surpresa e furor na mídia quando vimos nas últimas semanas que o Arizona Cardinals, da NFL, anunciou que Jen Welter será a treinadora dos inside linebackers.  E que Becky Hammon foi a primeira treinadora a vencer a Summer League da NBA com o San Antonio Spurs. Essas duas mulheres estão ajudando a quebrar um paradigma que há muito tempo existe no esporte.
No Brasil, a primeira grande quebra desse paradigma ocorreu quando as mulheres ingressaram na arbitragem do futebol nacional. Silvia Regina e Ana Paula de Oliveira, duas das principais precursoras do ingresso das mulheres no universo fortemente machista dos gramados brasileiros sofreram muito. Embora a arbitragem tenha sido sempre contestada nos gramados tupiniquins, elas, além de eventuais erros que todos os árbitros cometem, tinham de lidar com o preconceito. Nossa redatora Francilaine de Souza, uma das responsáveis pelo Cantinho do Torcedor Vascaíno aqui no HTE Sports, observa: “Qualidade ambos tem e no mesmo nível, afinal, todos são bem preparados antes de ir a campo. Se um homem erra a marcação de um impedimento, a maioria age normalmente, alguns se excedem nos xingamentos. Se for uma mulher, é insultada de todas as maneiras possíveis e já aparecerem com a ladainha do ‘lugar de mulher é na cozinha’. A questão é cultural. Como os meninos são incentivados a jogar futebol desde pequenos e as meninas de barbie ou donas de casa, eles acreditam que nós não somos capazes de realizar tais funções e por isso somos vistas com tanta desconfiança no meio futebolístico”. Porém, quando questionada sobre o futuro, mostra otimismo: “Mesmo com o machismo velado, aos poucos elas vem conquistando espaço na profissão e mostrando que são capazes de  exercer várias atividades, igualmente aos homens“.
Essa situação também ocorre na mídia. Embora nos EUA as principais emissoras coloquem mulheres como repórteres de campo / quadra, no Brasil isso ainda é um tabu. Na briga feroz por entrevistas na saída dos campos de futebol, é raro ouvirmos uma voz feminina. Até porque, como chama a atenção a Francilaine, o respeito dos atletas e treinadores com as repórteres não é o mesmo que com os repórteres: “A maioria não respeita. Qualquer coisa para eles podem e são interpretadas erroneamente. Vai de um sorriso excessivo em entrevistas, simpatia demais na hora de conversar e até roupas usadas durante o trabalho”. Isso sem falar no clássico preconceito de que as mulheres não entendem de futebol, como ela completa: “É preciso mudar o costume e deixar de lado o pensamento arcaico de que “mulher não sabe futebol”. Não é porque uma não sabe que todas as outras não saberão também. O mau hábito é esse”.
As histórias de Jen Welter e Becky Hammon podem contribuir muito para esse preconceito começar a cair por terra e que as mulheres tenham o mesmo respeito e oportunidades que são dadas aos homens.  Para Francilaine, o aumento de mulheres interessadas em comandar no esporte pode ajudar: “Ainda somos vistas com desconfiança. Antes era uma ali e outra aqui. Hoje, várias demonstram um grande interesse pelo esporte. Quando os homens perceberem que nós podemos comandar/exercer algo no futebol tão bem ou até melhor que eles, deixarão esse “preconceito” de lado, porque querendo ou não, isso ainda existe.”
É bom lembramos as contribuições que o mundo da administração já viu sobre a liderança feminina. Sonia Jordão, que escreve para o maior portal de administração do Brasil, cita: “As mulheres, em sua maioria, são profissionais atentas aos detalhes de cada situação, fazendo com que elas tenham uma visão ampla da empresa. Em função de suas características pessoais, costumam ser bem sucedidas nos processos de comunicação e de negociação. Por terem uma jornada dupla de trabalho (aquele exercido no emprego e aquele dentro de casa), as mulheres conseguem ser mais flexíveis no ambiente corporativo e ainda fazer diversas atividades ao mesmo tempo. E, usando seu instinto maternal, conseguem obter melhores resultados com as pessoas”. Sem dúvida nenhuma, equipes e seleções profissionais podem se beneficiar dessas características predominantemente femininas. Basta que os preconceitos sejam quebrados para vermos uma mulher treinadora sem a distinção de gênero, simplesmente como técnica, assim como vemos os treinadores. E que seu trabalho e resultados sejam avaliados com a mesma régua dos demais.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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