Meu Jogo Histórico #2 – A primeira vez a gente nunca esquece

Existem fatos que ficam para sempre marcados em nossa memória. Histórias marcantes, passadas ao lado de alguém muito querido então, não cairão nunca no esquecimento. A primeira vez que assisti um jogo em um estádio de futebol é um desses momentos. Minha estreia ocorreu no já longínquo ano de 1994, no sempre simpático e aprazível estádio Conde Rodolfo Crespi, conhecido popularmente como Rua Javari, onde o Clube Atlético Juventus, do bairro paulistano Moóca, manda seus jogos. A companhia que tive nessa partida foi de alguém que viveu praticamente toda sua vida nesse emblemático bairro de São Paulo, meu avô palestrino / juventino Moacir Bellido, que completou 87 anos no último dia 24 de agosto. Como não podia deixar de ser, essa história vai bem além da partida.
O famoso estádio do Juventus da Moóca,
visto de dentro.
O dia era 10 de janeiro daquele ano. Dois meses antes tinha acabado de completar 10 anos de idade e via meu irmão mais velho ir aos jogos do São Paulo na Copa Libertadores e sentia extrema vontade de assistir um jogo no estádio. Pela minha idade, meus pais ainda não permitiam que acompanhasse meu irmão nesses jogos. Mas, naquele janeiro, o campeonato em disputa era a Copa São Paulo de Juniores e o tricolor iria jogar no dia 10 contra o Volta Redonda na Rua Javari. Não lembro como meu avô conseguiu convencer minha mãe de me levar naquele jogo, com entrada franca, saindo de São Bernardo do Campo, onde eu morava, pegando três conduções para chegar a Moóca. Mas convenceu, e partimos para a Rua Javari.
Por conta da demora da viagem (por volta de 1h30 para 2 horas de percurso pelo transporte público da época), quando chegamos a Rua Javari o jogo já havia começado e não havia como entrarmos, pois a torcida são-paulina, ainda embebecida da recente conquista do bicampeonato mundial diante do Milan, tomava as arquibancadas do pequeno estádio do Juventus. O São Paulo vencia o Volta Redonda naquele momento por 4 x 0, próximo ao intervalo do jogo. Ficamos meu avô e eu então em uma padaria próxima, esperando pelo jogo de fundo entre Juventus e Fluminense, pela mesma competição. Meu avô, como regrava seu ritual diário, tomou uma caipirinha enquanto eu ficava no refrigerante. O São Paulo marcou mais três gols e venceu a partida que não pude ver por 7 x 0. A torcida tricolor deixou o estádio então meu avô e eu entramos para a arquibancada. A lotação para o jogo entre os donos da casa e equipe carioca não era nem perto da partida anterior, mas pude ver com ele, no estádio e no bairro que ele sempre viveu e amou, meu primeiro jogo de futebol in loco.
Seu Moacir, no aniversário de 87 anos
com o bisneto
A partida em si foi muito ruim. Os dois times eram extremamente fracos e poucos lances ficaram gravados. Foi um 0 x 0 daqueles bem sonolentos, capazes de fazer qualquer criança perder a paixão pelo esporte. O único lance de perigo foi uma finalização cruzada do ponta esquerda do Fluminense bizarramente perdida pelo seu centroavante. Terminado o jogo, voltamos para casa, novamente em três conduções até São Bernardo. Detalhe, não conseguimos avisar meus pais que não vimos o primeiro jogo (do São Paulo) e veríamos somente o segundo (do Juventus). Quando chegamos em casa, encontrei meu pai praticamente saindo de carro para nos procurar. Pode parecer estranho para muita gente, mas nessa época ainda não existia Whats app, SMS, telefone celular. Pelo mesmo motivo, não tenho fotos que registraram o jogo, ou o momento, pois era raro sairmos com câmeras fotográficas, de filme ainda, nesse tipo de evento.
Enfim, creio que nem os jogadores que estiveram naquela partida lembram-se de terem participado. Mas marcou para mim, por ser a primeira e por ser ao lado do meu avô, que, junto com meu pai, sempre me acompanhou na época nos jogos de campo e salão da várzea paulistana em que eu era goleiro, me incentiva a praticar esporte, jogava comigo e meus amigos nas peladas do condomínio e me presenteava com uma camisa de um time local de todas as viagens que fez pelo Brasil afora. Escrever essas lembranças até fazem os olhos lacrimejarem de saudades dessa época gostosa, da inocência, de ver e praticar o esporte apenas pela alegria de estar com as pessoas que amamos. Foi um dia especial que passei ao lado do meu avô, e que, por essas emoções, torna-se um jogo inesquecível para mim.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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