Meu Jogo Histórico #5 – O Vasco é o time da virada

Quando escutamos pessoas mais velhas falarem de alguma coisa ou alguém que era acima da média, geralmente consideramos exagero ou excesso de saudosismo. Algumas vezes o exagero rega os relatos, outras talvez a inveja de não ter visto o que nos é contado talvez desmereça um pouco da história. Pra quem não viveu intensamente aquele 20 de dezembro de 2000, o mais provável é acreditar ser exagerado colocar aquele jogo como um dos 3 maiores da história do futebol brasileiro. Talvez o maior.
O leitor deve estar pensando “Nossa, que clubista! O maior jogo? Que exagero…”. Talvez eu esteja exagerando. Mas os fatos que rodeiam a final da (saudosa) Copa Mercosul de 2000 fazem com que pelo menos seja discutível colocar esse jogo na conversa. Uma final de campeonato com 7 gols, onde um time abre 3×0 no primeiro tempo e sofre a virada na segunda etapa para uma equipe que jogou metade da segunda etapa com um jogador a menos. Em campo estavam jogadores como Arce, Sérgio, Juninho Paulista, Juninho Pernambucano e um tal de Romário.
Romário marcou “módicos” 71 gols na temporada de 2000: decisivo nos títulos da Mercosul e do tetra Brasileiro.
Lembro de estar de férias e ter assistido o jogo sozinho, na casa do meu tio. Todos na casa dormindo e eu lá, acordado pelo Vasco. Na época não haviam redes sociais, nem smartphones, ou seja: Sacanear ou ser sacaneado era bem mais complicado. Nos dias de hoje (principalmente com o Vasco atual), talvez eu tivesse ido dormir e me conformado com a perda do título após os gols de Arce, Magrão e Tuta no primeiro tempo. Os gritos de “É campeão” dos palmeirenses que lotaram o antigo Parque Antártica ao final da primeira etapa doeram. Seria o terceiro vice-campeonato do Vasco no ano, depois do Mundial de Clubes e o Carioca. Ainda seguíamos no Brasileiro, mas uma derrota como aquela poderia enterrar o moral do time.
Por algum motivo que só a paixão e o amor por um clube explicam resolvi assistir o segundo tempo. Confesso que não muito esperançoso, mas não consegui deixar de acompanhar o Vasco naquela jornada. Talvez o coração soubesse o que a razão não conseguiria enxergar. O elenco cruz-maltino era de encher os olhos e era capaz de feitos incríveis.A entrada de Viola foi o fato novo Logo aos 12 minutos, pênalti em Juninho Paulista. Após muitos protestos, aos 14 saiu o gol de Romário. Vibrei discretamente e pensei “se fizermos um até os 25, dá pra empatar”. E não é que aos 23, Juninho sofreu outro pênalti e Romário converteu outro gol?
Tuta comemora o terceiro gol enquanto a torcida do Palmeiras gritava “É campeão!”. Cedo demais.
Já pulando silenciosamente para não acordar a casa e nem aos vizinhos, passei a jogar junto do sofá. Mentalmente, xingava os juízes, e principalmente, Júnior Baiano. Pra você mais jovem que não acompanhou a carreira deste zagueiro “excêntrico”, ele era uma espécie de médico-e-monstro. Na mesma partida, ele fazia jogadas geniais e logo em seguida falhava absurdamente, seja tecnicamente ou seja disciplinarmente. Ele tinha um sério problema psicológico, é o que acredito. O fato é que ele cometeu um pênalti bizarro no primeiro tempo (comparado a Thiago Silva na última Copa América) e após o Vasco marcar duas vezes e encostar no marcador, deu uma tesoura voadora desnecessária e após receber o segundo amarelo, foi expulso por Márcio Rezende de Freitas. Passei uns dois minutos xingando o camisa 3 do Vasco com os piores adjetivos possíveis que vinham na mente,
O jogo ia caminhando e o Palmeiras se segurando. O Vasco criava mas não conseguia finalizar com tranquilidade. Aos 40 minutos, com uma a menos, voltei a pensar no pior. Ainda que me confortasse o poder de reação da equipe, o gosto amargo do quase começava a preencher a garganta. Mas aos 40 minutos do segundo tempo, Euller cruzou na área, Romário deu a mais bela furada de sua carreira e acabou dando uma assistência para Juninho Paulista, que marcou o gol do empate. Não tive como não soltar um grito de gol, ainda que rápido. Por sorte, não acordei ninguém com o êxtase do momento.
Juninho Paulista foi peça chave na virada histórica do Vasco.
Minha reação após o gol foi: segura isso e vamos para os pênaltis. O que vier é lucro agora, o Hélton é bom goleiro e podemos ganhar esse negócio. O time tá com um a menos, temos que nos precaver. Mas o Vasco é o time da virada, o Vasco é o time do amor. E só o amor é capaz de explicar o sentimento da torcida cruz-maltina por aquele jogo. Aos 48 do segundo tempo, apareceu o imponderável, o épico, o sublime capítulo final do jogo. Grande jogada de Viola pela esquerda, que após um salseiro, rolou para Juninho Paulista chutar. A bola resvalou na defesa palestrina e sobrou livre, leve e solta para Romário só empurrar para o fundo das redes. Era o gol da virada, era o gol do título, era o grito de campeão desentalando da garganta, era a maior virada em uma final que eu já acompanhei em 29 anos de vida.
Naquele 20 de dezembro de 200, eu só tinha 14 anos. Se fosse hoje, provavelmente eu teria bebido toda a cerveja da cidade e feito uma festa sem precedentes. Mas naquele dia, só conseguir ficar com um sorriso no rosto que não saiu até o outro dia, quando encontrei um acanhado primo palmeirense. A verdade é que noites como aquela explicam muito do porquê eu busquei trabalhar com o esporte, principalmente com o futebol. Tem coisas que só o amor explica. E o amor pelo seu clube de coração é infinito.
Ah, se você não tá acreditando em nada disso aí acima, dá uma olhada no que foi esse jogo:
Caso você esteja sem tempo e só queira ver os gols, dá uma olhada:
Juninho Pernambucano com a taça da Mercosul: Última temporada do Reizinho antes de ir para a França.

 

Hélton chegou a seleção após se destacar no Vasco.
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