Meu Jogo Histórico #7 – 17 de dezembro de 2006 e nada mais importa

Texto: Matheus Santos

Ronaldinho faz a marcação à distância. Índio chuta de qualquer maneira para o meio do campo. De cabeça torneou para o Adriano Gabiru. Tocou pra Luiz Adriano, pro Iarley! Olha o gol do Inter pintando. Luiz Adriano tá livre, lá vai Iarley, tocou no Gabiru, ele vai marcar o gol! Atirou… Goooooooooooollll! !Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooll, Gol do Internacional! O Inter vai ser Campeão do Mundo! O Inter vai ser Campeão do Mundo! 36 minutos, jogada espetacular! O Iarley mete no Gabiru – criticado, odiado pelo torcedor do Inter – reverte, ele é o teu amor, torcedor Colorado, ele é o teu amor! São 10 horas da manhã no Brasil! 17 de dezembro de 2006! Prepare a festa torcedor, o Inter vai ser Campeão do Mundo! O Inter vai cortar os cabelos do Ronaldinho, os cabelos do Puyol! Vai rasgar a camisa do Barcelona! O Inter vai ganhar o Mundo! O famoso, rico, milionário e festejado Barcelona está sendo inapelavelmente batido pelo Internacional! Gabiru! Gabiru! – Haroldo de Souza, narrador da rádio Guaíba.

Eram dez horas da manhã no Brasil, e o que parecia impossível até às 09h59’ começava a se tornar a realidade, o Internacional de Porto Alegre seria campeão do mundo em cima do todo poderoso Barcelona, de Puyol, Deco e de Ronaldinho Gaúcho, melhor jogador do mundo até então.

O Internacional viveu uma verdadeira Odisseia naquela partida, desacreditado por grande parte da mídia, qualquer resultado dito antes da partida que não fosse à vitória do clube catalão era sinônimo de deboche e de risadas por parte dos torcedores rivais, felizmente, o futebol, de fato, é uma coisa engraçada, e assim como toda epopeia que envolva deuses, no final as coisas se ajeitam conforme o destino deseja, independentemente do percurso que a história leve, os meios justificarão os finais. Estando assim escrito pelos deuses do futebol, o Internacional seria campeão do mundo naquele ano.

Para um melhor entendimento desse texto, peço que sempre quando me referir a “Odisseu”, vocês saibam que estou me referindo ao Internacional, e que o texto abaixo faz referências ao mais antigo relato de literatura do ocidente e maior clássico da humanidade junto de “Ilíada”, a “Odisseia”, de Homero. Que fique claro que o texto é uma mera brincadeira e uma forma diferente de relatar o maior feito da historia do Internacional, e que muitas partes descritas na obra original foram adaptadas para a situação. Acompanhem agora dividida em quatro “cantos” em forma de prosa, a Odisseia do Internacional, rumo ao titulo do Mundial de Clubes FIFA de 2006. O texto não possui o intuito de metrificar seus versos e nem tenta fazê-lo.

Canto 1 – O Começo

F9 levantando a taça de campeão da LA

Após finalmente sagrar-se campeão da Libertadores da América em 2006, após bater o São Paulo em uma final histórica entre brasileiros, onde o êxito veio a partir da estratégia adotada pelo seu técnico e comandante Abel Braga durante o enfrentamento entre ambas as equipes, o Internacional se viu vitorioso e por ordem dos deuses da FIFA, ficou decidido que o mesmo deveria ir para o Japão e disputar o campeonato mundial como forma de compensação pela vitória no torneio que tanto demorou a chegar.

Em meio a este percurso, o Internacional que agora desejava chegar a sua casa de volta do Japão com a taça de campeão do mundo, acabou passando por algumas dificuldades durante sua jornada pelo campeonato brasileiro, porém, com um planejamento muito eficiente e sólido, nada impediu que o Internacional chegasse a seu destino final, Yokohama.

Neste período ainda houveram diversas vendas de jogadores por parte da equipe colorada, alguns destaques do time que findará o São Paulo na final da Libertadores da América daquele ano já não faziam mais parte do elenco colorado e a dúvida de se conseguiriam bater o poderoso Barcelona no Mundial de Clubes pairava sobre as cabeças dos torcedores colorados.

Seria tal façanha possível?

Canto 2 – As dificuldades no caminho até o objetivo

Se foram longos meses que pareceram mais anos de hiato da final da Libertadores da América até o início do Mundial de Clubes, o Internacional viu sua viagem demorar muito mais do que aparentava que demoraria, resultado do nervosismo, talvez. Mas não só isso, não bastasse à longa e cansativa viagem, o clube sofreu com a comida do local, o que deixou todos os jogadores abalados para o campeonato que começará logo.

Dias depois, já acostumado ao local, o Internacional enfrentará a equipe do Al-Ahly, cuja qual demonstra-se uma forte e equilibrada adversária para o nosso Odisseu.

Naquela noite, na primeira partida do colorado na competição, o clube venceu a equipe egípcia por 2×1 gols de Alexandre Pato e Luiz Adriano, que marcaram um tento em cada tempo da partida.

Sabia-se apesar disso, que aquele havia sido apenas o primeiro de uma série de desafios que ainda viriam pela frente. Logo, logo haveria o embate fronte ao poderoso Barcelona, que ao que tudo indicava e que todos (com exceção de seus torcedores) acreditavam iria derrotar o Internacional.

Canto 3 – O pré-jogo

O esquadrão da morte

Ante a final versus o Barcelona, eis aqui que começa a verdadeira Odisseia, em terras japonesas, do clube. O primeiro revés ocorreu durante o pré-jogo na partida contra o Barcelona, ficou-se sabendo então que o lateral esquerdo peruano Hidalgo, que foi titular na primeira partida da competição, havia sentido uma lesão e estava fora da partida. Com isso, ficou decidido que Rubens Cardoso jogaria em seu lugar.

O “nau” que era guiado por Abel Braga, tinha sua guarnição formada por Clemer; Rubens Cardoso, Índio, Fabiano Eller, Ceara; Edinho, Wellington Monteiro, Alex, Fernandão; Alexandre Pato e Iarley.

Muitos dizem que esse time foi resultado da conversa entre dois deuses chamados Fernando Carvalho e pelo próprio Fernandão que possuía uma influencia gigantesca dentro daquele batalhão formado por guerreiros, enquanto Abel Braga, somente havia dado seu aval para que aquilo viesse a acontecer.

O poderoso Barcelona foi a campo com a mesma escalação que acabou por ganhar do América do México na fase anterior do campeonato. O time catalão montou sua estratégia com: Victor Valdes, Zambrotta, Rafa Márquez, Puyol, Van Bronckhorst; Motta, Iniesta, Deco; Giuly, Gudjohnsen e Ronaldinho Gaúcho.

A atmosfera da partida era incrível, digna de uma batalha, o ambiente era quase que de total adversidade, já que, a grande maioria dos japoneses estavam torcendo pelo clube catalão e muitos deles desdenhavam do até então desconhecido Internacional.

Canto 4 – A partida

A partida começará com o Barcelona tentando impor seu jogo de posse de bola e toques rápidos, o Internacional manteu-se acuado nos primeiros 20 minutos de partida e aos poucos começou a ousar-se em suas ofensivas que eram rápidas e aguerridas.

Raras foram às oportunidades de gols claras na partida durante a primeira etapa, o poderoso Barcelona até então pouco se mostrava tão poderoso assim e via o Internacional fechar muito bem o miolo da sua zaga, por onde o clube catalão buscava realizar seus ataques.

Ronaldinho, e o início de sua decadência

Ronaldinho Gaúcho, cria das categorias de base do grêmio, se equivalera a Poseidon (deus dos mares e inimigo confesso de Ulisses, em a Odisseia, de Homero), manteu um sorriso petulante em sua face durante quase toda a partida, o craque brasileiro que era o melhor jogador do mundo até então, mostrava-se confiante em que a qualquer momento iria usar de seus “poderes” sobrenaturais com a bola e definir o marcador para seu clube.

O Barcelona seguiu pressionando até o final da primeira etapa, porém, sem possuir grandes chances claras de gol, viu um Internacional defender-se de forma organizada extremamente efetiva, buscando reagir em contra-ataques rápidos, se mostrando sempre muito inteligente em suas ações.

No intervalo houveram substituições em ambas as equipes, no Barcelona, Zambrotta deu lugar a Beletti, enquanto Vargas, lembrem dele, entrou no lugar de Alex, pelo Internacional.

A segunda etapa começou, e com ela viu-se um Internacional superior, Vargas tomou conta do meio campo, e a equipe se defendia com primor, enquanto o Barcelona começava a demonstrar sinais de nervosismo, pois não conseguia furar o bem armado time montado por Fernando Carvalho e Fernandão Abel Braga.

Quando tudo parecia normal e que o jogo estava tranquilo para o Internacional, aos 27’ Índio quebrou o nariz e ficou por intermináveis três minutos, que mais pareceram três anos, fora do gramado, tempo esse que foi aterrorizante para os adeptos do clube brasileiro, que se mostrou acuadíssimo e nas cordas enquanto o Barcelona martelava sua defesa, que contava com um homem a menos.

Seguido disso, Fernandão, que já havia sentido câimbras, e estava no sacrifício deu lugar a Adriano Gabiru que era odiado pela torcida do Internacional até então. O torcedor ficou apreensivo, com medo que o pior viesse a acontecer, já que agora, não contavam mais com aquele que os guiará para o sucesso durante muito tempo, porém, lembram-se quando disse que nas epopeias, geralmente são tratados os destinos e que eles irão se cumprir independentemente do caminho que se é percorrido até lá? Pois então, era pra ser, e foi assim.

Aos 36 minutos da segunda etapa aconteceu o que poucos esperariam que fosse acontecer, Índio, que havia quebrado o nariz, afastou a bola para qualquer lado, a bola caiu nos pés de Iarley, que fazia uma partida invejável, que acabará por dar um corte em Puyol e puxar o contra-ataque mais feliz da história do clube, onde, num 3×2 a bola foi tocada para Gabiru, que até aquele momento era desdenhado pela torcida do Internacional, ele dominou, ajeitou, e bateu no contrapé de Victor Valdes que ainda deslizara na bola, porém, sem poder impedir que a bola fosse para o fundo das redes do clube catalão. Era gol! O gol mais importante da história do Internacional, o gol que elevou o clube a outro patamar, o gol que calou os japoneses em Yokohama e fez com os gritos dos torcedores do Internacional que estavam em Porto Alegre, ou em qualquer outra parte do mundo fossem escutados em todo o planeta. Após 97 anos o mundo se tornaria vermelho para nunca mais deixar de ser.

Gabiru, autor do gol mais importante da história do clube

A partida seguiu, os nervos ficaram a toda, Ronaldinho já não sorria mais, Iarley era gigante e ainda viu Clemer operar um milagre no último lance de ataque do Barcelona em jogada do luso-brasileiro Deco, mas não adiantava mais, estava escrito, o título era do Internacional, o mundo era vermelho, estávamos vendo a história ser realizada em 17 de dezembro de 2006 e nada mais importava, o Odisseu, que se chamava Internacional tinha o mundo aos seus pés para nunca mais deixar de tê-lo.

Tudo era festa, o Internacional era campeão e acabará por bater no time mais temido do mundo. Nós vimos a história, nos vimos a profecia acontecer.

E aquele canto da torcida ainda ecoa e faz todo o sentido em nossas cabeças…

“Eu, nunca me esquecerei, dos dias que passei, contigo INTER, colorado é coração, trago, amor e paixão, PRA SEMPRE INTER.”

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