Cine HTE: Um domingo qualquer

“Ou nos curamos como equipe, ou morremos como indivíduo.” Essa frase, dita pelo técnico Tony D’Amato (Al Pacino) do Miami Sharks na preleção do jogo decisivo de playoffs no filme “Um Domingo Qualquer” (Any Given Sunday), de 1999, é impactante. Nesse momento, o treinador expõe tudo que um trabalho em equipe pressupõe: a união em torno de um ideal, onde não importa as individualidades, e sim a conquista do grupo.

Apesar de o filme ter mais de 15 anos de estrada, o discurso de Tonly D’Amato continua sendo muito utilizado por líderes e treinadores esportivos. Recentemente, em entrevista à Folha de SP, o treinador do Corinthians Tite citou esse discurso como sendo o mais inspirador que já viu no cinema esportivo. E, a mensagem contida nele, pode servir não só para o mundo dos esportes e negócios, como para qualquer área de nossas vidas.

A trama gira em torno de uma equipe que vêm de quatro derrotas consecutivas, ao final da temporada regular da competição, precisando de duas vitórias pelo menos para ir para os playoffs. No elenco, temos o veterano QB Jack Rooney (Dennis Quaid), o terceiro reserva da posição Willie Beaman (Jamie Foxx), o RB Julius Washignton (LL Cool J) e o linebacker Julius “Shark” Lavay (Lawrence Taylor), entre outros menos citados. Com a contusão de Rooney, Beaman assume a titularidade da equipe e evidencia o comportamento geral da equipe: O egoísmo. Cada um dos jogadores pensa somente em si, em suas marcas e nos seus objetivos pessoais. Até a presidente da equipe, Cristina Pagniacci (Cameron Diaz), mostra seu lado egoísta ao preocupar-se apenas na questão financeira e não nos jogadores que formaram a franquia.

Tony D’Amato passa a se ver em uma situação complicada. Sem a renovação contratual para a temporada seguinte, precisa juntar os cacos de uma equipe egocêntrica. Vê em Beaman o símbolo dessa questão, pelo fato do jogador não respeitar as chamadas realizadas pelos treinadores e alterar a jogada a revelia de todos.

Em muitas oportunidades da vida, fazemos exatamente como os jogadores desse filme. Pensamos somente nos nossos próprios objetivos e esquecemos que existe um mundo a nossa volta. Pensamos em conquistar determinadas marcas, fazer somente o que nos dá vontade, viver sem pensar nas conseqüências dos atos. Isso é assim no trabalho, na família e no dia à dia. E, toda vez que nos levamos por esse tipo de pensamento, algo errado acontece, ou conosco, ou com as pessoas a sua volta.

Na Grécia Antiga, existia um sábio filósofo chamado Aristóteles. Para ele, o universo inteiro era uma unidade só, onde cada matéria está onde deveria estar e têm suas funções e atribuições. E o caos se origina justamente quando uma das matérias não cumpre a sua função corretamente. Se Aristóteles estivesse no banco no primeiro jogo mostrado no filme, diria que simplesmente a contusão dos dois QBs ocorreu por que o RB Julius Washignton não fez o bloqueio, ou seja, sua função. Ele não cumpriu sua parte com o todo, pensou somente na marca de jardas conquistadas e deixou um vazio, completado pela defesa adversária que trouxe o caos.

É exatamente esse ponto que Tony D’Amato vai tentar trazer no famoso discurso. Quando ele coloca que “ou nos curamos como equipe, ou morremos como indivíduo” mostra para seus atletas que não importa nada suas marcas, se a equipe não conseguir ser uma unidade. No meio do filme, após ser criticado por Willie Beaman, Shark diz que “o ataque é a defesa. O time é uma unidade apenas”. Ou seja, uma equipe de futebol, assim como uma família e uma sociedade não é formada de categorizações separadas, e sim uma única unidade, que vivem em conjunto e dividem o mesmo espaço de convivência e, para haver harmonia, precisamos entender o que é o bem coletivo e não o bem individual.

Ou seja, o trabalho em equipe ou conjunto vai muito além da questão de respeito hierárquico ou o respeito a opinião. Tampouco têm a ver com questão de democracia. O trabalho em equipe é baseado na fé que todos cumpriram seu papel e darão o melhor de si no em sua atividade. Tony D’Amato, no mesmo discurso, completa com “nessa equipe você vai lutar por cada polegada, por cada jogada, por cada ganho porque sabe que o cara que está ao seu lado fará o mesmo por você”. E o melhor para um grupo, nunca será as ações egoístas. Os objetivos individuais nunca serão maiores que as conquistas coletivas.

Por isso, meu amigo leitor, se você já viu esse filme, reveja e reflita um pouco em como é o seu ambiente de trabalho e familiar. Pense no que é o melhor para o coletivo dos grupos sociais que você faz parte. Ouça novamente o discurso de Tony D’Amato. Além de uma ótima opção de entretenimento (coloco esse filme entre os 3 melhores filmes de esporte que já assisti) você poderá aprender muito deixando-se ouvir e analisar como isso pode interferir na sua vida. Afinal de contas, todos nós gostaríamos de uma vida harmoniosa em casa, no trabalho e nas demais relações. E, onde têm harmonia, têm sucesso coletivo que refletirá no individual.

Ficha Técnica

Título Original: Any Given Sunday
Tempo de duração: 162 min
Ano de lançamento: 1999
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Daniel Pyne, John Logan

OBS: A seção Cine HTE não tem a pretensão de fazer uma crítica em si dos filmes, mas relatar e refletir sobre os ensinamentos que são abordados na história, seja baseado em fatos reais ou mera ficção.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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