Reconto HTE #1 – O topo do mundo é seu, Guga

“Se algum dia eu tiver um filho, posso dizer a ele que já fui o melhor do mundo”. Gustavo Kuerten, o inesquecível Guga, disse essa frase na premiação do Masters Cup (atual ATP Finals), em 3 de dezembro de 2000. Guga conseguir uma façanha inédita para os sul americanos até então: Fechar o ano como primeiro do ranking mundial de tênis. Guga cravava, mais uma vez, seu nome na história do tênis mundial.

E foi uma competição dura para o brasileiro que três anos antes surpreendia a todos quando, com apenas 21 anos, vencia o grand slam de Roland Garros. Sempre com uma alegria contagiante, lutou desde então para chegar ao topo. Se na época era um jogador apenas de quadras de saibro, chegou a Lisboa para o Masters Cup muito mais maduro e completo, jogando muito em quadras duras também.

Guga estreou na competição contra um dos maiores tenistas de todos os tempos, André Agassi. E a partida não foi como os brasileiros gostariam. Lutando contra muitas dores, que anos mais tarde forçariam sua prematura aposentadoria das quadras, Guga sucumbiu a melhor condição do americano. Venceu o primeiro set, mas perdeu os dois seguintes. Guga precisaria de duas vitórias para classificar-se para as semifinais.

Mas, antes do jogo seguinte, teve um providencial dia de descanso, para tratar das dores. Dia que fez grande diferença no decorrer da competição. Na segunda rodada, enfrentou Magnus Norman. Com 15 aces, fechou a partida em 2 sets a 0 com pouco mais de uma hora de duração, o ideal devido a sua condição física. Foi para o último e decisivo jogo da fase de grupos contra um dos seus adversários mais conhecidos na carreira, o ucraniano Yevgeny Kafelnikov. E Guga dominou completamente o ucraniano, fechando o jogo em 2-0 com apenas 1 hora e 9 minutos, sendo a partida mais rápida do torneio.

Chegou a hora da semifinal contra ninguém menos que Pete Sampras, discutivelmente o melhor tenista da história pré-Roger Federer. Até essa data, Kuerten não havia vencido nenhum confronto com Sampras na carreira. E o americano já começou quebrando o serviço de Guga, que se recuperou, mas perdeu no tie-break. No segundo set, o brasileiro começou a dominar as ações do jogo e fechou em 6-3, levando a decisão para quem iria para final para o terceiro set. Mais equilibrado, Guga quebrou o saque de Pete Sampras para servir para o jogo. Mas Sampras quase conseguiu estragar a festa do brasileiro, com dois break-points. Quase, porque Guga recuperou-se mais uma fez e fechou o set em 6-4 e garantiu presença na final.

Na outra semifinal, Marat Safin, então número 1 do ranking foi eliminado. Com isso, além do título, a final valeria também o primeiro lugar da ATP para Guga. Mas o adversário seria o mesmo da derrota na estréia, Andre Agassi. E o jogo foi épico para Guga, que considera como o melhor jogo de sua vitoriosa carreira. Com um triplo 6-4, venceu por 3 a 0 em 2 horas e 6 minutos, tempo que seus preparadores diziam que ele tinha condições de suportar por conta das dores. Foram 19 aces em uma atuação impecável. Era a primeira vez que um tenista vencia em semifinal e final de qualquer torneio, Pete Sampras e André Agassi. O topo do mundo do tênis seria brasileiro, seria de Gustavo Kuerten.

Ainda lembro-me das primeiras palavras de Kurten, enquanto assistia em casa a premiação. Ao pegar o microfone, disse: “Essa é a primeira vez que vou poder falar como campeão em português e todo mundo vai me entender”. Se a torcida já tinha ficado ao lado dele ao longo da final, Lisboa ficou eufórica. E, conforme falava e se emocionava, eu me emocionava junto assistindo. Guga é um exemplo de como um ídolo do esporte deve ser. Um grande atleta, mas também uma grande pessoa. Sempre foi receptivo com qualquer um que o abordasse para uma entrevista, sem dar preferência para qualquer veículo de mídia, recíproco com os fãs e com uma alegria contagiante. Uma conquista mais do que merecida, para um dos maiores nomes do esporte brasileiro.

A SÉRIE

A série RECONTO HTE é destinada a lembrar grandes momentos, histórias e personagens do esporte brasileiro e mundial. Ao longo do tempo, iremos trazer aqui grandes rivalidades, confrontos marcantes e tudo que nos fez um dia nos apaixonarmos por esporte. Afinal, aqui no HTE Sports, #TorcerÉPouco.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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