SOBERANO’S #50 – O dia em que a Ferrari atropelou o Barcelona

“Se for para ser atropelado, melhor que seja por uma Ferrari”. Essa foi a frase dita por Johan Cruyff, treinador do Barcelona em 1992, após a final do Mundial Interclubes que terminou com a vitória do São Paulo de Telê Santana, que definitivamente deixava para trás a fama injusta de pé frio para se eternizar como um dos maiores treinadores da história do futebol. Esse jogo é, também, minha primeira lembrança clara de um jogo do São Paulo que acompanhei, não somente do jogo em si, mas de como assisti.

Claro que tenho algumas memórias anteriores àquele 13 de dezembro, onde eu havia completado dias antes 9 anos de idade, mas nenhuma tão limpa quanto aquela madrugada. Era uma hora da manhã em São Bernardo do Campo, onde morava com meus pais e meus irmãos. No Japão, o relógio marcava uma hora da tarde e o São Paulo entrava em campo no Estádio Nacional de Tóquio, com Zetti no gol, Vítor e Ronaldo Luís nas laterais, Adílson e Ronaldão na zaga, meio de campo composto por Pintado, Toninho Cerezo, Cafú e Raí, com Muller e Palhinha no ataque. Na sala do apartamento em frente a TV estavam eu, meu irmão Rafael, seu amigo Jorge e meu avô Moacir.

Nessa época não era tão comum acompanharmos tanto o futebol europeu como agora, mas o nome Barcelona impunha respeito. A equipe tinha a base da seleção espanhola, com jogadores como Zubizarreta, Ferrer, Guardiola, Bakero e Luis Enrique, além dos estrangeiros Stoichkov (Bulgária), Michael Laudrup (Dinamarca) e Ronald Koeman (Holanda). Todos jogadores titulares em suas seleções quando disputaram as Copas de 94 e/ou 98. A escola de jogo vista e admirada do Barcelona hoje já estava em prática nessa equipe, sob o comando de Cruyff, um dos melhores, senão o melhor, jogador do mundo da década de 70. Não seria um confronto fácil com toda a certeza.

O jogo mal tinha começado e, aos 12 minutos, num chute da intermediária colocado com perfeição no ângulo de Zetti, Stoichkov abriu o placar. Em casa, Jorge comentou: “Cara%#@&, primeiro chute a gol”. O São Paulo de Telê Santana jogava e deixava jogar. Telê era contra o antijogo, contra fazer faltinhas para parar as jogadas adversárias. Gostava do jogo limpo, leal e que vença o melhor. Seria necessário o melhor das principais peças ofensivas do tricolor nesse dia, ou seja, precisaríamos de grandes atuações de Raí, Muller, Palhinha, Cafú.

No seu livro “1992 – O mundo é tricolor”, Raí conta que logo no começo do jogo aplicou um chapéu em Guardiola. Segundo o próprio, o capitão tricolor queria que os demais jogadores se sentissem confiantes para arriscar dribles, jogadas e ficassem à vontade no jogo. Nada melhor que buscar um lençol no volante adversário. Honestamente, não me lembro desse lance em especial, mas lembro que, após o gol, o São Paulo, no toque de bola ofensivo, característicos de times treinados por Telê, passou a dominar o jogo. Pela esquerda, Muller arrancava e deixava sempre alguém na cara do gol para finalizar com perigo. Aos 27, aplicou dois dribles em Ferrer e cruzou a meia altura. Raí entrava pelo meio da pequena área e se jogou na bola, que bateu em sua barriga e entrou no gol de Zubizarreta para o empate, que persistiu até o intervalo do jogo. Muller quase marcou por cobertura um belo gol e Ronaldo Luís salvou um do Barcelona em cima da linha.

Durante o intervalo, na sala eu mais ouvia a conversa do que falava. Afinal, ainda não entendia muita coisa, apenas torcia. Jorge repetia o comentário de o gol ser no primeiro lance, meu avô apenas balançava a cabeça. Pouco antes das equipes voltarem para o segundo tempo, meu irmão solta a frase “Quem fizer o próximo gol, ganha o jogo”, ao que meu avô balançando a cabeça positivamente concorda dizendo “Tem que marcar primeiro”. É incrível como essa cena nunca mais saiu de minha cabeça. Ainda posso ver nós quatro na sala, já no meio da madrugada, as feições, os movimentos, os locais em que cada um estavam sentados (Eu no chão, embaixo da janela, meu irmão e seu amigo no sofá de frente para a TV, com meu irmão mais próximo de mim e meu avô no outro sofá de canto). Lembrança que talvez seja a mais nítida da minha infância. Não foi o único jogo que nós quatro vimos na sala da minha casa. Meu avô sempre esteve conosco e assistia aos jogos com seu inseparável radinho de pilha. Jorge cresceu como um irmão nosso, amigo daqueles que estiveram juntos em todos os momentos da família, da mesma idade que meu irmão (6 anos mais velho que eu). Mas, nenhum jogo ficou tão na memória como esse.

O segundo tempo começou e o jogo seguiu equilibrado. A máquina de Telê jogava muito. Desde que começou a montar essa equipe, o São Paulo já havia conquistado o Paulista e Brasileiro em 1991, a Libertadores (por que para ter Mundial, precisa vencer a competição continental) daquele ano e estava em meio a final do Campeonato Paulista daquele ano, em coisas que só o calendário brasileiro que já foi muito mais zoneado que hoje faz por você. Mas, mesmo com uma maratona extensa de jogos no ano, fisicamente o São Paulo se apresentava muito bem. E, aos 34, falta na proximidade da área. Cafu e Raí ficam perto da bola. Raí rola a bola, Cafú para, e Raí bate, no mesmo canto do gol de Stoichkov no primeiro tempo, indefensável para Zubizarreta que apenas assiste. O São Paulo vira o jogo, Telê levanta sorrindo do banco e eu pulo de alegria como uma criança (afinal eu era uma criança mesmo). Pela primeira vez, o São Paulo conquistava o mundo.

Conquista que moldou o torcedor são-paulino de hoje. Que não se contenta mais com pequenos torneios, com desempenhos medianos. Quer um São Paulo que vença, convença e conquiste o campeonato que estiver disputando. Tem uma obsessão absurda pela Copa Libertadores da América, onde eleva a ídolo quem estiver no elenco vencedor e condena jogadores e treinadores que não conseguem êxito. Exemplo claro disso é Muricy Ramalho, que mesmo com a conquista do tricampeonato brasileiro de forma consecutiva, ainda é visto com ressalva por parte da torcida por conta das seguidas eliminações na competição. E também o M1to recém aposentado Rogério Ceni, chamado de pipoqueiro após a eliminação na semifinal de 2004 para nunca mais sair da história com a conquista no ano seguinte.

O São Paulo nunca foi mais o mesmo à partir desse jogo contra o Barcelona. A Ferrari, o time que ganhava e encantava, colocava definitivamente Telê Santana na galeria dos imortais da bola. Colocava Raí como melhor jogador brasileiro em atividade. Mostrava que não era necessário o antijogo para vencer. Marcou a época mais vitoriosa da história do clube, em quantidade e importância dos títulos. Marcou-me como torcedor. Não saiu mais da cabeça. Muito do que acompanho hoje se deve a momentos como esse. Momentos em que estava junto da minha família vendo o São Paulo conquistar tudo o que podia. Hoje, 13 de dezembro de 2015, é dia de lembrar-se da mesma data em 1992 e agradecer por ter tido a oportunidade de acompanhar, junto do meu irmão, meu avô, o melhor time do São Paulo de todos os tempos. O mundo e a Ferrari são tricolores.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

%d blogueiros gostam disto: