Centenário, campeonato paraibano mostra força, cresce, mas ainda enfrenta problemas

Texto: Marques de Souza

“Era 10 de janeiro de 1908, na capital João Pessoa, quando o acadêmico José Eugênio Soares trouxe do Rio de Janeiro a primeira bola de futebol. Juntamente com outros colegas, cinco dias depois, realizaram o primeiro ensaio de futebol, nas imediações onde hoje localiza-se a Praça da Independência. […] a grande massa popular não cansou de dirigir saudações aos componentes de tão bela diversão.” Ficaram apaixonados!

Elenco do hexacampeonato do Campinense, na década de 60. (Foto: Retalhos Históricos de Campina Grande)
Elenco do hexacampeonato do Campinense, na década de 60. (Foto: Retalhos Históricos de Campina Grande)

Até meados de 1938, o que chamamos hoje de campeonato paraibano era um torneio municipal. Somente equipes de João Pessoa, capital da Paraíba, eram credenciadas a participar. Não se via equipes do interior até que, em 1939, o Treze apareceu para mudar esse quadro. Foi a primeira equipe fora da área metropolitana da capital a disputar o certame, situação que em 1940 e 1941, com o bicampeonato do Alvinegro de Campina Grande em cima do Botafogo, indicava o início de uma competição mais democrática. As manchetes da época noticiavam o time do interior que triunfou em cima do time da capital.

Desde então, as glórias no estadual se restringiram a duas cidades: João Pessoa e Campina Grande. Em 1946, o Felipéia, de Bayeux, foi a primeira equipe fora desse eixo a se consagrar campeã. Mas em tantos anos de história, feitos como esse só repetiram em poucas datas: 1994, 2009, 1995, 1996, 1997 e 2007. É uma verdadeira “hegemonia cultural” onde das mais de 100 edições já realizadas, só em 3 (94, 95 e 07) não houve um time de Campina Grande ou João Pessoa no jogo final.

Para ser mais preciso, são 105 edições de um campeonato com mais de 108 anos que mostra força, cresce, mais ainda enfrenta problemas.

Novo (velho) problema: estádios

Há alguns anos o problema acontece, sempre no início da temporada: os estádios não estavam liberados para o acontecimento de jogos. Após reuniões junto com o Governo do Estado da Paraíba e a liberação do uso, mas com restrições de número de torcedores, o caso acabou causando uma novela, que o torcedor já conhece muito bem todos os capítulos.

Em alguns casos, nada foi solucionado ainda, como o do Treze que, sem liberação do PV, estreia no Paraibano jogando no Estádio Amigão.

Estádio Governador Ernani Sátyro, o "Amigão", em Campina Grande-PB. (Foto: Blog do Campinense)
Estádio Governador Ernani Sátyro, o “Amigão”, em Campina Grande-PB. (Foto: Blog do Campinense)

Fórmula questionada

Dez clubes disputam o Campeonato Paraibano. As novidades em 2016 são Esporte de Patos e Paraíba de Cajazeiras, campeão e vice da segunda divisão do ano passado, que disputam a elite nas vagas de Lucena e Miramar.

A Federação Paraibana de Futebol, amparada pelo novo calendário da CBF, deu poder aos clubes para a construção da fórmula de disputa. O formato é confuso. Os dez clubes serão divididos em dois grupos. Na primeira fase, as equipes do grupo A enfrentam as do grupo B, em jogos de ida e volta. Os três primeiros de cada grupo avançam.

A polêmica surge quando, na teoria, o lanterna de um grupo pode ter mais pontos do que o primeiro do outro. Enquanto o time com mais ponto e melhor aproveitamento segue para o Torneio da Morte, o outro, de pior aproveitamento, segue para o mata-mata.

Na fase dois, os seis classificados se enfrentam em jogos eliminatórios. Os vencedores disputam as semis, assim como o melhor perdedor. Nas semifinais, mais dois jogos eliminatórios. E os vencedores decidem o título.

Sede da FPF, organização que controla o futebol na Paraíba. (Foto: Hévilla Wanderley/GEPB)
Sede da FPF, organização que controla o futebol na Paraíba. (Foto: Hévilla Wanderley/GEPB)

Consolidação de público

Diferente de 1980, quando a TV Borborema, pela primeira vez transmitiu a final entre Campinense e Botafogo, ocorrida no Estádio Amigão, a internet e o início da cobertura dos diversos meios de comunicação, incluindo os de TV Fechada, tornaram o campeonato mais acessível. Em 2016, mais de 20 veículos, incluindo mídias virtuais, impresso, rádios e TV farão diretamente a cobertura do futebol paraibano, principalmente nesse início de estadual.

O resultado foi imediato e a resposta veio no levantamento feito pelo site “Sr goool”, onde afirma que o Campeonato Paraibano é o torneio que tem melhor média de público entre os estaduais da região Nordeste. A média de torcedores por jogo é de 3.484 pagantes. Na segunda posição está o Pernambucano, com 3.438 pessoas por partida, apenas 46 pessoas a menos que no certame paraibano.

Segundo pesquisa feita pela Pluri Consultoria em fevereiro de 2013, o Treze possui a maior torcida da Paraíba, o Campinense possui a segunda maior torcida e o Botafogo-PB, a terceira.

Torcida do Campinense segue ônibus da Raposa. (Foto: TV Paraíba)
Torcida do Campinense segue ônibus da Raposa. (Foto: TV Paraíba)

Rivalidade e o “Interior x capital”

Treze e Campinense são dois clubes de Campina Grande, localizada no interior do estado, e realizam o clássico conhecido como Clássico dos Maiorais, considerado o maior clássico da Paraíba e um dos maiores do Nordeste pela sua rivalidade e o público que leva ao estádio. No Treze x Botafogo-PB, a rivalidade existente entre a capital João Pessoa e Campina Grande se faz presente nesse clássico conhecido como Clássico Tradição, sendo considerado uma das maiores rivalidades do estado. Já Campinense x Botafogo-PB, formam um dos clássico de maior rivalidade da PB, pois envolve os maiores campeões do estado, marcado por um grande equilíbrio e acirramento.

Fatores externos

O Santa Cruz enfrentaria o Treze, em partida que iria acontecer neste sábado (30), às 17h. A partida foi adiada e sem previsão de nova data. O motivo do adiamento? A polícia militar alegou que não teria como fazer a segurança do jogo porque grande parte do efetivo havia se comprometido para blocos de carnaval. Fatores externos, como um problema de cunho social (falta de contingente policial), que acaba afetando diretamente a boa realização do campeonato.

O Estádio José Américo de Almeida Filho, ou simplesmente Almeidão, está localizado em João Pessoa, na Paraíba.
O Estádio José Américo de Almeida Filho, ou simplesmente Almeidão, está localizado em João Pessoa, na Paraíba.

União e profissionalização

É momento de federação e clubes se atentarem ainda mais para a profissionalização, tendo em mente que o maior feito de uma gestão vai muito além de títulos, mesmo que ser campeão seja a maior exigência. A maior herança que um líder pode deixar para uma instituição é o pensamento de que não se comanda sozinho, mas sim fazendo cada departamento ter autonomia e criatividade para realizar suas funções da melhor forma possível. O campeonato paraibano tem história e equipes tradicionais, que precisam ser estimuladas e organizadas cada vez mais de modo que, caminhem juntas pelo crescimento e tenham noção do peso da camisa que carregam. Apoio privado e investimentos em sócio torcedor e infraestrutura são pilares importantes para que dificuldades não aconteçam e o futebol paraibano continue sendo e se confirmando ainda mais como um dos mais importantes do nordeste.

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