O último rodeio

Após o confronto do Denver Broncos e New England Patriots no último domingo, Peyton Manning e Bill Belichick trocaram um abraço e algumas palavras. Alguns microfones captaram as palavras de Peyton, dizendo que poderia ter sido o último rodeio entre os dois adversários de longa data, mas que sempre tiveram muito respeito entre si. Essa declaração é um indicativo que o Super Bowl 50, daqui a uma semana, será o último jogo da carreira do já lendário QB que, aos 39 anos considera sua aposentadoria antecipada, um ano antes do previsto em contrato com a franquia do Colorado.

Foto: CBS Sports

Poderia eu aqui fazer mais um texto como muitos que existem por aí, exaltando os números e a carreira de Peyton Manning. Desde que começamos a cobrir a NFL com maior freqüência aqui no HTE Sports, procuramos em nossas análises mostrar imparcialidade. Eu, Marcelo Tadeu Parpinelli, um dos escrevem aqui opiniões semanais, não tenho problemas em revelar para quem vai minha torcida. No futebol, torço para o São Paulo. No basquete, Chicago Bulls. E na NFL, Indianapolis Colts. E essa torcida ocorreu justamente por conta de Manning. Por isso, hoje, não farei uma análise, e sim, um texto de um cara que aprendeu a gostar do esporte por conta de um ídolo.

Sempre gostei de esportes, digamos, “alternativos”. No Brasil, a maior parte das crianças começa a ser influenciadas pelos pais, irmãos mais velhos e amigos a escolher um time de futebol. Gostando ou não gostando, em algum momento acaba-se declarando torcedor de alguma equipe. Não fugi à essa regra. Mas aos poucos fui assistindo outras modalidades. Nos anos 90, Michael Jordan me puxou para o basquete. Passava madrugadas em claro para ver na Band ou ESPN Internacional os jogos do Bulls. Nessa época, conhecia por cima o futebol americano, de passar pela transmissão vez ou outra, de ouvir alguns nomes e de jogar os primeiros Madden nos vídeos games. Mas não tinha ainda uma paixão pelo esporte em si.

Por volta do ano de 2006, comecei a assistir a liga, acompanhar alguns jogos, principalmente os de segunda e domingo à noite, como parte para curar a insônia que sempre me acompanhou. Já nessa época, Peyton Manning e o Indianapolis Colts chamavam a atenção, estando muitas vezes em jogos nesses horários. A cada jogo que passava e que começava a entender as regras e particulares do esporte, me encantava com as formas utilizadas por Manning para fazer o time anotar pontos. Sua inteligência para mudar as jogadas pré-snap, os passes precisos para os recebedores terem caminho livre e fazerem big plays,a execução perfeita do play-action, enfim, tudo isso foi formando um fã da NFL e torcedor do Colts.

Infelizmente ainda não era assíduo quando o Colts eliminou o Patriots na final de conferência para vencer o Super Bowl contra o Chicago Bears. Meu vício na NFL veio um pouco depois, assim como minha ansiedade diante dos grandes jogos, como foi no Super Bowl contra o New Orleans Saints. A interceptação ao final do jogo em um drive me marcou muito. Assim como o ano que ele não pode jogar por conta da cirurgia no pescoço e o Super Bowl seria no Lucas Oil Stadium. Também fiquei consternado, apesar de entender as razões, pela decisão da equipe do Colts de cortá-lo para draftarem Andrew Luck. Continuei torcendo pelo Colts, mas não deixei de acompanhar o ídolo na sua nova equipe.

Após as eliminações do Colts nas temporadas seguintes, torci nas rodadas seguintes pelo Denver Broncos. Fiquei na expectativa de um jogo espetacular contra o Seattle Seahawks dois anos atrás. Expectativa do mesmo tamanho que estou agora para o próximo domingo, onde sim, torcerei novamente para o Denver Broncos, não vou negar.

Por que além das decepções citadas acima, vi também grandes jogos de Manning com a camisa 18, tanto do Colts como do Broncos. Criei, assim como muitos, uma rivalidade com o New England de Tom Brady e Bill Belichick, de torcer sempre contra a equipe do Patriots, uma vez que todo herói precisa de um vilão. E vi por diversas vezes Manning vencer esses clássicos. Vi quebrar recorde por recorde a cada temporada. Se essa temporada pode ser considerada, apesar de estar em mais um Super Bowl, sua pior da carreira, vi também sua melhor. E, se a aposentadoria ocorrer de fato, sei que não será mais a mesma coisa acompanhar a NFL.

Foi assim que me senti quando Michael Jordan anunciou a aposentadoria. Não deixei de acompanhar a NBA e admirar o desempenho de jogadores como Kobe Bryant, Steve Nash, Jason Kidd, Tim Duncan, LeBron James e, mais recentemente, Stephen Curry. Continuo torcedor do Chicago Bulls, acompanhando os perfis oficiais e não oficiais da equipe, procurando streams pela internet para ver os jogos, mas a paixão pelo esporte não é mais a mesma. Ídolos quando se aposentam, não se aposentam sozinhos, aposentam também os fãs.

Não deixarei de acompanhar a NFL. O vício pela esporte já tomou conta e assisto com muito prazer jogos de Aaron Rodgers, Cam Newton e, claro, Andrew Luck. Fico nervoso e ansioso em dias de jogos do Colts. Reclamei e pedi a demissão de Chuck Pagano e Ryan Grigson em grupos de torcedores da equipe de Indianapolis. Quero me sentir novamente ansioso pela expectativa de um Super Bowl que o Colts estará presente. Mas já não será a mesma coisa. Ídolo é aquele que, por qualquer motivo que seja te leva a acompanhar sua carreira, seus jogos e sua equipe. É aquele primeiro jogador que te faz torcer. Não há substituição de ídolo. Você continua torcendo por sua equipe, mas já não será do mesmo jeito.

Deve ser realmente o último rodeio de Peyton Manning. O último jogo. Quem sabe, o último título. Será o encerramento de um ciclo desse que vos escreve no acompanhamento do futebol americano. Será o fim de uma era.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

%d blogueiros gostam disto: