Times na Premier League mostram que nem sempre gastar muito significa ser melhor

Texto: Matheus Santos

No mundo atual, em especial no futebol moderno, sem dúvida alguma a pior coisa que rodeia o esporte mais popular do mundo são as janelas de transferências e a obsessão que ela traz por gastos astronômicos, seja por negócios que realmente estão acontecendo ou por especulações desnecessárias sobre potenciais destinos de jogadores que são fundamentadas no tipo mais raso de informações.

Ao que parece, existe uma conclusão feita pelo senso comum de que, aparentemente, o único modo de uma equipe melhorar e de se obter melhores resultados na temporada que se adentra é gastando –muito– dinheiro. O que faz parecer que coisas como uma maior harmonia entre os jogadores que a equipe já possui, o desenvolvimento de atletas de uma forma individual, ou até mesmo a maior facilidade com as instruções do treinador não se fazem válidas, ou seja, não importam. Logo, aparentemente, a chave para o sucesso é simplesmente gastar milhões em quem está disponível.

No entanto, a Premier League desta temporada bate de frente com essa máxima apresentada nos dois parágrafos anteriores, tendo entre suas principais equipes desta temporada um antídoto para isso. O maior exemplo disso são os comandados por Arsène Wenger que atualmente estão liderando a liga e se mostram capazes, ao contrário de outras oportunidades, de se manterem lá e brigarem pelo título do campeonato até o final da temporada.

Vale lembrar, que o Arsenal começou a temporada sendo duramente criticado por não assinar quaisquer novos jogadores de linha, já que, sua única contratação foi Petr Cech, que –apesar de um início pouco difícil e com algumas falhas– justificou a crença de Wenger de que ele seria o principal componente necessário para levar os Gunners rumo ao título da Premier League. Cech trouxe para o Arsenal tudo aquilo que uma equipe que almeja ser campeã precisa, falo de segurança, o goleiro que orienta o setor defensivo em espanhol, francês e inglês é um fator importantíssimo para a boa campanha da equipe londrina, enquanto, logo após sua contratação dizia-se que ele poderia facilmente “dar” 13 pontos ao clube no final da classificação, o goleiro já assegurou com suas defesas importantes (aquelas que evitam gols de empates em partidas que acabam com o resultado mínimo ou até mesmo evitando derrotas) algo muito próximo a isso, com somente metade da temporada tendo se passado.

No entanto, o desenvolvimento dos números do Arsenal nessa Premier League até o momento não se dão por causa de contratações que foram feitas recentemente, mas sim devido a jogadores que já estão no clube a algum tempo.

Mertesacker e Koscielny atualmente formam a melhor e mais entrosada dupla de zaga do campeonato, tendo ambos desenvolvido uma relação dentro das quatro linhas muito boa ao longo destes QUATRO anos que atuam juntos. Francis Coquelin, que de quase dispensado na segunda divisão inglesa, virou solução para a volância da equipe de Arsène, assim como Hector Bellerin que subiu da equipe U21 do clube e se firmou como titular da lateral direita, resolveram velhos problemas do time londrino.

No melhor do clube na temporada, Santi Cazorla foi reposicionado e virou uma espécie de segundo volante, onde fazia toda transição de bola da equipe, já que Coquelin possuía dificuldades em executar tais funções, enquanto, Aaron Ramsey foi deslocado para a ponta direita do gramado, onde auxiliava a Hector Bellerin na marcação (aos que não sabem, Hector é um ex winger da base do Barcelona que quando transferido ao Arsenal foi descolado para a lateral direita nas equipes de base do clube). Ramsey e Theo Walcott, ainda são dois dos casos mais claros da paciência e a da fé de Arséne Wenger por anos em seus jogadores e hoje rendem alegrias contribuindo muito com a equipe daqueles fãs que muitas vezes –e com razão– se mostraram frustrados com os mesmos.

Atualmente também o Arsenal possui Monreal, o melhor lateral direito da liga (segundo dados do Opta), que assim como Giroud melhorou muito com o aumento de experiência na disputa da Premier League, enquanto, Mesut Özil finalmente conseguiu se adequar fisicamente e mentalmente ao ritmo da liga e em sua terceira temporada com a camiseta Gunner, vive o melhor momento da carreira, sendo destacado constantemente como um dos melhores “10” do mundo, tendo de longe a maior média de assistências da Premier League e estando muito próximo de bater o recorde de assistências da liga em uma só temporada, que atualmente pertence a Thierry Henry.

Depois disso, há mudanças mais sutis. A equipe possui uma maior eficácia nos lances de bola parada desde que Özil assumiu as cobranças, uma maior inteligência tática e flexibilidade, além de uma melhora significativa nos confrontos grandes da liga em que geralmente perdiam. Hoje a equipe possui uma maior organização e, aparentemente, não se intimida com adversários fortes.

Pode-se destacar como uma contratação de peso e que poderia mudar a equipe de Arsène Wenger da noite para o dia o nome do chileno Alexis Sanchez que trouxe para o Arsenal um leque de improviso e de genialidade. Obviamente, todos os outros jogadores que foram acima mencionados foram contratados em algum momento, mas o bom futebol apresentado recentemente é resultado da fé de Wenger em seus desenvolvimentos individuais ou por sua reorganização tática que geralmente sofre muitas críticas, mas que para um treinador que prega a importância da estabilidade e por um planejamento em longo prazo, agrada muito.

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Leicester faz campanha de gente grande na liga mais difícil do mundo

O segundo colocado da Premier League, o Leicester City possui uma história similar, e, apesar de terem assinado com Claudio Ranieri como seu novo treinador, além da excelente contratação de N’Golo Kante na janela do verão europeu e outros recém chegados que possuem uma função tática muito interessante como Christian Fuchs e Shinji Okazaki, nada explica a transformação da equipe até se tornarem candidatos ao título da competição. Créditos para o desenvolvimento incrível de Jamie Vardy que vem se mostrando incrível até aqui e que há três anos estava disputando a quinta divisão inglesa, além, claro, do ótimo winger argelino Riyad Mahrez, que é o jogador que mais contabiliza participações em gols no campeonato. Não bastasse isso, a organização da equipe em se fechar todo atrás da linha do meio campo quando está sem a bola e diminuir o espaço da criação ofensiva dos adversários, acaba fazendo com que a equipe consiga recuperar a bola e aliviar a pressão sobre seus meios-campistas que conseguem fazer a bola sair com qualidade para os contra-ataques da equipe que se mostram mortais até aqui.

A contratação de Claudio Ranieri se faz muito importante para a mudança de espirito da equipe, já que é um treinador que se acostumou a acabar na metade da tabela do campeonato e sem dúvida alguma ajuda muito no nível de ambição e crença que é oferecida pelo treinador para sua equipe.

Harry Kane é além de cria da casa, um dos grandes destaques dos Spurs

Tottenham também têm melhorado, aparentemente, por causa de fatores “internos”. A equipe parece mais organizada na segunda temporada de Mauricio Pochettino, com jogadores que agora entendem o sistema utilizado pelo argentino. Seu meio campo está mais compacto, o que resultou num melhor desempenho de seus zagueiros, em especial de Eric Dier que foi reposicionado no meio-campo, fazendo a função de volante da equipe e desempenhando um papel importante. Fisicamente, a equipe parece melhor também, o que é imprescindível para uma equipe que passou a atuar de forma mais intensa.

As contratações possuem um papel importante também, mas vale a pena lembrar que Toby Alderweireld, que possui grandes atuações ao lado de Vertonghen até aqui, repetem a companhia de quando jogam juntos pela Bélgica e também de quando eram companheiros de Ajax, o que foi preponderante para sua contratação, mostrando que muitas vezes a parceria e o entrosamento superam o puro talento individual. Ao mesmo tempo, Dele Alli tem sido a grande revelação da equipe, e se mostra um exemplo fantástico de como os clubes não precisam gastar fortunas para assinar com as jovens revelações da Europa, já que, Alli custou apenas £5 milhões, tendo saído da terceira divisão inglesa.

Ao que parece, claramente é interessante mostrar isso porque os torcedores não são apenas obcecados com contratações em si, mas sim com o próprio conceito de gastar dinheiro. O que antigamente a torcida do Arsenal cantava para seu treinador como “Wenger Out” (Fora Wenger), nos últimos anos se transformou em um “Spend some fucking money” (Gaste a por*a do dinheiro), o que faz com que se consiga identificar o quanto alguns fãs estão focados apenas no ato de gastar dinheiro, por gastar.

E essa obsessão com o gastar dinheiro por gastar é provavelmente, nada mais do que um reflexo de uma sociedade cada vez mais consumista que pensa muito mais no gastar, do que nos resultados que isso irá trazer para si e para suas reais necessidades. Gastar virou apenas um hobby.

Mas, enquanto o futebol continuar sendo um esporte terrivelmente rico, irá ser comprovado ano após ano que isso não garante resultados. A verdade é que uma janela de transferências sem gastar fortunas é muitas vezes a melhor receita para o sucesso. A forma como Arsenal, Leicester e Tottenham tem levado as coisas, fornece para os outros clubes uma valiosa lição: às vezes, as soluções para os seus problemas estão bem debaixo do seu próprio nariz.

Publicação baseada no texto publicado por Michael Cox no ESPN FC Internacional, leiam na integra, em inglês: http://www.espnfc.com/blog/tactics-and-analysis/67/post/2780868/arsenal-leicester-and-spurs-impress-without-big-spending


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