Os comentários de torcedores-dirigentes

Após a derrota para o The Strongest por 1 x 0 no Pacaembu pela estréia na fase de grupos da Taça Libertadores, Rodrigo Gaspar, assistente do presidente do São Paulo Carlos Augusto de Barros e Silva, o popular Leco, soltou os cachorros contra diversos jogadores do elenco e do auxiliar técnico Milton Cruz. Michel Bastos, Centurion e Rodrigo Caio (que anotou o gol da vitória sobre o Rio Claro, pelo Estadual, nesse domingo) foram os alvos de Gaspar, num ataque de raiva e descontentamento pelo resultado da última quarta-feira. Prato cheio para instalar uma nova crise nos conturbados bastidores do Morumbi.

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A grande questão que ficou nesse episódio é: Quando uma pessoa ocupa um cargo dentro da administração de um clube, os comentários, mesmo que pessoais, são da pessoa ou do clube? Claro que a pessoa não deixa de ser torcedor. Sem nenhuma estatística fundamentada, diria que, pelo menos, 90% dos dirigentes e funcionários diretos deles em um grande clube, são torcedores da agremiação que fazem parte. Esses 10% restantes são para funcionários remuneradores, como os novos executivos de futebol que estamos cada vez mais nos acostumando a ver nas organizações dos clubes. Sendo assim, obviamente Gaspar, que ocupa um cargo próximo ao mais alto dirigente do São Paulo, deve ser são-paulino e comentou tudo aquilo em suas redes sociais como torcedor e não como assistente do presidente. Sua opinião claramente não representava a do clube, pelo menos não a que se pode divulgar livremente na imprensa.

Ocorre que, por ser um cargo com relativo destaque, tudo o que ele disser, principalmente de negativo, vai ser muito explorado pela mídia de hoje. Vivemos em uma época com pelo menos três canais de televisão que tem programas de debate das 10 horas da manhã até a meia-noite, onde qualquer frase de impacto, dita numa entrevista ou escrita em uma rede social será debatida por pelo menos 30 minutos em cada programa. Sem contar os numerosos blogs de jornalistas e caça-cliques que exploraram ao máximo a polêmica. E o torcedor, que também ganhou muita voz com a rede social, vai repercutir ao extremo essas declarações, comentando entre amigos e com comentaristas esportivos que dão essa abertura nos mesmos canais. Ou seja, o comentário de Gaspar, que se fosse feito por um torcedor comum não teria apelo nenhum, por ter sido feito por um integrante da administração rendeu, no mínimo, dois dias consecutivos de assuntos nos debates televisivos e de internet.

Gaspar não falou nada mais que todos os torcedores do São Paulo sentiram após a derrota vexatória na quarta-feira passada. Tirando Rodrigo Caio, todos os outros citados são constantemente alvo de críticas da torcida são-paulina. Michel Bastos, inclusive, foi satirizado antes do jogo desse domingo, contra o Rio Claro. Faz parte do torcedor escolher seus alvos para culpados das derrotas. É direito de qualquer um dar sua opinião, sem obviamente atacara ética e moral ausente de provas, sobre o que viu em campo. Porém, quando se está em um cargo na administração de um clube, nunca será a pessoa física, o torcedor que falará. Será sempre o cargo. Não foi o Rodrigo Gapar, torcedor que fez os comentários. Foi o assistente da presidência. Isso que complica tudo.

Quem está nesses cargos precisa ter cuidado com tudo o que fala. Há uma corrente que até acredita que ele possa ter sido usado para desviar o foco da derrota e para pilhar um pouco o elenco, tentando mexer com o brio dos jogadores para ver se cria uma certa revolução dentro da equipe, o que sinceramente não acredito. Não tenho ilusões que coisas desse tipo são realizadas de maneira pensada. Não creio que os dirigentes atuais tenham tamanha inteligência de trabalhar com esse tipo de situação. Depois que as declarações são feitas, não adianta pedir desculpas, dizer que foi o calor do momento. A crise de relacionamento já foi instaurada e os jogadores serão questionados em todo momento, como foram Lugano na coletiva de sexta e Rodrigo Caio antes do jogo de domingo, sobre as declarações e o impacto que tiveram no elenco. Declarações do tipo expõem desnecessariamente um racha de relacionamento ainda não curado entre diretoria e elenco desde o ano passado, que passou por toda a turbulência já tão comentada ao longo do tempo. Além de desvalorizar o valor de mercado dos jogadores em possíveis transações, seja de venda ou de trocas de atletas com outras agremiações. Por isso, depois que a pessoa toma posse de um cargo na administração de um clube, deve pensar muito antes de escrever qualquer coisa. Não será mais a pessoa física, o torcedor que estará comentando. Será o cargo. O que torna sempre as coisa muito mais complexas.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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