Até onde os treinadores são culpados?

Entra ano, sai ano e uma coisa não muda: À cada três meses, pelo menos, temos um debate sobre a longevidade dos treinadores no Brasil, curta demais para a maioria dos comentaristas. Esse ano, já há estatísticas que apontam para que quase 20% dos times da série A trocaram de treinador, somente pelos resultados dos Estaduais/Regionais ou Libertadores. A crítica sempre está relacionada ao tempo de trabalho.

Dos quatro grandes paulistas, o Palmeiras já trocou de treinador esse ano e os resultados do São Paulo na temporada colocam o argentino Edgardo Bauza na pressão de cada entrevista coletiva. Mas, até onde a culpa dos maus resultados é dos treinadores? Até que ponto a troca de treinador é benéfica e pode gerar frutos durante a temporada? Em que medida as os repórteres de campo nas entrevistas pós-jogo não contribuem também para essa cultura de um treinador à cada 5 derrotas?

Para responder essas questões, é sempre prudente analisar cada caso em especial e entender como a administração e planejamento do futebol é realizada em cada clube. Começando pelo Palmeiras, desde que Alexandre Mattos foi contratado para gerenciar o futebol era clara a idéia de repetir a fórmula de sucesso do Cruzeiro bi-campeão brasileiro em 2013/2014. Rechear o elenco de jogadores do mesmo nível, dando ao treinador condições de trocar peças por contusão, suspensão ou necessidade de poupar sem alteração grande de qualidade e na forma de jogar. Não há jogador efetivamente extra-classe, daquele de encher os olhos, mas todos em nível parecido, funcionais, procurando seqüência do trabalho. A diferença para o Palmeiras de hoje e o Cruzeiro citado acima é que não houve jogadores que entraram em uma fase tão boa como Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart, que resolviam os jogos com frequencia. É um jogo ou outro que Robinho, Dudu ou Gabriel Jesus conseguem desequilibrar, mas a irregularidade desses jogadores não coloca o futebol do Palmeiras em alto nível e assistimos nesse ano uma campanha medíocre tanto no Paulista quanto na Libertadores. E, no período desse trabalho, Cuca é o terceiro treinador. Mesmo resultados teoricamente bons, como o vice-campeonato Paulista e a conquista da Copa do Brasil, ambos em 2015, não conseguiu segurar Oswaldo de Oliveira e Marcelo Oliveira, sempre questionados sobre a qualidade de futebol apresentado no decorrer das competições.

Já no São Paulo, não dá para dizer que há um planejamento. Muito menos que há uma administração no futebol. Há duas semanas comentamos aqui sobre o trabalho de reconstrução do clube, que há 5 anos, pelo menos, se perdeu no tempo. Com diferentes diretores e presidentes, passaram por lá outros tantos na gerência de futebol e treinadores como Paulo Autuori, Muricy Ramalho, Emerson Leão, Ney Franco, Carpegianni, dentre outros até o clube se “arriscar” com os estrangeiros Juan Carlos Osório e agora Edgardo Bauza. Desses, somente Muricy conseguiu completar um ano no cargo. Sem metodologia definida, sem planejamento para o futebol, sem estrutura de profissionais que tenham em mente uma idéia de jogo, jogadores são contratados sem critérios, sem julgamento se suas características encaixam com os demais do elenco e com a filosofia de jogo do treinador. Isso sem falar na política instável e no desequilíbrio financeiro que o clube vive há tempos.

Nesses dois cenários citados, parecido com muitos outros clubes do Brasil, é impossível colocar a culpa somente nos treinadores. Claro que muitas de suas decisões e teimosias são amplamente questionáveis e os torcedores dessas equipes estão no direito de questionar a capacidade dos mesmos nas redes sociais. Não dá para entender como um time como o Palmeiras que tem o elenco brasileiro mais caro, em termos de folha de pagamento, na Libertadores tem um desempenho tão horrendo na competição, onde está com grandes chances de cair na primeira fase. O mesmo se aplica ao São Paulo, onde vemos uma insistência grande em um jogador que, para dizer o mínimo, está numa fase terrível como Centurión. Não por acaso, em um grupo bem mais fraco que o do Palmeiras, o tricolor paulista está virtualmente eliminado, com apenas 2 pontos em três jogos. E, claro, repórteres perguntando a cada pós-jogo. Apenas inflama mais a torcida contra o treinador e como os dirigentes, em sua maioria, não tem força para seguir as convicções que o fizeram contratá-los, acabam trocando os treinadores para blindarem-se da falta de um trabalho adequado na administração e planejamento do elenco.

Mas, a contratação exagerada de jogadores de nível médio sem a soma de um jogador que faça a diferença no caso do Palmeiras e o ambiente conturbado e a falta de um planejamento no caso do São Paulo mostram que não é só o treinador que fará as equipes darem orgulho para seus torcedores. É preciso muito mais que um nome e um currículo no banco para que o time seja vencedor. Afinal, se à cada 6 meses o clube tem que trocar de treinador, isso mostra, no mínimo, a incompetência de quem o contrata. Não que os treinadores não tenham sua parcela de culpa no cartório, mas trocar apenas por trocar, sem verificar o tipo de treinador que está vindo, sem dar o respaldo e estrutura suficiente para que ele faça o seu trabalho, sem contratações inteligentes para o elenco, em nada resolverá a situações dos clubes. É preciso olhar além dos resultados, além do que o time apresenta em campo para entender o que falta para que a equipe volte a dar orgulho aos seus torcedores.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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