Para entender Dunga, é preciso entender Parreira

Saiu hoje a convocação para a próxima rodada das eliminatórias da Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Dentre todos os convocados por Dunga para os jogos contra Uruguai e Paraguai, dois nomes causam grande perplexidade: Kaká e Ricardo Oliveira. Dois jogadores com idade avançada, sendo que o primeiro nem está jogando no momento, por conta da temporada norte-americana, onde joga pelo Orlando City, estar em recesso. Em debate acalorado na redação do HTE Sports, poucos entendem os critérios do treinador na convocação. Para entender a cabeça de Dunga, precisamos mergulhar um pouco na história dele próprio na seleção brasileira com seu mentor, Carlos Alberto Parreira.

Em 1990, no Mundial disputado na Itália a participação da seleção brasileira foi pífia. Com desempenho muito ruim, o Brasil caiu nas oitavas de final para a Argentina, depois do gol de Caniggia em jogada de Maradona que passou como quis por Dunga. Na ocasião, os comentaristas esportivos chamaram aquele momento da seleção de “Era Dunga”, período que acreditavam que jogadores limitados tecnicamente ganhavam espaço na seleção por outros motivos quaisquer. Após a Copa, a CBF faz um experimento com Paulo Roberto Falcão de treinador que não dura muito, sendo substituído na seqüência por Parreira, que tinha a missão de construir a seleção que venceria a primeira Copa pós-Pelé para o Brasil.

Parreira sempre foi um treinador pragmático, de pouca inovação, conservador ao extremo. Nas primeiras convocações para seleção, mesmo com jogadores bem mais jovens se destacando no cenário nacional, Júnior, lateral-esquerdo/volante do Flamengo, já com praticamente 40 anos era convocado. Nas Eliminatórias, que tinham outro formato a época, ao invés de Romário e Muller, convocava Careca, que estava na emergente J-League do Japão. Nenhum dos dois chegou a Copa de 1994 nos EUA, como todos sabem. Mas fizeram parte do trabalho de Parreira, que acreditava que colocar jogadores com maior vivência em seleções anteriores daria mais tempo para que os resultados acalmassem seu trabalho. Precisava ter em campo jogadores de sua confiança.

Não vimos isso com o Parreira somente em 1994. Quando voltou ao cargo para a Copa de 2006, foi relutante com novos jogadores. Robinho, que comia a bola no Santos, demorou para ganhar espaço. Fez uma Copa das Confederações sensacional, mas ficou apenas como um reserva de luxo durante o mundial, enquanto Ronaldo, visivelmente fora de forma, e Adriano Imperador deixavam o time sem qualquer mobilidade. Sua primeira alternativa era sempre Juninho Pernambucano, que já tinha carreira bem sólida no Lyon da França.

Dunga segue os mesmos passos de Parreira. Suas equipes não são vibrantes, primam pela posse de bola lateral e também prefere jogadores experientes às novidades que o futebol brasileiro produz. Em 2010, Neymar e Ganso fizeram um primeiro semestre fabuloso, mas quem chegou na Copa foram Julio Baptista e Grafite, dois jogadores que, mesmo sem tanto tempo de seleção, tinham mais experiência internacional. Eram seu porto-seguro.

Kaká e Ricardo Oliveira são esses jogadores para ele agora. Kaká foi seu principal foco na campanha da África do Sul. Baseou a seleção para que ele comandasse o meio-campo. Hoje, vem para ser a voz da experiência em seleção para que jovens como Neymar e Lucas Lima joguem com mais tranqüilidade, de acordo com sua cabeça. Estão lá pelo histórico, não pelo que jogam hoje em dia. Dunga não arrisca no esquema tático. Mesmo o Brasil não produzindo mais centroavantes de qualidade há tempos, insiste em jogar com um. Por isso Ricardo Oliveira está lá. Mesmo que o mundo já tenha mostrado que não precisa dessa função para vencer equipes que jogam fechadas (Barcelona de Guardiola acabou com esse estereótipo). Se não tem condições de inovar com esquema tático, em jeito de jogar, como podemos esperar que inove em convocações? Quando olhamos para Dunga, estamos olhando para um novo Parreira. Pragmático, chato e com decisões previsíveis. Não adianta esperar muito da seleção enquanto esse for o pensamento. Pode-se conseguir alguns resultados, assim como ele conseguiu antes da Copa-2010, com títulos da Copa América e Copa das Confederações. Mas não espere muito mais do que isso, nem bom futebol. Assim como o time de Parreira era irritante de se assistir, será o time de Dunga.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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