Reconto HTE #6 – Rinus Michels – A Revolução e a redenção

As duas equipes de Pep Guardiola, Barcelona e Bayern de Munique, encantam a Europa e o mundo. Posse de bola, pressão na saída de bola adversária, diminuição e organização dos espaços são as cartas do “Futebol Total” empregado pelo espanhol em suas equipes. E a raiz desse futebol vem de longe, da revolução promovida por Marinus Jacobus Hendricus “Rinus” Michels, nos anos 70.

Embora muitos digam que a seleção da Hungria da Copa de 1954 e o próprio Ajax nos anos 50 já apresentavam elementos vistos com a Laranja Mecânica, nome pela qual ficou conhecida a seleção da Holanda da Copa de 1974, os relatos de quem esteve presente na Alemanha deixam claro que Michels é o pai do Futebol Total, comandando uma seleção que não aparecia em Copas do Mundo há 36 para uma campanha que encantava mundo da bola. Argentinos, uruguaios e brasileiros foram massacrados pela trupe de Michels que, além da tática, tinha em campo craques como Johan Cruyff e Johan Neeskens.

Antes da Copa do Mundo, Rinus Michels já tinha dado uma mostra do trabalho com o Ajax em 1971, na primeira conquista da Copa dos Campeões (hoje Uefa Champions League) do tri-campeonato dos holandeses, e no Barcelona nos anos seguintes. No ano da Copa, juntou a escola que deixou montada com o Ajax com o pragmatismo tático do rival Feynoord à apenas 10 dias do Mundial da Alemanha e se impôs diante dos jogadores, mostrando sua forma de agir e como queria que atuasse. Na época, dizia que “O futebol é algo como guerra. Quem quer que se comporte muito bem, está perdido”.

Na estréia do Mundial, vitória sobre o Uruguai por 2 a 0, com 14 chances de gol criadas pelos holandeses e apenas 1 dos sul-americanos. Um massacre que mostrava as armas do Carrossel Holandês. Ofensivamente, armado em um 4-3-3 com Cruyff de “falso 9”, como dizem nos dias de hoje, nenhum jogador guardava posição. Quem tinha a bola era sempre acompanhado de dois jogadores de cada lado, um se alçando para receber em velocidade e um mais recuado, dando sempre três opções de jogo (além do passe para os dois jogadores, quem tem a bola poderia também driblar o adversário). Com movimentação constante, os pontas trocavam de lado, cobriam os laterais, zagueiros subiam ao ataque e eram cobertos pelos meio-campistas. Era laranja por todo o campo de jogo. Na defesa, diminuição dos espaços, com blitz de 5 ou 6 jogadores em cima de quem está com a bola, além da inovadora para época linha de impedimento. Tática somente possível pela inteligência e boa condição física dos jogadores.

Final da Copa de 74. Foto: SoccerPro

Ainda na primeira fase veio o empate em 0 x 0 com a Suécia e a goleada de 4 x 1 sobre a Bulgária. Na fase semi-final, disputada em formato quadrangular, uma vitória sobre a Alemanha Oriental por 2 x 0 e um passeio de 4 x 0 na Argentina, chegando ao jogo decisivo contra o Brasil de Zagallo, mas já sem Pelé. E a seleção canarinho foi presa fácil, perdendo por 2 x 0 fora o baile, levando a Holanda para a final contra a seleção dona da casa. Na final em Munique, a Holanda deu a saída e trocou passes por mais de 1 minuto consecutivo até sofrer o penal, convertido por Neeskens. O primeiro toque de bola alemão foi somente com 2 minutos de jogo. Mas a Alemanha tinha também um grande esquadrão, com Beckenbauer, Breitner e Overath e aproveitou o fator casa para virar e conquistar o seu segundo mundial. Ao time de Rinus Michel ficou a fama da maior seleção a não vencer uma Copa do Mundo.

A revolução do futebol estava plantada com essa participação. Rinus Michels, mesmo sem a conquista da Copa do Mundo, já entrava na galeria dos maiores treinadores da história do futebol. Tentou conquistas nos anos seguintes, sem sucesso, na Espanha, Alemanha e no novo mundo do futebol que surgia, os Estados Unidos. Mas seria novamente com a seleção de seu país que alcançaria a redenção e o tão desejado título para coroar a nova escola de futebol. Michels assumiu a seleção novamente em 1986 e tinha em suas mãos uma nova geração talentosa, com Rud Gullit, Fank Rijkaard e Marco Van Basten e a Eurocopa de 1988 seria disputado no mesmo palco onde mostrou sua genialidade pela primeira vez.

O primeiro grande título da Holanda foi a Eurocopa de 1988, com Rinus Michels no comando

Perdeu na estreia para a União Soviética, mas recuperou-se com boas vitórias sobre Inglaterra e Irlanda, sempre mostrando as mesmas características fizera genial. Posse de bola efetiva, movimentação constante e pressão ao adversário. Na semi-final, a revanche contra os alemães. Matthaus abriu o placar de pênalti. Também de pênalti, Koeman empatou. Aos 43 do segundo tempo, van Basten estufou a rede alemã e colocou a Holanda na final, contra a mesma União Soviética da estréia. Para os jogadores, a final foi esse confronto contra a Alemanha. Mas em Munique, no mesmo palco que havia encantado o mundo 14 anos antes, a redenção veio para Michels, com 2 a 0 sobre os soviéticos e a primeira grande conquista holandesa.

Em 1995 a FIFA nomeou Rinus Michels como o treinador do século. Revolucionário, amava o que fazia. Segundo ele, “é uma arte em si para escalar uma equipe, encontrar o equilíbrio entre jogadores criativos e aqueles com poderes destrutivos, e entre a defesa, construção e ataque – sem nunca esquecer a qualidade da oposição e as pressões específicas de cada partida”. Faleceu no dia 3 de março de 2005 e deixou um legado grandioso para o futebol, além de uma escola de treinadores como Frank Rijkaard e Pep Guardiola. Há até quem diga que o futebol se divide entre antes e após de Rinus Michels.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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