São Paulo e o longo caminho de reconstrução do clube

Fraco futebol e bastidores complicados instauram uma crise no Morumbi. De 2010 para cá, esse frase deve ter sido utilizada inúmeras vezes para manchetes no noticiário são-paulino. Desde a conquista do tri-campeonato consecutivo no Brasileiro que encerrou o segundo período mais vitorioso da história do clube, o São Paulo vem tentando se reerguer e voltar a ser protagonista no futebol. No entanto, com a administração cada vez mais confusa, parece que os dias de glória ainda demorarão a chegar.

Não dá para olhar somente o desempenho da equipe desse ano e apontar o dedo para o treinador argentino Edgardo Bauza, ao presidente Carlos Augusto Barros e Silva (Leco), ou creditar a saída do ídolo da torcida Rogério Ceni, aposentado após 25 anos no elenco. O São Paulo, antes símbolo da vanguarda no futebol brasileiro, de administração exemplar e de estrutura “nível europeia” parou no tempo, como o próprio Ceni disse em entrevistas no final do ano passado, e busca encontrar seu novo rumo.

Para entender esse período do tricolor paulista, precisamos olhar um pouco para trás, entender como o clube conquistou tudo entre 2005 e 2008 para encontrar os erros cometidos desde então. Na época, o São Paulo era um dos poucos clubes que poderia dizer que tinha um Centro de Treinamento de alto nível, um estádio com grande potencial de receitas e próprio, estrutura física e de profissionais renomados em diversas áreas. Porém, como todo futebol brasileiro em sua história, não era um clube com uma capacidade financeira de fazer contratações em valores exorbitantes. Portanto, como dizia o então superintendente de futebol na época, o São Paulo buscava nas contratações errar o mínimo possível. Buscava jogadores de valor baixo, normalmente em fim de contrato, mas que tinham características que se complementavam para formar uma equipe. Cicinho, Fabão, Mineiro, Josué, Grafite, Júnior e o ídolo da torcida Lugano chegaram nesse formato. Alguns precisaram de um tempo maior de adaptação, mas suas características se complementavam.

A comissão técnica permanente, com nomes como Carlinhos Neves na preparação física e Rosan na fisioterapia davam suporte a equipe, junto com a estrutura montada do REFFIS. E em Cotia, era construído o Centro de Treinamento para as equipes de base, com capacidade igual ao CT dos profissionais. Tudo certo, tudo muito lindo. Tudo o que fazia com que qualquer comentarista e torcedor achassem que o São Paulo teria na sua frente um futuro de glórias e domínio do cenário nacional. Mas o tiro saiu pela culatra.

Aos poucos, ser contratado pelo São Paulo parecia uma passagem para férias remuneradas em um grande SPA e resort. Cada vez mais as contratações de jogadores mudavam de perfil. Ao invés de jogadores comprometidos, chegavam atletas de comportamento duvidoso, como Carlos Alberto, Léo Lima, Cléber Santana. Além de contratações que nunca foram entendidas, como Rondón, Saavedra, Clemente Rodriguez dentre outras. Os profissionais que formavam a espinha dorsal da infra-estrutura foram saindo aos poucos. Treinadores de baixa qualidade e em momentos nada positivos na carreira foram sendo trazidos aos montes. Apostas erradas de política esportiva, como a Copa do Mundo, além de casos de corrupção que estão em investigação foram colocando o clube em uma crise que parece não ter fim. Nessa década, somente dois bons momentos. O título da Sul-Americana em 2012 e o vice-campeonato brasileiro em 2014. Na Libertadores, campanhas vexatórias, com saídas precoces em virtude de um futebol extremamente pobre e descomprometido. Nos clássicos, mais derrotas que vitórias e algumas goleadas sofridas para os rivais. Além das constantes eliminações em fases eliminatórias do Paulista e Copa do Brasil, algumas para times considerados pequenos, como Bragantino e Penapolense.

Todo esse histórico ainda não foi superado. No meio do ano passado surgiu a “solução”: Contratar um treinador estrangeiro. Juan Carlos Osório veio, mas a bagunça administrativa prosseguiu. Mal chegou e 7 jogadores, sendo que pelo menos três seriam titulares, foram vendidos e chegavam mais jogadores de qualidade duvidosa. Sem se entender com o presidente Aidar, deixou o comando e viu do México o então mandatário renunciar em meio a fortes denúncias de irregularidades durante sua administração. Para esse ano, o já citado Bauza chegou, com duas Libertadores no currículo. Mas ainda não conseguiu montar um time que passe confiança para os torcedores. E também já está entrando no fogo cruzado de mais uma briga de “gigantes” protagonizada pelo presidente Leco e o mega-empresário Abílio Diniz.

Nesse cenário, é difícil achar que o São Paulo poderá já esse ano ter um desempenho condizente com sua história, tanto na Libertadores quanto nas competições nacionais. O spa e resort continua lá na Barra Funda. Em derrotas como para o The Stronghest e para o São Bernardo, os jogadores não demonstram chateação. Fato comprovado pela cobrança pública feita pelo gerente de futebol Gustavo Vieira essa semana, falando que os jogadores precisam mostrar mais empenho para que o São Paulo comece a sair dessa situação.

Estamos em março, e todos concordam que o jogo de hoje contra o River Plate será para salvar o ano. Isso mostra o quão problemática a situação ainda é. Alguns erros ainda persistem. Chegaram no Morumbi 3 atacantes (setor onde já havia quatro jogadores), sendo que o único titular e ter regularidade de participações tem contrato somente até o meio do ano e nenhum meio campista para o elenco, setor que o time mostrou maior dificuldade, tanto na criação, quanto na proteção da zaga. Para a defesa, além do ídolo Lugano, trazido mais pela liderança e presença junto a torcida, chegaram Mena, que não deixou saudades por onde passou, e Maicon, quase que no dia da estréia da fase de grupos. Tudo isso, junto com a situação financeira crítica, mas que pode melhorar com o acerto do acordo de televisão e se conquistar um patrocinador master para a camisa, influi diretamente no desempenho da equipe. Bauza ou qualquer outro treinador não é mágico e não vai conseguir consertar anos de erros da montagem de equipe em apenas dois meses. Com a administração do futebol falha e pouco comprometimento dos jogadores que lá estão, será complicado para o São Paulo sair dessa fase que já está há bons anos.

 

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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