Fanatismo – A doença que precisa ser curada

Os últimos dias foram de bastante polêmica em relação às torcidas organizadas e a violência no futebol. No confronto entre corintianos e palmeirenses, mais uma pessoa foi morta e como medida a secretária de segurança pública do estado determinou que os clássicos até o final do ano serão com torcida única. Medida criticada (e muito bem) pelo meu grande amigo aqui do HTE Sports em sua coluna De-Bate Pronto, que você pode ler aqui.

Ainda nessa semana também defendi a extinção das organizadas (Leia aqui). Claro que minha opinião não é verdade absoluta, prova disso é o texto o grande Renan Thierre aqui mesmo no HTE Sports (Leia aqui) em que defende, com sólidos argumentos, a torcida organizada. Tanto na coluna do Thiago quanto na do Renan os dois apelam para a justiça, para que prendam os bandidos que estão nessa torcida. E eu concordo nesse ponto em 100%, como não podia deixar de ser diferente. A grande questão a meu ver é que não é a impunidade a raiz do problema. É na educação e na consciência que está o problema. E, nesse ponto, a torcida organizada funciona para seus afiliados como a boca de fumo para dependentes químicos: A alimentação da semente da intolerância e da violência, verbal ou física.

Sempre lembrando que o texto exposto aqui apresenta a opinião do autor, e não, como apontado no parágrafo acima com exemplos aqui mesmo do HTE Sports, do restante da equipe. A responsabilidade de tudo o que está escrito aqui é exclusiva de quem assina a matéria.

O primeiro ponto é reconhecermos que o fanatismo é uma doença. Por que? Justamente porque o fanatismo cega a pessoa, do pior jeito possível. Um deficiente visual sabe de sua deficiência. Um fanático normalmente não sabe que está cego. E não importa se o objeto do fanatismo seja religião, partidos políticos, ideologias ou clubes esportivos. Quando o fanatismo toma conta, qualquer ato passa a ser justificável. E as desculpas, sempre virão acompanhadas de culpas à terceiros, como imprensa, polícia ou juristas, ou com explicações que outras pessoas / grupos fazem ou fizeram o mesmo.  A consequência será óbvia, pois, principalmente em grupo, para o fanatismo virar uma barbárie basta uma faísca, como uma pessoa com a camisa de um clube rival.

E é importante diferenciar fanatismo de amor ao clube. Um sujeito pode amar o clube, ir aos jogos, torcer, cantar e vibrar nas arquibancadas sem ser fanático. Pois sabe e conhece seu papel como torcedor e tem consciência que, por mais que nos emocionemos com nosso time, os limites desse papel. O fanático não reconhecerá esses limites e dizendo ser em nome do clube praticará atos ilícitos. Para não falar somente da torcida organizada, vamos lembrar o caso da torcedora do Grêmio que dois anos atrás foi flagrada por diversas câmeras de televisão proferindo ofensas raciais ao goleiro Aranha do Santos, em um jogo da Copa do Brasil. Não fazia parte de uma organizada, mas era fanática pelo Grêmio. E, esse fanatismo a impulsionou a agressão verbal, por estar em grupo, na arquibancada, em nome de seu time.

Se o fanatismo é a causa, então por que defender a extinção das Torcidas Organizadas? Como falei acima, a torcida organizada está para o esporte o que a boca de fumo está para dependentes de traficantes. Na boca de fumo, traficantes colocam a disposição das pessoas o alimento de sua dependência, ou seja, as drogas. Seduzem com frases de efeito como “isso não vicia” ou “algo natural não pode prejudicar” e “pode ficar doidão hoje que não tem problema, amanhã você para” e captam seus novos usuários.  O restante da história todo mundo já sabe. O destino para qualquer dependente, a não ser que se assuma doente e busque auxílio, são overdose, violência e mortes.

A torcida organizada opera da mesma forma que o traficante. Seduz o torcedor dizendo ser a torcida verdadeira de uma equipe, que vai a todos os jogos. No caminho, ensina cânticos como “Dar porrada em Gavião, Gambá vou te matar”, somente para citar um dos versos sempre entoados por uma (ou mais) das torcidas do São Paulo. Versos, como esse, alimentarão a intolerância proveniente do fanatismo. Fará com que esse torcedor, ao ver alguém com a camisa do Corinthians, não veja apenas uma pessoa que torce por um time diferente, e sim veja um inimigo. Ou seja, se a justiça prender 10 hoje, a torcida organizada seduzirá e formará mais 10 amanhã. E os atores poderão até mudar, mas o enredo continua o mesmo.

Exatamente por isso que as torcidas organizadas têm que ser extintas. Uma vez que elas alimentam a sociedade e os torcedores de emoções ruins, propagarem o que há de mais podre dentro do torcedor e fornecer o bando que dará a coragem necessária para que esse indivíduo cruze os limites das leis, fomentando o desrespeito e a intolerância, que não podem ser consideradas como santas no processo. Ah, mas elas fazem ações sociais. Grandes gangsters da história da humanidade também o fizeram, para manutenção de aparências. As festas nas arquibancadas são bonitas. Mas a que preço? Se não defendemos a manutenção das bocas de fumo, não podemos defender as torcidas organizadas. E precisamos combater a doença do fanatismo. Amor ao esporte e ao time sim. Fanatismo não.

 

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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