Meu jogo histórico #12 – Emoção sem igual

Jogo decisivo, estádio lotado. Difícil encontrar algo mais animador no futebol que isso. Antes de 2004, nas vezes que fui ao Morumbi ver os jogos do São Paulo, sempre em companhia do meu irmão mais velho Rafael, normalmente era em jogos de menor importância, onde o público não passava dos 20 mil, quando muito. Nesse ano, após 10 anos, o tricolor voltava a Libertadores e já fomos logo na estréia, contra o Cobreloa. Mas, inesquecível, foi aquela oitavas de final contra o Rosário Central da Argentina.

No primeiro jogo do confronto, na casa dos hermanos, o São Paulo perdeu por 1 x 0. Nessa edição ainda não havia a regra do gol qualificado, então vitória por um gol levaria a decisão para as penalidades.  E, novamente acompanhado do Rafael, junto com o grande brother Thyago Tomas, vulgo Furmiga, e meu padrinho de casamento Guilherme, nos dirigimos ao Cícero Pompeu de Toledo para o jogo de volta. O Morumbi estava completamente lotado. Até hoje, não acredito que tinha “somente” 55 mil torcedores nesse jogo. Lembro de ficar apertado nas arquibancadas vermelhas, sem espaço para mexer os braços.

O elenco do São Paulo não era dos mais brilhantes, mas tinha dois nomes amplamente aclamados pela torcida: Rogério Ceni, ainda não alçado ao status de M1to, e Luís Fabiano. Antes de a equipe entrar em campo e logo após a mesma se perfilar no gramado, o canto da arquibancada para o centroavante era uma coisa de arrepiar. A época, Luis Fabiano era praticamente incontestável para a torcida.

A escalação completa para esse jogo começava com Ceni no gol, Cicinho, Fabão, Rodrigo e Gustavo Nery na defesa, Alexandre, Ramalho, Marquinhos e Danilo no meio com Vélber e Luís Fabiano no ataque com Cuca no comando técnico. Convenhamos não tínhamos nenhum esquadrão, mas, para um time que ficou 10 anos fora da competição que virou obsessão da torcida, cair nas oitavas de final seria um balde gelado para uma equipe que vivia (e viveu por mais um ano ainda) com a fama de amarelão.

O jogo começou e o São Paulo foi tomando a iniciativa logo de cara. Porém, com 6 minutos ainda do primeiro tempo, o primeiro tombo, com um gol do Rosário Central em um apagão do sistema defensivo. Era necessário agora a virada para seguir levar o jogo pelo menos à decisão por pênaltis. E não importa o tamanho do time argentino, a catimba sempre será grande. Cada tiro de meta, cada lateral, cada falta a favor do Rosário Central era mais de 1 minuto jogado no lixo. Aos 30 minutos do primeiro tempo, pênalti para o tricolor. O Morumbi estremece e Luís Fabiano vai para a cobrança. Novamente, em uníssono, a torcida canta seu nome. Empatar ainda antes do intervalo era tudo o que precisávamos para buscar essa virada. O camisa nove corre para a bola, bate e…. Gaona, goleiro do Rosário, espalma. Segundo tombo para a torcida tricolor.

Cuca, que sempre foi arrojado por onde passou, não perde tempo e lança o atacante Grafite logo na seqüência, no lugar de Alexandre. No último lance do primeiro tempo, escanteio para o tricolor, a bola sobra na pequena área e ele mesmo, Grafite, empurra para o fundo da rede. Explosão insana no Morumbi,  as arquibancadas tremem de tanta gente pulando e vibrando com o gol naquele instante. Gol que fechou o primeiro tempo, não teve nem saída de bola do Rosário. Cuca aproveita essa energia da torcida e não desce com o time para o vestiário, fazendo a reunião ali mesmo no gramado, em meio ao êxtase total das arquibancadas. Mas ainda faltava pelo menos um gol.

E o segundo tempo é nervoso. Os argentinos catimbavam muito e o São Paulo errava passes e cruzamentos em excesso. Estava difícil chegar ao segundo gol. Somente aos 36 minutos a bola sobrou ali dentro da área e novamente ele, Grafite, que no mesmo ano foi xingado por parte da torcida por ter feito gols contra o Juventus no Paulista que evitaram o rebaixamento do Corinthians, teve a calma para tirar do goleiro e com o gol vazio marcar o segundo gol do tricolor. Virada na raça e na alma. Mais uma vez a arquibancada tremia com a explosão da torcida tricolor. Placar que foi mantido até o final dos 90 minutos regulamentares, levando a decisão para os pênaltis.

E digam o que quiser, mas ver decisão de pênaltis em estádio lotado é uma das coisas mais emocionantes da vida. A tensão de cada cobrança, contra ou a favor é algo surreal. E essa decisão seria daquelas de tirar o fôlego de qualquer um. Luís Fabiano abriu a série do São Paulo, dessa vez convertendo a cobrança. O Rosário empatou na cobrança seguinte. Cicinho veio na seqüência e cobrou a meia altura. Para desespero do Morumbi, Gaona fez nova defesa. Terceiro tombo para a torcida. O Furmiga, ao meu lado, sentou e começou a rezar, nem viu as cobranças seguintes, todas executadas com perfeição por ambas as equipes até chegar à quinta cobrança. Rogério Ceni tinha o peso da cobrança derradeira do São Paulo. Com calma, deslocou Gaona para um lado e colocou a bola do outro. E Gaona veio para a última cobrança pelo Rosário e Rogério ao pé do ouvido falou algo para o goleiro argentino. Na coletiva pós jogo, contou que disse “você é grosso de bola e vai chutar no meio do gol”. Ou seja, sabia que o meio não seria mais o alvo de Gaona e precisava “somente” acertar o canto. E foi lá, do seu lado direito e baixo que a cobrança foi, precisamente onde Ceni caiu para fazer a defesa e explodir novamente o Morumbi. Na série alternada, Gabriel, que entrou no segundo tempo, cobrou e marcou o quinto gol tricolor. Na cobrança seguinte do Rosário, dessa vez no canto baixo esquerdo de Rogério Ceni nova defesa. 5×4 nos pênaltis e, com duas viradas, o São Paulo classificava-se para as quartas de final da Libertadores daquele ano.

Nem o jogo do tri-campeonato contra o Atlético-PR no ano seguinte, ou a vitória contra o Boca Juniors em 2006 foram tão emocionantes quanto esse jogo. Não tem como descrever uma decisão de pênaltis assistida ao vivo, depois de um jogo que precisou de uma virada. Um dos maiores momentos da carreira de Rogério Ceni, segundo ele próprio comentou em entrevistas coletivas. E um dos maiores momentos que eu, junto com meu irmão e meus grandes amigos passamos no Morumbi. Inesquecível e histórico.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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