O Campinense e a fé

Texto: Marques de Souza

No exemplo mais fiel do que podemos chamar de última instância, o ser humano recorre à frase “a vida tem dessas coisas”, quando não há – de fato – uma razão técnica ou explicação convincente para comprovar certo ponto. É uma espécie de crença, rito, ou fé, que você não sabe como ocorre, se comemora, lamenta ou apenas acredita. E ficamos sempre com a terceira opção.

No futebol, a Copa do Nordeste tem sido um palco enigmático. Mais do que a tradição posta em campo, consolidada pelos clubes centenários e defendida pelos fanáticos torcedores, a competição tem acumulado lendas: induzindo a novas e grandiosas histórias e quebrando viciosos paradigmas. Nela, o adjetivo “clube grande” passa a ser figurante numa novela onde o protagonista é o futebol, a raça, a devoção. Não nessa ordem.

Nesse árduo caminho, o Campinense passou por Salgueiro, ABC, Imperatriz, Sport e agora, chega à última batalha. É um episódio surreal onde na perigosa selva nordestina de elefantes, cavalos, carcarás e leões, é uma raposa que tem sido soberana. Mas como expliquei no começo, reforço: a vida tem dessas coisas.

O rubro-negro do interior paraibano, sob o comando de um Francisco chega à decisão pensando no futuro, orgulhoso do passado e sabedor da importância e dificuldade que serão os 180 minutos da final. Acima de qualquer expectativa, o Campinense conhece o valor de mais uma conquista desse nível e da vaga em uma competição internacional, mas sabe também da força do adversário. O Santa Cruz de Milton Mendes é consciente e estrategista, mas no esporte são os detalhes que decidem, e numa final de Copa do Nordeste é perigoso fazer previsões.

Com a experiência de quem conquistou o título em um passado recente e a ansiedade de uma equipe com sede de vitórias, a Raposa tem a chance de colocar – novamente – a Paraíba no topo do Nordeste. O desejo do título se mistura com o equilíbrio do duelo e o nervosismo é inevitável. Serão milhares de fiéis nas arquibancadas, apoiados em uma religião vermelha, preta e branca, com o coração na mão e à espera de uma vitória. Não é possível descrever o final, tampouco a maneira como será, mas nesse ritual sacrossanto do futebol, acreditar é sempre o primeiro passo.

E ele está bem perto.

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