CLUBE DA FÉ #76 – Obrigado Muricy

Muricy Ramalho não é mais técnico do Flamengo, vocês já devem estar sabendo. Após uma nova crise de arritmia, o treinador junto de sua família resolveu se afastar novamente dos campos. No começo do ano passado, quando ainda dirigia o São Paulo, Muricy teve o mesmo problema. Pouco depois, pediu demissão para cuidar da saúde e ficou o restante do ano fora dos clubes, retornando somente nesse fim de temporada para o clube carioca. Mesmo não sendo treinador do São Paulo mais, não poderia passar em branco de comentar a possível aposentadoria e, se isso de confirmar, agradecer um dos treinadores mais vitoriosos da história do clube.

Quem acompanhou aqui o Cantinho do Torcedor ano passado sabe que eu não era o maior fã do trabalho de Muricy Ramalho. Em diversos momentos, critiquei o desempenho da equipe, a postura tática e a falta de criatividade para resolver situações do time. Sob seu comando, basicamente dependíamos de bolas alçadas na área ou jogadas de pinbal para chegar ao gol adversário. Toque de bola no meio campo, somente lateral e sem profundidade. Mas isso é minha opinião. Não seria louco de não respeitar tudo o que Muricy conquistou dentro do São Paulo.

Meia nos anos 70, Muricy começou como auxiliar do grande mestre Telê Santana nos anos 90, comandando os Aspirantes na época, times com jogadores recém-saídos da base que disputava preliminares antes dos jogos do Campeonato Paulista. Em 1994, depois do São Paulo ganhar tudo que podia no cenário sul-americano, teve a missão de comandar o Expressinho Tricolor, que tinha jovens como Rogério Ceni, Denílson, Caio Ribeiro e Jamelli, na Copa Conmebol. Recheado de jogadores inexperientes, fez bonito eliminando o time principal do Corinthians nas quartas-de-final e conquistando o título sobre o Peñarol, com direito a uma goleada por 6×1 no jogo de ida.

Quando Telê saiu definitivamente, por problemas de saúde, o São Paulo tentou Carlos Alberto Parreira, recém campeão do mundo com a seleção brasileira. A experiência não deu certo e Muricy assumiu na seqüência para a reformulação do time, que já não tinha mais Raí, Zetti e outros nomes importantes na primeira metade da década de 90. Em 1997, no primeiro jogo, tomou a ousada decisão de colocar o goleiro Rogério Ceni como batedor oficial de faltas. O resto dessa história vocês já conhecem. Com elenco limitado por conta das finanças estarem sendo destinadas a uma grande reforma no Morumbi, não conseguiu sucesso na primeira passagem.

Retornou ao clube em 2006, pós-tricampeonato mundial e da Libertadores. Venceu o Brasileiro por três vezes consecutivas (2006/2007/2008), feito inédito no futebol brasileiro, além do vice-campeonato da Libertadores em 2006. Montou uma das maiores defesas da história do clube, com Miranda, Alex Silva, André Dias e Breno se revezando entre os três zagueiros titulares. Com sua vibração, mostrava que era são-paulino de coração, ganhando a torcida nas arquibancadas. Saiu depois de três anos e meio para retornar num dos momentos mais complicados da história do clube, em 2013, correndo sério risco de rebaixamento. Salvou o time e, no ano seguinte, foi vice-campeão nacional.

Muricy fez história no São Paulo. E é são-paulino de coração. Divirjo de suas preferências táticas, de seu modo de armar a equipe, mas não contesto (e nem teria como) sua capacidade. É um vencedor nato. Não inventava nas entrevistas coletivas, falava exatamente o que pensava. Se essa saída do Flamengo foi necessária para que preservasse sua saúde e tenha sido uma aposentadoria definitiva, só me resta agradecer ao Muricy por tantas alegrias que proporcionou à mim e a toda torcida são-paulina. Colocou seu nome como segundo treinador mais vencedor da história do tricolor, atrás apenas do Mestre Telê Santana. Está na galeria dos maiores ídolos do clube. Deverá sempre ser reverenciado por tudo que fez.

Para encerrar, deixo aqui o grito que tantas vezes entoei nas arquibancadas, como forma de agradecimento. É MURICY – É MURICY – É MURICY.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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