“Por favor, parem!”

(Foto: Pei Fon/TNH1)
(Foto: Pei Fon/TNH1)

Como admirador do futebol, é difícil escrever esse texto. Difícil porque eu relembro os ensinamentos da época de graduando em Direito e percebo que poderei advogar contra a minha paixão e meu trabalho, ainda que de forma indireta. Mas o que aconteceu no último domingo (8), dia das mães, chocou o Brasil e o mundo, fazendo com que ninguém lembrasse que o CRB conquistou mais uma taça de campeão alagoano diante do seu arquirrival CSA.

Dificilmente o leitor deste texto não viu, ouviu falar ou ficou sabendo da barbárie ocorrida após o apito final, quando ambas as torcidas invadiram o gramado e protagonizaram cenas lamentáveis de violência, chegando a quase matarem 2 torcedores que também invadiram o gramado. As cenas percorreram o mundo inteiro e mancharam o futebol local.

Não quero com esse texto discutir especificamente torcidas organizadas, até porque acredito que o problema é muito maior que a instituição. O problema é a falta de punição aos marginais que fazem parte destas organizações. Para além disso, o problema é da sociedade, que claramente, compadece de uma doença chamada falta de humanidade.

Não é o primeiro clássico em 2016 que houveram confusões. Relatos falam de vandalismo, confronto de torcedores, depredações de transportes coletivos e outras situações ao redor de toda a cidade. Todo clássico gera um clima tenso na cidade de Maceió, é perceptível a tensão das pessoas, preocupadas em não serem alvos de arruaceiros pela capital alagoana. Na final de ontem, dois casos me chamaram ainda mais atenção. Um jovem morreu esfaqueado por tentar impedir que seus “amigos” apedrejassem um ônibus coletivo onde estavam alguns torcedores rivais. Seus amigos o mataram por ele discordar da ação. Num outro caso, uma discussão de bar sobre futebol gerou um assassinato com um revólver de um homem trajando a camisa de uma uniformizada do CSA.

Bizarro.

Vamos reavaliar os nossos valores, a nossa humanidade, vamos dar mais valor a vida. O futebol é um jogo feito pra divertir, pra entreter, para ser admirado. É muito triste perceber que ele é usado como desculpa para alguns se digladiarem por um fanatismo doentio. Momentos como o de ontem me fazem repensar a vontade de levar os meus sobrinhos ao estádio, para compartilhar todo o amor que só o futebol pode nos oferecer, de forma única e contagiante. Por coincidência, antes de escrever o texto, estava lendo uma entrevista do treinador do Liverpool, Jürgen Klopp, que ele explicava o porque dele ser tão próximo de seus jogadores “eu amo seres humanos”. Provavelmente, esse amor pela vida e pelas pessoas possa nos salvar da irracionalidade que cada vez mais assola a humanidade, fazendo do futebol uma de suas vítimas.

Hoje a cidade amanheceu de luto. Luto pelo futebol, pelas cenas tristes protagonizadas no Rei Pelé, luto pela mancha no título alagoano do CRB. O choque foi grande. E a imagem de uma criança, captada pela equipe da TV Pajuçara, resume bem o sentimento dos amantes do futebol. Chorando, ela simplesmente grita: “Parem, pelo amor de Deus, parem!”. Eu fico com a pureza do pedido da criança: Parem!

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