Chegou a vez de Fabiana Murer?

Nós brasileiros somos pródigos em elevar e detonar ídolos. E em alguns esportes, somos bem cruéis. Praticamente não lembramos por quatro anos que certas modalidades, ouvimos um punhado de notícias que algum brasileiro (a) está indo bem em campeonatos ao redor do mundo, que é esperança de medalha. Aí, se o pódio não vem, as críticas estão prontas. A saltadora com vara Fabiana Murer está nesse grupo.

A campineira começou sua carreira em 2003, mas foi só em 2007 que os resultados começaram a aparecer, com a quebra do recorde sul-americano indor, com 4 metros e 66 centímetros, mesma marca conquistada ao ar livre, nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, marca a qual lhe rendeu o ouro na competição. Chegou então o ano de 2008 e a tão aguardada estreia nos Jogos Olímpicos em Pequim. Fabiana se preparou por um longo período na Itália, com Vitaly Petrov, aperfeiçoando sua técnica no salto. E chegou bem na China, qualificando-se para as finais com reais chances de medalha. Porém, para os saltos acima da marca de 4,60m, sua vara não estava no estádio. Inconformada, tentou parar a competição, reclamou muito. Em vão. Visivelmente abalada pelo ocorrido, não conseguiu passar a marca e ficou apenas com a 10ª posição. Na mesma noite, sua vara foi encontrada, junto com as das atletas eliminadas. As desculpas do Comitê Organizador não amenizou a frustração de Fabiana pelo incidente.

Porém, Murer continuou firme entre as melhores do mundo nas competições seguintes. No Mundial de Pista Coberta de 2010, em Doha, conquistou o lugar mais alto do pódio, saltando para 4,80 metros, tornando-se a primeira brasileira campeã em pista coberta. No mesmo ano, venceu a prova no Meeting de Atletismo de Zurique, com 4,81m, além do título da IAAF Diamond League, igualando o feito que somente Maurren Maggi, Zequinha Barbosa, Robson Caetano e Claudinei Quirino haviam conquistado.

No Campeonato Mundial de Atletismo de 2011, em Daegu, na Coreia do Sul, Fabiana Murer realizou feito histórico ao ser campeã, derrotando a recordista mundial e bicampeã olímpica Yelena Isinbayeva, a campeã mundial Anna Rogowska e toda a elite do esporte presente, igualando o recorde sul-americano com 4,85m. Esta foi a primeira medalha de ouro do Brasil num Campeonato Mundial de Atletismo.

No mesmo ano, ao participar dos Jogos Pan-americanos de 2011, em Guadalajara, no México, foi surpreendida pela cubana Yarisley Silva, que até 2010 tinha como melhor marca apenas 4,70m, ultrapassada apenas uma única vez, mas em Guadalajara conseguiu saltar 4,75m, batendo o recorde de Cuba e o da competição. Fabiana, embora tenha feito a boa marca de 4,70m – 10 cm acima de seu próprio recorde pan-americano anterior na Rio 2007 – ficou apenas com a medalha de prata, numa dos maiores revezes brasileiros do Pan de 2011.

Em meio a altas expectativas geradas para Londres 2012, sua segunda participação em Jogos Olímpicos acabou se tornando tão frustrante quanto a primeira. Se em Pequim 2008 a culpa foi das varas sumidas, em Londres foi “o vento”. Fabiana foi eliminada ainda na fase de classificação, ao não conseguir superar os 4,50m nas três tentativas, segundo ela por causa do vento que a todo momento durante seus saltos mudava de direção e força, prejudicando a corrida e a impulsão. Mesmo assim, ela admitiu ser a culpada por seu baixo rendimento na mais importante competição esportiva do mundo, alegando que realmente “estava saltando muito mal”.

De lá para cá, Fabiana ficou em 5º lugar no Campeonato Mundial de Atletismo de 2013, em Moscou, onde viu a rival e amiga Isinbayeva voltar ao topo da prova conquistando o título mundial pela quarta vez, terminou o ano de 2014 como a nº1 do mundo no ranking da IAAF, depois de vencer novamente o circuito da Diamond League. Nos Jogos Pan-americanos de Toronto 2015, Fabiana ficou com a medalha de prata, depois de duelo com a cubana Yarisley Silva, a medalhista de ouro, as duas repetindo a mesma colocação de Guadalajara 2011. A prova, de alto nível técnico, viu Silva realizar o maior salto do ano até ali, 4,85 m, com Fabiana saltando 4,80 m logo atrás, derrotando a campeã olímpica de Londres 2012, Jennifer Suhr, com 4,60m, medalha de bronze.

Agora é chegada a hora de disputar em casa os Jogos Olímpicos, sua terceira tentativa de subir ao pódio. A russa Isinbayeva não estará no Rio de Janeiro por conta da suspensão imposta pela IAAF aos atletas russos em meio ao caso generalizado de doping na modalidade. A disputa do ouro então ficará com a rival cubana novamente. Fabiana declarou que deve se aposentar após os Jogos Olímpicos. Se ficar fora do pódio, talvez fique sem o devido reconhecimento do grande público que praticamente só sabe da existência da modalidade e da brasileira a cada quatro anos. Mas seus resultados são expressivos. Numa nação que sabe reconhecer seus esportistas de sucesso, Fabiana teria lugar cativo. Pena que no Brasil não pensemos assim. Mas, quem sabe, no Rio de Janeiro, não seja a vez dela? Quem sabe, depois de dois Jogos Olímpicos frustrantes para a campineira, o destino não tenha reservado a ela, no final de sua carreira, a glória tão desejada? Que venha o pódio de nossa guerreira do salto com vara e, quem sabe, a merecida valorização e reconhecimento.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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