De Bandeja – Cristiano Felício e a Escolha de Sofia

Passada uma semana de uma das convocações mais esperadas da história do basquete nacional, Ruben Magnano fez escolhas corretas e coerentes com o que o Brasil tem de disponível para os Jogos Olímpicos desse ano. A única polêmica, se é que se pode chamar assim, foi o pedido de não convocação de Cristiano Felício, ala-pivô do Chicago Bulls que teve um ótimo final de temporada na equipe da cidade dos ventos, mas, por não ter contrato garantido para a próxima temporada na NBA, preferiu a preparação na Summer League que estar entre os 12 representantes do Brasil no Rio de Janeiro.

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A referencia que faço no título do post é com relação ao clássico do cinema A Escolha de Sofia (Sofia’s Choice;1982), em que a protagonista da trama tem de decidir, em meio a segunda guerra mundial na Alemanha nazista, qual dos seus dois filhos sobreviveria. Claro que é exagero comparar as situações expostas no filme com a decisão que Felício teve de tomar, mas vale a analogia, afinal, como o próximo jogador deixou claro em nota oficial, foi a decisão mais difícil que teve de tomar e teve que ouvir muito a voz da razão sobre a emoção.

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Para comentar sobre a decisão de Felício, precisamos deixar alguns pontos bem claros: O primeiro ponto é que se trata de uma decisão extremamente pessoal que ele tem todo o direito e dever de seguir o que considera melhor para sua carreira e sua vida. O segundo é que, ao contrário do que acontece em outros esportes, a competição mais importante do mundo do basquete não é entre seleções, e sim a NBA. É nela que qualquer jovem que começa a quicar suas primeiras bolas nas quadras do mundo afora sonha em jogar. Disputar Olimpíadas ou Mundial com a seleção do país é apenas um “plus” na carreira. Pode ser considerado ápice basicamente para aqueles que não conseguiram chegar à melhor liga do mundo. O terceiro e derradeiro ponto é que Felício não tem obrigação nenhuma com a CBB, que pouco faz para fomentar o trabalho de base do basquete, tanto no masculino quanto no feminino, pelo Brasil. Se Felício chegou a NBA é muito mais por méritos próprios que por qualquer ação que a confederação promoveu ao longo dos tempos tenham impactado em sua carreira. E não venham me dizer que seleções sub qualquer coisa podem ser consideradas como trabalho de base.

Tendo esses três pontos colocados, fica impossível condenar a decisão de Felício. Como já citado, foi uma decisão da razão sobre a emoção. Estar no grupo dos 12 atletas que disputarão os Jogos Olímpicos aqui no Brasil sem dúvida nenhuma seria algo emocionando na vida do atleta, como será para cada um dos 12. Mas a razão não dizia isso, levando-se em conta que Felício não seria o titular absoluto dessa seleção, que deve contar com Nenê e Anderson Varejão seguramente entre os jogadores da posição com maior tempo de quadra.

Felício tem apenas 24 anos e tem uma oportunidade única pela frente. Cresceu muito na reta final da temporada e, se os boatos que Joakim Noah e Pau Gasol não retornaram para a temporada que vem pelo Chicago Bulls se confirmarem nessa off season da NBA, o brasileiro terá grandes chances de firmar seu nome definitivamente na liga. Para isso, tem de ouvir o que a equipe lhe indicou para crescer nesse período e se todo staff mostrou que estar na Summer League, adaptando-se ao ritmo de jogo da NBA (que é diferente da FIBA, importante dizer) que ficar apenas como opção nos Jogos Olímpicos aumentará suas chances de sucesso, quem poderá condenar a decisão do jogador? E, como o trabalho de base aqui no Brasil ainda é bem pobre, somado aos principais jogadores da seleção já serem veteranos (além dos já citados Nene e Varejão, Leandrinho e Huertas já passaram da casa dos 30 e caminham para a reta final de suas carreiras) ter um mais um jogador jovem em bom nível na NBA será extremamente benéfica para a seleção brasileira em longo prazo.

Dessa maneira, a decisão de Felício foi sensata. Continuarei torcendo para que jogue muito na Summer League e chegue para o início da temporada regular “on fire”, com cada vez mais minutos e importância para o Chicago Bulls. Com isso, todos sairão ganhando.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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