Esportes Americanos: a sua marca está pronta?

TEXTO: Luis Butti

Responda rápido: qual foi a última vez que você comprou, no Brasil, uma camisa de NBA, NFL ou MLB, em loja física, sem o auxílio da internet ? As chances da resposta ser “nunca comprei” para a maioria dos leitores do HTE Sports são bem altas.

Pudera. Se fizermos um panorama da realidade, a notícia para as grandes marcas brasileiras não é boa, por dois motivos. Primeiro, porque o consumo destes esportes americanos são cada vez mais frequentes no Brasil, e segundo porque as empresas se mostram completamente despreparadas para atender este mercado.

É sério. Faça um teste.

Tente encontrar uma camisa da NBA numa Centauro ou Decathlon da vida. Vai achar, quando muito, alguma coisa do Lakers, Bulls ou Celtis, franquias mais populares. Um bonezinho, uma camiseta de três temporadas atrás. E só. A variedade fica restrita a internet, onde te priva da experiência do tocar, cheirar, sentir na hora da compra. Lovemarks. Nós já falamos disso aqui. É ali que nasce a paixão pela marca.

E o Basquete, caros amigos, é marca.

O Futebol Americano também é marca.

O Baseball, mesmo sendo mais tímido que os dois acima, também é marca.

Até mesmo o Hockey, mesmo num país tropical, que faz calor quase o ano inteiro, também é marca.

Mesmo por trás de grandes ligas ou franquias vencedoras. Tudo é marca, mas anda muito mal embalada no país. O presente é entregue em embalagem amassada, meio suja.

Em tempos de Stephen Curry e LeBron James, marcas esportivas (e não-esportivas patrocinando o esporte) se ausentarem do momento significa aceitar a crise que devasta o país, e por tabela, respinga no esporte e nos investimentos. É preferir a chorar do que vender lenços. Nizan Guanaes já batia nesta tecla. Não dá para aceitar passivamente o momento sem olhar adiante. O Marketing Esportivo, parafraseando Muricy Ramalho, também pune. Investir em esportes aonde o campo é pouco explorado, com o mínimo de conhecimento e de foco, é faturamento. Dinheiro girando.

O Brasil não está pronto para lidar com potenciais consumidores de esportes norte-americanos. E suas marcas, muito menos. Seus anseios não são atendidos.

Álbum de figurinhas da NBA? Não.

Flâmulas de parede? Jamais.

Bonecos Bobblehead? Menos ainda.

Curry e seu bobblehead
Curry e seu bobblehead

Aliás, será que o Marketing Esportivo brasileiro sabe o que é um Bobblehead ? E que este tipo de boneco tem até dia especial nos Estados Unidos de sua distribuição gratuita em arenas e ginásios, e que também gera dividendos milionários? Provavelmente não.

Bobblehead é um simpático bonequinho, de uns 20, 25 cm de altura (talvez um pouco mais em alguns modelos) de atletas, técnicos e até de personalidades, como narradores, repórteres e pasme, até vendedores de pipoca e cachorro quente dos ginásios, muito querido nos Estados Unidos.

Você cutuca a cabeça dele, e ela treme. E as pessoas colecionam Bobbleheads.

Acredite! Conforme disse três parágrafos acima, eles possuem até um dia nacional nos Estados Unidos. O Bobblehead Night. Em cada jogo de esporte que você vai (inclusive universitários), você GANHA diversos deles.

Isso mesmo. Os bonequinhos Bobblehead, conforme o lugar, no dia deles, são presentes. Gratuitos.

Fora os inúmeros, lógico, que você pode comprar e colecionar.

O Brasil, provavelmente não sabe o que é um Bobblehead. Aliás, sequer Mini-Craque sabe direito.

Mostra-se engessado, com licenciamentos bem conservadores, presos em variáveis. O óbvio. Nada mais do que o óbvio, com medo de ousar e fracassar. Camisetinha de uma temporada passada aqui. Bonezinho de outra temporada retrasada ali. E pára. Nada de novo. Nada que gere paixão, desejo.

Ora, quem cria desejo é a necessidade. Não há motivo em esperar que a NBA crie um vínculo maior entre consumidor – marca. A marca é quem precisa dar o pontapé inicial. Ou ganhar a posse de bola quando ela subir, “basquetemente” dizendo.

A NBB também é solenemente ignorada. Exceto o Flamengo, por ser time de Futebol, praticamente impossível ter uma camisa de algum time participante do torneio. Será mesmo que eu precisarei ir para Bauru para comprar um mísero chaveiro do Bauru Basquete ?

Aliás, até a Seleção Brasileira de Basquete Masculino, mesmo com astros em grandes equipes da NBA é ignorada. Vai, tenta achar em loja física a camisa do scratch de Varejão, Huertas e Leandrinho.

Com um detalhe: Menos de 100 dias para as Olimpíadas, hein ? Olimpíadas, aqui no Brasil.

E nada.

Para a NFL e para a MLB, o caso é ainda pior.

Como tratam-se de ligas de um esporte onde os equipamentos são bem menos usuais no Brasil (proteção de peito, capacete, calçado especial, protetor bucal, taco, luva etc), e a prática é bem menos frequente (não existe, de forma competitiva, uma “seleção brasileira de FA ou Baseball”, que o mundo todo quer ver e enfrentar, por exemplo), as equipes sofrem junto.

Os produtos que não são para jogo (camiseta, boné, artigo de mesa, pôster, flâmula, etc) acabam ficando restritos a lojas físicas nos Estados Unidos. Não vem pra cá. Ou você traz dos Estados Unidos, ou depende da boa vontade de alguma grande fornecedora como a Nike, que é a responsável da vez pelos uniformes das 32 franquias no momento. Até alguns anos atrás, o posto pertencia a Reebok. Mas nem isso foi suficiente para bombar os produtos por aqui.

Medo ? Conservadorismo ?

Não vi este conservadorismo todo quando o assunto foi licenciamento e distribuição de artigos do UFC, quando o mesmo ainda não era febre.

A única desculpa plausível para a ausência de produtos é o alto custo de importação e frete. Mas a mesma é logo quebrada pela variedade de linhas, produtos e marcas.

Você pode não ter uma camisa oficial do Dallas Cowboys, custando 399 dólares, por exemplo. Mas pode ter uma camiseta (T-Shirt mesmo, tipo Hering) do Tony Romo, custando 40 dólares. Pode ter um boné.

Aliás, quando você vai aos Estados Unidos nos grandes outlets de estradas, ou em Shoppings, já reparou nas lojas que mais investem nos produtos destes esportes ?

Foot Locker, Dick’s, Majestic.

Nomes incomuns pra maioria dos leitores brasileiros do HTE Sports. Mas bem frequentes para quem viaja para a terra do Tio Sam. Redes de lojas que não arriscaram vir para o Brasil. Sabem que o conservadorismo do licenciamento e da distribuição por aqui arruinaria qualquer plano de negócio para quem visa ganhar dinheiro com esportes americanos por aqui.

Ninguém quer saber deles.  Quando muito, um ou outro anunciante (de outro segmento, diga-se), no break dos canais a cabo.

É pouco para quem deseja criar raiz num país aonde o Futebol (Soccer) domina amplamente.

Estamos perdendo dinheiro. Perdendo oportunidades.

Lutamos sozinhos com as vozes de Everaldo Marques, Rômulo Mendonça e Roby Porto, tentando criar paixão. Paixão esta, que o mercado não soube corresponder e fazer a roda da fortuna girar.

ESPN, Sportv e Esporte Interativo são um oásis numa imensidão de inércia, quando o assunto é a divulgação de um nicho que começa a deixar de ser nicho pra ser hábito amplo. Estamos presos a memes em redes sociais.

O relacionamento cliente – produto pessoalmente está morrendo para os demais esportes. Ou nunca existiu, sei lá. É uma falha gigantesca quando a lacuna da paixão não é preenchida. Alguém precisa tomar a dianteira em caráter de urgência. As marcas só acordam quando está perto do SuperBowl.

O que é grave. Cinco a seis meses de pré-temporada e temporada regular jogadas no lixo. Que a economia do país podia funcionar melhor através do esporte.

Estamos tratando com um esporte em franca evolução. Com arquétipo jovem, em sua maioria com dinheiro, consumista e cheio de vida. Um esporte que consegue falar nas cinco regiões e, principalmente: penetra em locais aonde o Futebol não penetra tão bem, como o Mato Grosso, o Amazonas e o Espírito Santo. Pode prestar atenção nisso. Os maiores polos de paixão do Futebol Americano são em locais aonde o Soccer não vai tão bem ou há a ausência de times mais tradicionais e nacionais.

Falta feeling e sentimento de pioneirismo. Não estamos lidando com esportes em declínio, como foi a corrida de cavalo nos anos 90 e 2000. Ou o Boxe, até estourar Pacquiao e Mayweather recentemente, reacendendo a fagulha. Lidamos com um foguete prestes a atingir a estratosfera.

Mas a inércia é compreensível para um país cego que vê a NFL como o “esporte do marido da Gisele Bündchen”.

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