Itália e Palmeiras – A fruta não cai longe do pé

Aviso: o texto a seguir é uma prosa, um relato palmeirense, portanto é da natureza do texto o parcialismo. Se você está procurando por um texto factual, com notícias, sinto em desapontar. Caso o contrário, fica, vai ter bolo.

“A fruta não cai longe do pé” é um ditado popular usado para expressar que uma pessoa quase sempre repete o comportamento de suas influências. Por exemplo, seu pai torce para um time. Como a fruta nunca cai longe do pé, você também torce para o time do seu pai.

Todos conhecem a história do Palmeiras, sua origem como Palestra Itália, a luta dos imigrantes italianos por um espaço na cidade e todos esses elementos folclóricos que hoje compõem o imaginário do palmeirense. Essa relação de carinho com suas origens, a Itália, é algo no mínimo interessante no comportamento dos torcedores alviverdes.

Segunda feira, dia 27, eu era mais um dos milhões de Palmeirenses acompanhando o jogo da Eurocopa e torcendo apaixonadamente pela seleção italiana, afinal de contas, a Itália é o Palmeiras na Euro, temos que torcer pela nossa terrinha, ela faz parte de quem nós somos, nossa identidade. Quando o jogo chegou ao fim e a Azzurra derrotou a Fúria, se classificando para a próxima fase do torneio, eu logo lembrei de outro jogo que acabou sendo muito parecido com esse que tinha acontecido no Stade de France.

Imediatamente me veio à memória a partida entre Palmeiras e Rosário Central, no dia 3 de março desse ano (2016), válida pela fase de grupos da Copa Libertadores da América. Eu estava lá no Allianz Parque e assisti o Palmeiras derrotar os portenhos pelo mesmo placar, dois a zero.

Não sou muito de tirar fotos. Essa aqui, salva do snapchat, é o meu único registro daquela noite.
Não sou muito de tirar fotos. Essa aqui, salva do snapchat, é o meu único registro daquela noite.

Assim como em Saint-Denis, chovia muito em São Paulo no início do jogo. Enquanto os europeus escorregavam por causa do campo molhado, aqui os oriundi mal conseguiam fazer a bola correr em um campo tão pesado. O Palmeiras estava com a corda no pescoço, assim como a Itália, um time irregular há uma década desde o seu último momento de glória, enfrentando a atual bicampeã da competição, que derrotou essa mesma Itália na última final por um massacrante quatro a zero. O verdão estava apenas na segunda partida da Libertadores ainda, porém o time sofria dura pressão pelo estilo de jogo irregular e um primeiro resultado insatisfatório (empate fora de casa contra o fraco River Plate do Uruguai).

Essa vitória contra o Rosário Central, inclusive, é considerada por muitos o oposto de outro ditado popular nosso, o “há males que vem para o bem”. Essa vitória foi um “bem que veio para o mal”, pois ela acabou mascarando o fraco desempenho que o Palmeiras vinha apresentando, mantendo o técnico Marcelo Oliveira no cargo por mais algumas semanas. Marcelo não conseguiu resultados positivos nas outras partidas da Libertadores (a vitória sobre o River Plate foi comandada por Alberto Valentim), dando motivos aos críticos palmeirenses dizerem que a eliminação veio porque o técnico não foi dispensado a tempo de recuperar o prejuízo.

Mas assim como a Azzurra, o Palmeiras também abriu o placar no primeiro tempo, com um gol de muita luta e oportunismo. O brasiliano Eder mandou uma bomba para o goleiro De Gea na cobrança de falta, Giaccherini disputou o rebote com o espanhol e a bola sobrou para Chiellini fazer.

Foto: Cesar Greco / Fotoarena.
Foto: Cesar Greco / Fotoarena.

No Allianz Parque, Gabriel Jesus disputou no corpo com o zagueiro argentino e caiu no campo, a bola sobrou para Cristaldo, com muita raça, enfrentar todo mundo: dois zagueiros do Rosário o cercando, o goleiro adversário que nada pode fazer quando a bola morreu nas redes e até mesmo o próprio gramado, que por causa da forte chuva parecia conspirar contra o gol, dificultando a locomoção da bola. Mas com Churry não tem nada disso, um a zero para o Palmeiras (adeus Churry, boa sorte no México, ajuda eles lá com muita raça e carisma assim como foi aqui).

O primeiro tempo terminou, o intervalo passou e o segundo tempo começou. A Espanha e o Rosário Central eram os melhores times tecnicamente e tinham que reagir. Assim começou o segundo tempo que foi um real bombardeio para as defesas italianas (tanto a da Europa quanto a da Barra Funda). Os espanhóis sentiram a necessidade do empate e começaram a finalizar com frequência. Isso, porém, não foi nada perto do que fizeram os hermanos do Rosário.

O segundo tempo inteiro se passou no campo de defesa do Palmeiras. Eu estava na arquibancada atrás do gol do Fernando Prass e, juro para vocês, perdi a noção de tudo naquele instante. O Rosário Central pressionou e finalizou tanto em cima do Palmeiras, que eu fui parar em órbita, já não sabia mais onde estava, o que estava fazendo, nem mesmo quem eu era. Literalmente, o Palmeiras (e o palmeirense) ficou atordoado.

Teve milagre de goleiro, claro que teve! Buffon se esticou todo para desviar o chute do Pique na entrada da área, em cima dele. Reflexo puro, uma pintura. Por parte do Fernando Prass não é preciso dizer nada. Ele “apenas” defendeu um pênalti.

Aliás, salve as proporções (Gianluigi Buffon é um dos maiores goleiros de toda a história, longe de mim cometer o crime de compará-los), mas o que dizer de Gigi Buffon e Fernando Prass? Ambos são os representantes de uma longa linhagem de goleiros lendários, ambos carregam a responsabilidade de dar continuidade na tarefa de vestir a emblemática camisa de arqueiro da Itália e do Palmeiras, que já foram um dia de Dino Zoff, Pagliuca, Zenga, São Marcos, Leão, Oberdan Cattani e por aí vai. E cumprem esse dever com louvor, de maneira impecável (eu ainda acho que a ÚNICA diferença entre o São Marcos e o Buffon é que um deles tem cabelo, mas tudo bem).

E no final, um gol de contra ataque, um gol de oportunismo, para selar a vitória e a superioridade dos italianos e de seus descendentes. Pelle fez um movimento plasticamente muito bonito para mandar a bola para o fundo do gol, após cruzamento de Mattia Darmian ser desviado pela zaga. Já Agustín Allione recebeu a bola de Dudu, partiu para cima, driblou o zagueiro e matou o jogo no apagar das luzes.

Foto: Reuters.
Foto: Reuters.

É, o velho deitado, digo, ditado, estava certo: a fruta não cai longe do pé. Pode fazer mais de um século desde que aqueles italianos vieram para o Brasil, pode fazer quase um século que o Palmeiras deixou de ser Palestra Italia (74 anos), esses jogadores podem ter exatamente nada a ver uns com os outros, jogando em continentes diferentes, disputando competições diferentes. Mas não adianta, está no sangue. O estilo de jogo (e de vida) de muita luta e entrega está na alma desse povo de tanta garra. É algo que passa de geração para geração.

Avanti Palestra, Forza Azzurra e vice-versa!

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