Na vida de treinador, dinheiro não é tudo

Esse texto nasceu em meio de uma das discussões na “redação” do HTE. Em meio a um debate sobre Pep Guardiola, a dúvida surgiu: Será que Guardiola faria sucesso em uma equipe com menor poderio financeiro, onde não tivesse tantos craques? Com certeza o leitor já deve ter feito ou escutado essa pergunta alguma vez naquela discussão de boteco, no pós-racha/baba/pelada com os parceiros de firma ou naquele domingão com o tio fanático pelo clube rival ao que você torce.

Vamos ao exemplo de Guardiola. Começou a carreira profissional no Barcelona e ganhou tudo que podia, por temporadas seguidas. Após um ano sabático, assumiu o super campeão Bayern de Munique. Ganhou quase tudo que podia, menos a cobiçada Liga dos Campeões da Europa, onde parou em 3 semifinais seguidas. Mais do que resultados: seus times claramente têm um estilo de jogar, um padrão de como defender e atacar. Você liga a televisão e percebe que aquele time foi treinado por Guardiola.

Ressalto essas qualidades para dizer que, por mais importante que seja contar com grandes jogadores (que muitas vezes custaram muito aos cofres dos clubes), uma equipe não se desenvolve só com as individualidades. O trabalho do treinador é fundamental e pode ser a diferença entre o sucesso estrondoso e o fracasso retumbante.

Posso dar inúmeros exemplos do que um treinador ruim/médio pode conseguir, mesmo com uma equipe de grande poderio financeiro. Uma história recente é David Moyes no Manchester United. Chegou com uma base, escolheu suas contratações, gastou muita grana e… nada. Demitido após a pífia sétima colocação na Premier League na temporada 2013-2014.

Outro caso que pode ser citado é o de Juande Ramos no Real Madrid. O treinador chegou após passagens vitoriosas por Sevilla e Tottenham, credenciado pelo título inédito da Copa da Uefa para os espanhóis, e chegou para fazer do Real Madrid uma equipe novamente grandiosa no cenário europeu. Nenhum título conquistado, mesmo com uma equipe composta por nomes como: Ruud Van Nilsteroy,  Snjeider, Robben, Raúl, Casillas, Cannavaro, dentre outros. (em tempo: citei de forma equivocada jogadores do elenco da temporada 2005-2006. O erro já foi corrigido)

Isso quer dizer que os treinadores citados são péssimos? Não. Mas estes exemplos nos lembram que dinheiro não é tudo no futebol (mesmo que cada vez mais seja muito). E o trabalho dos treinadores tops, que conseguem colocar em prática sua filosofia de jogo no campo, com variações táticas, técnicas, jogadas ensaiadas, enfim, todo um arsenal para abater o seu adversário, deve sim ser celebrado.

Simeone, Klopp, Emeri, Tuchel, Ranieri, enfim, todos estes e outros que possa ter esquecido de mencionar (não mencionei nenhum brasileiro, mas foi de propósito. Tema para outra coluna) são grandes treinadores ao meu ver e merecem ser reconhecidos pelos grandes trabalhos. Dito isso, não acredito que eles sejam melhores do que Guardiola, Mourinho, Ancellotti e outros treinadores considerados tops (também não irei citar brasileiros propositalmente) sejam meros entregadores de coletes. O trabalho tático desses nomes é de se impressionar, cada um a sua maneira. Ao meu ver merecem o status que conseguiram para as suas carreiras.

Talvez o nível de dificuldade do trabalho de José Mourinho no Porto em 2002-2004, onde montou uma equipe de um poderio financeiro médio que conquistou uma Copa UEFA e uma Champions League, tenha sido muito mais complicado do que o seu clube posterior, o endinheirado Chelsea, onde conquistou duas Premier Leagues em sua primeira passagem em Stanford Bridge. Em comum aos dois trabalhos: a obediência tática, o bom encaixe das peças ao esquema de jogo idealizado, o vestiário fechado com seu comando e a sede imensa de vitória. Essas coisas o dinheiro não compra.

%d blogueiros gostam disto: