Reconto HTE #8 – O desabafo do Velho Lobo

Muitas vezes aqui no Brasil temos o costume de não dar o devido valor às personalidades que fizeram muito pelo esporte. Jornalistas, torcedores, dirigentes esquecem-se do passado com tanta facilidade quanto à que tem para elevar um atleta ao status de ídolo por breves sucessos. Mario Jorge Zagallo, o Velho Lobo sofreu com isso.

Zagallo foi bi-campeão do mundo como jogador, nas Copas de 1958 na Suécia e 1962 no Chile. Assumiu o comando técnico da seleção brasileira as vésperas da Copa de 1970 no México e conduziu uma preparação perfeita para a competição, disputada na altitude. Fisicamente, a seleção brasileira era a mais bem preparada da competição. Fez também mudanças táticas importantes, trazendo Tostão para jogar mais atrás e criando o maior meio-campo/ataque que o futebol mundial produziu com Clodoaldo, Rivellino, Gérson, Tostão, Jairzinho e o Rei Pelé. Ganhou o tri-campeonato. Também dirigiu a seleção em na Copa de 1974, caindo nas semifinais para a Holanda de Rinus Michels.

Em 1994 voltou a seleção brasileira, como coordenador técnico de Carlos Alberto Parreira. Mas a imprensa e a torcida não gostava do jeito de fazer a seleção jogar promovido pela dupla, sempre citando Telê Santana e seus trabalhos no São Paulo e com o Brasil em 1982 e Luxemburgo, que a época dirigia a máquina do Palmeiras/Parmalat. O tetra veio, mas sempre com aquele pulgante comentário de alguns de que preferem perder como em 82 que vencer como em 94. Parreira deixou a seleção e Zagallo assumiu o comando mais uma vez. Seu objetivo: Olimpíadas de 96 e Copa de 1998.

O sonhado ouro olímpico não veio. Com Ronaldo como principal estrela da companhia, a seleção canarinho perdeu nas semifinais para a Nigéria por 4×3, na prorrogação, depois de estar vencendo por 3×1 no tempo normal. Começava ali uma campanha de avacalhação de alguns jornalistas contra Zagallo, em prol de Luxemburgo, queridinho da imprensa na época e dono de ótimos trabalhos, principalmente no Palmeiras. Sem Eliminatórias para disputar, cada competição oficial da FIFA era tratada como prioridade por Zagallo. Entre elas, a Copa América de 1997, disputada na Bolívia.

Até aquela edição, o Brasil jamais havia conquistado a Copa América fora do Brasil. O time da Copa de 1998 já se desenhava, com Romário e Ronaldo sendo os principais nomes daquela seleção que tinha jogadores como Zé Roberto, Leonardo, Rivaldo, Taffarel, Edmundo entre outros. Pelos sorteios, o Brasil conseguiu ficar em Santa Cruz de La Sierra, cidade que fica ao nível do mar, fugindo da Altitude de La Paz. Classificando-se em primeiro do grupo, manteria essa condição até a eventual final. E a classificação veio, com 100% de aproveitamento. Vitórias de 5×0 sobre a Costa Rica, 3×2 sobre o México e 2×0 sobre a Colômbia. Nas quartas de final, 2×0 sobre o Paraguai. E nas semifinais, um sonoro 7×0 sobre o Peru.

Nesse período todo Zagallo dava poucas declarações, sempre comedido. Chateado com as críticas, mesmo tendo bons resultados (teve uma das maiores seqüência invictas da história da seleção nesse período), o treinador mantinha focado. A final, na altitude de La Paz, foi contra os donos da casa, onde o Brasil havia sido derrotado alguns anos antes, nas Eliminatórias para a Copa de 1994. Aos 40 do primeiro tempo, Edmundo abriu o placar para o Brasil. Sanchez empatou aos 45. No segundo tempo, Edmundo deu um soco num jogador boliviano que o árbitro não viu. Zagallo agiu rápido e colocou Paulo Nunes no lugar. E, quando o gás da seleção deveria acabar, Ronaldo e Zé Roberto fizeram um gol cada um,  aos 34 e aos 45 do segundo tempo, respectivamente, e deram para o Brasil o primeiro título da Copa América fora do território nacional.

Ainda no campo, emocionado e com todas as críticas engasgadas, Zagallo não resistiu. Com lágrimas nos olhos e quase sem ar, soltou a lendária frase “Vocês vão ter que me engolir” em direção aos jornalistas que o criticavam, sendo dois em especial: Juca Kiffouri e Juarez Soares. Zagallo estava de alma lavada com a conquista da Copa América. Seguiria caminho até a Copa do Mundo da França em 1998, onde foi vice-campeão, perdendo para os donos da casa. Mas desabafou como precisava.

Zagallo é um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro. Merece todas as homenagens que fizerem a ele. Merece o respeito pela história que construiu. Seu desabafo foi certeiro e preciso. A seleção brasileira deve ao Lobo a reverencia pelas suas conquistas.

A SÉRIE

A série RECONTO HTE é destinada a lembrar grandes momentos, histórias e personagens do esporte brasileiro e mundial. Ao longo do tempo, iremos trazer aqui grandes rivalidades, confrontos marcantes e tudo que nos fez um dia nos apaixonarmos por esporte. Afinal, aqui no HTE Sports, #TorcerÉPouco.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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