Existe justiça no futebol?

Texto: Péricles Lima

Alguns termos e expressões no meio do futebol são quase entidades deste esporte, volta e meia aparecem nas entrevistas de técnicos, de jogadores, nas análises de comentaristas: “buscar os três pontos”, “faltou raça”, “honrar a camisa”, e mais uma grande leva de frases que parecem surgir automaticamente em qualquer conversa sobre o assunto, muitas vezes sem se levar em conta seu verdadeiro significado. Outra colocação tão comum, mas não tão simples de se avaliar e entender é “o resultado não foi justo”. Afinal, como definir o que é justo dentro do futebol?

A grande “injustiça” da vez para muitos é o título de Portugal na Eurocopa, vencendo a anfitriã França com um gol na prorrogação, mesmo desfalcado em quase toda a partida do astro Cristiano Ronaldo. A campanha da equipe na fase de grupos foi de três empates em três jogos, resultados que ainda a levaram a uma chave com adversários com menos tradição no mata-mata. Nos quatro jogos eliminatórios foram duas vitórias na prorrogação, uma na disputa por pênaltis e somente um jogo vencido no tempo normal. Em nenhuma dessas partidas os lusitanos praticaram um futebol de encher os olhos, com Cristiano Ronaldo tendo atuações próximas do que se espera dele apenas em momentos pontuais: para definir a classificação contra a Hungria e na semifinal contra País de Gales.

Antes mesmo da final, muitos torciam o nariz para um possível título de Portugal pela campanha não tão vistosa, a (alegada) dependência de um único jogador; e o contraste com a empolgação do seu adversário, dono da casa, com um elenco com vários jogadores de alta qualidade técnica, e que havia eliminado os atuais campeões do mundo. Na decisão contra a França, os portugueses perderam a sua estrela logo no início do jogo por lesão, e se viram numa situação delicada. Contrariando o que se esperava, o time se manteve no jogo, contando com defesas fundamentais do goleiro Rui Patrício, e selou o título com um gol do herói improvável Éder na prorrogação.

Dizer que o título de Portugal foi injusto pela qualidade de seus jogadores e do futebol apresentado é negar a complexidade deste esporte e a sua própria História. Não se trata de algo exato e com meios práticos para se estabelecer previsões, e por isso é bastante complicado tratar de “justiça” e “merecimento”. É injusto os jogadores portugueses que souberam reconhecer suas próprias limitações, que trabalharam para superá-las e ainda perderam seu líder no jogo mais importante, serem os campeões da Europa? É injusto uma nação que viu sua melhor geração de jogadores perder uma Eurocopa em casa há 12 anos, que sofreu terrivelmente com a recente crise econômica mundial, festejar este título inédito? A França merecia ser campeã, mesmo com os seus jogadores, reconhecidamente mais técnicos, não sendo capazes de converter em gols as chances que criaram a mais? Foi injusto o gol do título ter sido marcado por Éder, jogador que nasceu em Guiné-Bissau e cresceu em um orfanato em Coimbra?

Se formos pensar por uma perspectiva mais flexível, o futebol é semelhante à vida em certo ponto: alguns têm mais recursos e muito mais oportunidades do que outros, e na maioria das vezes acabam obtendo mais sucesso, mas em algumas situações quem aproveita as poucas chances que tem se sobressai sobre quem desperdiça as suas. Tanto na vida quanto no futebol, é necessário ter a noção dessa relação para fazer o melhor com o que se tem em mãos. Outro exemplo ainda recente (e que dificilmente será esquecido) é a conquista da Premier League pelo Leicester na última temporada, talvez o feito mais surpreendente da história por se tratar de pontos corridos, que dificulta a aparição de surpresas. Claudio Ranieri, treinador já veterano e sem títulos de peso conseguiu sua primeira conquista de liga nacional com um elenco formado por jogadores desconhecidos e baratos, logo no campeonato inglês, o mais rico e considerado o mais competitivo do mundo, sendo mais efetivo contra times de sheiks e bilionários que gastam fortunas trazendo grandes craques de outras ligas. Portugal e Leicester provaram mais uma vez que comprometimento e dedicação podem superar talento e dedicação mal empregados.

Toda esta imprevisibilidade faz com que o futebol seja capaz de atrair a atenção e entreter pessoas em todo o mundo, não importando as diferenças existentes, tornando-o uma das manifestações com maior relevância cultural e social para a humanidade. O resultado de uma partida, de um torneio, faz parte do jogo naquele momento. A capacidade de mobilizar, de integrar e de influenciar todos aqueles que têm em comum a paixão pela bola rolando transcende a noção de apenas um jogo. E, para aqueles que sabem reconhecer e valorizar isso, o futebol nunca será injusto.

Crédito da imagem destacada: www.heraldnet.com

%d blogueiros gostam disto: