O preço de um espetáculo

Testo: Péricles Lima

Além de ser o esporte mais popular do planeta, se integrando nas mais diversas culturas e atingindo todos os níveis sociais e econômicos, o futebol é um grande negócio. E como todo negócio de sucesso, existem certos aspectos que não agradam todos os envolvidos. As cifras nas especulações e transações no mercado de transferências são o que tem gerado mais discussões nos últimos tempos.

Foi-se o tempo em que o Real Madrid era o único clube a fazer compras extravagantes nas janelas de transferência europeias, algo até certo ponto aceito, pela tradição do clube em reafirmar sua imponência. Mas o cenário tem mudado radicalmente nos últimos anos. No atual mercado, Gonzalo Higuaín foi comprado pela Juventus por € 90 milhões, o Manchester United está próximo de acertar o retorno de Paul Pogba por um valor acima de € 100 milhões. Isto sem citar a ida de jogadores de todo o mundo para clubes chineses, que apelam para ofertas tentadoras para superar a desconfiança pelo baixo nível técnico da liga e as diferenças culturais. Os valores têm causado espanto e desconforto para muitos técnicos, torcedores e até outros jogadores, que questionam a supervalorização de um indivíduo num jogo coletivo, e o distanciamento cada vez maior com os torcedores.

Jürgen Klopp, técnico do Liverpool, mostrou mais uma vez sua personalidade ao tratar do assunto. Para o alemão, não se pode perder de vista que o futebol é sobre jogar juntos, e não correr com a bola o tempo todo. Klopp afirma não ser o guardião da moral, mas quer fazer as coisas diferentes, construir um grupo e trabalhar para vencer, gastando apenas o que julga ser necessário. Thomas Tuchel, sucessor de Klopp no comando do Borussia Dortmund, classificou a escalada do mercado de transferências como “louca” e chamou a atenção para um outro aspecto: “Os preços estão fora de controle na minha opinião, e isto não é saudável, porque não há mais uma relação com as pessoas que vêm ao estádio e assistem às partidas”. E completa: “Se é apenas sobre o ego, se é apenas sobre o dinheiro, então nós perdemos isto. O jogo é para o povo”. O posicionamento de Tuchel é apoiado por Francesco Totti e Diego Maradona, que fizeram duras críticas à saída de Higuaín do Napoli para a Juventus, alegando o sentimento de traição que a atitude do atacante argentino deixou nos torcedores do time de Nápoles.

Mas se o futebol tem feito cada vez mais dinheiro, não é natural que os jogadores também passem a receber mais? Não são eles os responsáveis pelo espetáculo?

A Copa do Mundo de 2014 deu algo em torno de 5 bilhões de dólares em lucro para a FIFA. O novo acordo de direitos de transmissão da Premier League foi assinado por cerca de 7 bilhões de euros. Essas quantias estratosféricas evidenciam o potencial financeiro do futebol, que gera dinheiro com os direitos de imagem, vendas de produtos licenciados, ingressos e as transações de jogadores. É inevitável que os clubes, que estão gerando cada vez mais receitas, repassem salários maiores para os atletas. Não adianta se agarrar à máxima do “Ódio eterno ao futebol moderno”, pois se há mais dinheiro envolvido no esporte hoje do que há 20, 30 anos, os jogadores também precisam receber mais do que recebiam há 20, 30 anos. É uma lógica do mercado, que se aplica a todas as profissões, e é totalmente compreensível.

No que diz respeito à relação com os torcedores e a “essência” do jogo, a reflexão é mais profunda. Torcidas em vários países lutam pela redução dos preços dos ingressos das partidas, pois a venda de entradas é uma parte cada vez menor da renda dos clubes, mas a resistência ainda é grande. Seja na Europa ou no Brasil, os estádios de futebol estão se tornando um ambiente cada vez mais elitizado e de difícil acesso para jovens e pessoas de baixa renda. As novas gerações têm mais contatos com os jogadores pela TV, Internet e videogames do que nos estádios (ou arenas); a identificação de um jogador com um clube, uma torcida e uma cidade é cada vez mais rasa; e não surpreende a facilidade com que um atleta toma a decisão de se transferir.

As altas quantias em torno do futebol também geram suspeitas sobre manipulações de resultados e lavagem de dinheiro, e a fiscalização insuficiente das autoridades e federações sobre donos bilionários de clubes, empresários e grupos de investimento contribui para uma desconfiança sobre a honestidade do jogo.

É inevitável que enquanto o futebol continuar aumentando sua arrecadação, os valores pagos e recebidos por jogadores sigam o mesmo caminho. Mas para que isto aconteça, não é necessário tornar os torcedores cada vez mais em consumidores, medindo sua importância pelo poder de compra e não pela vontade de apoiar o seu time. Com os estádios voltando a ser locais convidativos para todas as pessoas, onde se possa torcer da melhor maneira que nos convir, sem discriminação e violência, as ligações entre torcida-jogadores voltarão a ser mais fortes, emocionais, mostrando que seja na arquibancada ou dentro do campo, a paixão pelo futebol é a mesma.

 

Crédito da imagem destacada: https://twitter.com/Football__Tweet

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