O sonhador Guardiola

Texto: Péricles Lima

Desde o anúncio de Pep Guardiola como técnico do Manchester City a partir da temporada 2016/17, há uma enorme expectativa para saber como será o desempenho do catalão na Premier League, ainda mais com o início do novo contrato bilionário de TV que promete elevar ainda mais o nível da liga mais disputada do mundo atualmente.

Nesta segunda (04/07), o canal oficial da equipe inglesa no YouTube publicou a primeira entrevista de Guardiola como técnico do time de Manchester, e quem teve a honra de conduzir a conversa foi o músico Noel Gallagher, fundador da banda Oasis e torcedor fanático dos Citizens.

Num papo bem descontraído, uma das perguntas do roqueiro foi o que fez o treinador escolher trabalhar na Inglaterra. Pep respondeu bem humorado que, além do clima, decidiu ser técnico na Premier League para conquistar títulos e fazer a equipe jogar um futebol que agrade os torcedores do clube e todos os fãs do futebol pelo mundo. Junto com sua ideologia defendida, outra motivação para Guardiola foi a desconfiança de muitos sobre a viabilidade de se praticar o estilo consagrado em suas equipes anteriores, um futebol técnico e focado na posse de bola, em um campeonato com características tão singulares, como a intensidade com que se disputa cada partida e o calendário mais recheado que em outros países (são duas copas nacionais, além das competições internacionais).

“Algumas pessoas disseram: ‘O jeito que você joga não é possível na Premier League’. E eu me perguntei: ‘Por que não?’”. Um técnico mais do que consagrado, que escreveu seu nome na história do futebol em menos de uma década, mostra que está sempre disposto a sair da sua zona de conforto, deixando o comando de equipes pelas quais conquistou títulos importantes e treinou grandes jogadores para encarar novas culturas, novas línguas, e continuar aprimorando um estilo de jogar que o agrada e que ele acredita que agrade qualquer fã do esporte mais popular do planeta. “É um grande desafio, não apenas para mim, mas sempre nos meus times eu fui capaz de moldar os jogadores, e irá acontecer aqui também. Quando isto ocorrer, as coisas serão mais fáceis”.

O catalão tem uma visão bem romântica sobre o futebol, que prega ser capaz de conciliar qualidade com resultados, uma tese bastante contestada nos últimos tempos até mesmo por treinadores renomados. O “pai” do tiki-taka, estilo exaltado por muitos pelo alto nível técnico e criticado por outros tantos que o acusam de ser “chato”, tem uma visão notadamente mais apurada sobre o jogo e não muda suas convicções por pressões de torcedores, dirigentes ou da imprensa. Ele acredita nas próprias ideias e está sempre trabalhando para aprimorá-las, seja de acordo com as características de seus jogadores ou às exigências do adversário, sempre visando a excelência. Guardiola parece se inspirar numa das mais célebres frases do seu mentor Johann Cruyff: “Qualidade sem resultados é inútil. Resultados sem qualidade são entediantes”.

Gallagher ainda o questionou sobre sua escolha em permanecer por períodos curtos nas equipes, se isto não o impedia de construir “legados”. Pep foi enfático: “Eu estou aqui para aprender”. Longe de soar como falsa modéstia, a fala combinada com o brilho nos olhos do treinador mostra o seu desejo de retribuir toda a alegria que o futebol lhe proporcionou, e garantir que a atual e as próximas gerações possam desfrutar do mesmo. “Especialmente para as pessoas, quando a partida terminar e disserem: ‘Oh, noventa minutos. Nada mal, prefiro estar aqui a estar no bar’. Este seria um bom sinal”.

Espero, assim como a torcida do Manchester City e todos os fanáticos pelo bom futebol, que Pep não deixe de continuar sonhando.

Crédito da imagem destacada: thisdaylive.com

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