Sampaoli, a magia que o futebol espanhol precisava

Jorge Sampaoli é dessas figuras que precisam ser observadas de perto. Apreciadas. Inquieto a beira do campo, anda, pula, grita, gesticula, anota, dita o ritmo de seus comandados e de seus admiradores. Vive o jogo. Pulsa com as jogadas. Vibra com os gols. Mas, o que seria de Sampaoli se sua genialidade como treinador não acompanhasse o gênio que demonstra no banco de reservas?

Bielsista convicto, segue seu mestre não só pelas convicções táticas e técnicas, como também pelas loucuras fora de campo. Jogador frustrado, lesionou-se gravemente aos 19 anos e teve o sonho de desfilar pelos gramados encerrado de maneira precoce e dramática. Não desistiu da belíssima arte que é o ludopédio. Fazia corridas matinais ouvindo palestras, coletivas e entrevistas de Marcelo Bielsa em fitas gravadas. Estudou minuciosamente seu ídolo e começou a carreira imprimindo a volúpia de El Loco em modestas equipes argentinas e peruanas. Chamou a atenção da Universidad do Chile, e fez do time o melhor da América Latina em 2011 – apesar do título da Libertadores ter ficado com um Santos comandado por Neymar, a Universidad de Chile foi eleita a melhor equipe do continente.

Como Bielsa, Sampaoli tem aversão à mídia e ao espetáculo orquestrado em volta do jogo. Já proibiu jornalistas de entrarem nos treinos da La U, caçou fotógrafos curiosos e declarou ao jornal El Mercúrio no ano de sua consagração: Eu sou antissocial, não só com a imprensa, mas com todos. Me dói muito o comportamento humano da atualidade. O egoísmo, o individualismo exagerado. E os meios de comunicação necessitam polemizar. Não participo disso, não leio e nem escuto. Me excluo. Ao contrário de seu mestre, é próximo dos jogadores, não se sente mal em conversar com eles, responder dúvidas, aproximar-se profissionalmente o que, talvez, tenha ajudado nos sucessos recentes.

No Sevilla, a pressão sobre sua pouca altura será gigantesca. Chega como um técnico de grife para assumir um time pronto a dar o “próximo passo” em sua história. Herda o cargo de um Emery tricampeão europeu. Pega um elenco em processo de montagem, uma vez que perdeu seu equilíbrio com as saídas de Krychowiak e Banega. Se insere numa liga chamada “das estrelas” onde tudo é manchete e os holofotes, mesmo que a contragosto, se voltam ao clube andaluz. Encara as potências europeias Barcelona, Real e Atlético de Madrid em sua liga doméstica. Tem dois títulos a serem disputados nos primeiros dias da temporada – Supercopa da Espanha e da Europa.

Se as saídas preocupam, algumas contratações pontuais devem tranquilizar. Kranevitter, Joaquin Correa, Pablo Sarabia e, provavelmente, Paulo Henrique Ganso são demonstrações das pedidas cirúrgicas do treinador, especialista em melhorar os jogadores que comanda. Lembremos: Vargas, Aránguiz e Mena, fundamentais tanto na Sulamericana de 2011 quanto na Copa América de 2015, nunca jogaram tão bem e de maneira tão diversificada quanto sob a tutela de Sampaoli. Vidal e Valdívia tiveram seus predicados potencializados pelo treinador e fizeram suas melhores apresentações justamente na seleção nacional. Será a vez de Gameiro, Konoplyanka e Mariano tornarem-se protagonistas? Provável que sim, afinal, esta é uma das poucas certezas que a temporada de Sampaoli apresenta: as melhoras individuais num cenário muitíssimo específico criado pelo treinador. Prova disto é que fez questão de avaliar as instalações do clube antes de assinar contrato, em mais uma demonstração de semelhança e devoção para com seu mestre, que chegou a quebrar muros em Bilbao.

Gosta do jogo bonito, intenso, ofensivo. Exige que seus times pressionem a saída dos adversários o tempo todo, protagonizem as ações da partida, façam transições rápidas e fulminantes, sejam contundentes e inteligentes mesclando momentos de feroz verticalidade com boa manutenção da posse de bola, recuperando-a com rapidez, se necessário. Gosta de jogar no campo adversário, afastando de sua área as disputas. É tão intenso na prancheta quanto à beira do gramado.

Para além de seu mutante e mutável 3-4-3, Sampaoli deve render boas histórias na Espanha: já comandou time amador de cima duma árvore na Argentina; pulou os muros da La U para trabalhar num 1º de maio; ligou para jogador as 5 da manhã tentando explicar seus insights de insônia; pagou a própria multa para desvincular-se da seleção chilena. Já deu motivos de sobra para ficarmos atentos a seu gênio dentro e fora de campo.

Enfim, numa liga monopolizada por três times e num contexto europeu inflacionado, Sampaoli nos dá razões para suspirar com o Futebol.

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