CLUBE DA FÉ #82 – Pontos sobre a saída de Edgardo Bauza

Ontem, 1 de agosto, foi anunciado oficialmente pela AFA que Edgardo Bauza será o novo comandante da seleção argentina. Como conseqüência, deixará o São Paulo após oito meses de trabalho. Desde que se começou a história dele sair para seleção argentina fomos bombardeados de análises de todos os tipo e de todos os lugares. Vou tentar sintetizar alguns dos pontos mais relevantes sobre sua saída.

O trabalho de Bauza

O argentino chegou no começo do ano, com a reconstrução administrativa e financeira em andamento, um time em frangalhos pela última temporada, mas classificado para a Libertadores. Com contratações de custo baixo de transferência, chegaram alguns reforços. O time não engrenou logo de cara, mas foi passando de fase na Libertadores, culminando numa das partidas mais perfeitas que vimos do São Paulo nos últimos anos, contra o Toluca nas oitavas. De forma até que surpreendente, pelo que apresentamos no início da temporada, chegamos as semi-finais, mas a contusão de Ganso e a expulsão de Maicon na partida de ida foram determinantes para a eliminação. Apesar do aproveitamento baixo (45% dos pontos) Bauza conseguiu criar uma equipe mais aguerrida e organizada. Seu trabalho tendia a evoluir no segundo semestre para o ano que vem. Por isso, digo que foi uma boa passagem do argentino, uma vez que olhando o todo (resultados versus expectativa) conseguiu mais do que parecia ser possível. Hoje, temos uma perspectiva, o que nem Doriva nem Milton Cruz, para ficar nos dois últimos antes de Bauza, deixaram ao sair.

A saída foi traição? O clube ficou refém do argentino?

A opinião geral é de que sim. Porém, para não variar, vou contra a opinião geral. Temos que entender o processo de contratação da AFA bem como nos colocar no lugar de Bauza, afinal era a oportunidade (muitas vezes única) de comandar a seleção de seu país. No Brasil, Muricy rejeitou uma vez e nunca mais teve nova chance, lembram? O fato das declarações diferentes para jornalistas brasileiros e argentinos causam estranheza, mas será que é tão relevante assim? Ou não será que uma questão de proximidade pela nacionalidade que o faz ficar mais a vontade? E o fato de o contrato não prever multa, caso todo mundo quisesse a cabeça do treinador iriam ficar xingando o quanto se gasta com treinadores que não estão mais no clube.

Jogadores estrangeiros no elenco

Esse é o ponto que acho mais curioso. Somente pelo fato de um treinador estrangeiro sair, todo jogador não brasileiro do elenco vira culpa dele de estar lá. Mas vamos aos jogadores: Lugano chegou pela torcida, Mena já era radicado no Brasil pelas passagens no Santos e Cruzeiro, Centurion veio ano passado com o Muricy de treinador. Cueva é o típico meia-atacante destaque de uma Libertadores que todo mundo abre o olho por aqui, Buffarini foi alvo do São Paulo ainda com Osório. De todos, ficamos somente com o atacante Chavez para colocar uma culpa em Bauza. Mas, por muita influência dele, veio Calleri. E aí, vamos lembrar disso também?

Outro ponto nesse mesmo assunto. Nos últimos dez anos, vieram Reascos, Cañete, Clemente Rodriguez, Rondón, Saavedra para lembrar alguns, com treinadores brasileiros. Também vieram Paulo Miranda, Marlos, Reinaldo, Fernandinho, Cléber Santana, Léo Lima, Édson Silva. Ou seja, contrações boas e ruins independem da nacionalidade dos jogadores e dos treinadores.

Conclusão

Há dois anos, quando fiz um curso de filosofia, uma professora abordava a “miojização” da vida, dizendo que hoje procuramos resolver o mundo em 4 minutos. Em termos de análises de futebol, digo que estamos na era da “twitterização” dos comentários. Temos de ter uma resposta pronta, completa em 140 caracteres, não importa quão ampla possa ser a situação e a análise. É necessário um culpado rápido e uma solução saindo do microondas. Não é bem assim que as coisas funcionam. Bauza teve seus acertos e erros, deixa um legado importante que precisa ser continuado pelo próximo treinador e não pode fechar portas para novos treinadores estrangeiros. Hoje, nos fóruns tricolores, vários nomes dignos de álbum de figurinhas da Panini são colocados, como Luxemburgo, Dunga, Abel Braga entre outros. Esses treinadores não emplacam um bom trabalho há muito tempo, mas a opinião geral gosta mais de nome que qualidade, por isso esses são ventilados. O São Paulo precisa ter calma para escolher o perfil de treinador certo, que combina com os jogadores que lá estão no elenco, uma vez que não podemos contratar mais e estamos no meio da tabela do Brasileirão. Particularmente, gostaria de ver Bielsa, mas acho um sonho um tanto quanto impossível no momento. Vamos aguardar as próximas notícias.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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