Convocação de Tite é tudo, menos coerente

Texto: Matheus Santos

“Passaram-se longas 140 noites desde o ataque dele aos times da Premier League e seus gastos exorbitantes, das avassaladoras e sábias palavras referenciando a Odisseia do Internacional ao título do Mundial de Clubes de 2006, de toda a astúcia em detrimento dos saberes mais ocultos das quatro linhas, mas infelizmente, quando se imaginava que o seu ápice estava próximo ele sumiu do nada, ficou quieto e dormiu por toda uma “mid-season”, até que hoje finalmente após muito tempo na penumbra, ele decidiu acordar e voltar a ativa, o Deus da Corneta sussurrará a quem quiser ouvir, em nome de um esporte melhor, algumas breves verdades nesse texto que lhes será oferecido.”

(O parágrafo acima é uma breve brincadeira deste que vos escreve referente ao tempo de ausência sua e de suas cornetas no site. O conteúdo de fato do post, encontrasse abaixo.)

Enfim, vamos ao que realmente interessa, nos próximos parágrafos discorrerei sobre a convocação de Tite e todas as vertentes positivas e negativas que a mesma apresenta. Sem mais delongas, vamos lá:

Costuma-se dizer quando estudamos os termos “Coesão” e “Coerência” nas cadeiras de linguística do Curso de Letras, que coeso é tudo aquilo que possui uma ligação harmoniosa ajustando uma coisa com a outra para manter uma relação de significância podendo assim vir a dar certo ou não, enquanto o termo “coerente” nos remete ao encadeamento de ideias, que parte do pressuposto de não haver contradições em ações ou fatos.

A primeira convocação de Tite se mostra perfeitamente encaixável neste embate conceitual, ela é coesa, pois contempla muito bem o fato de possuir peças que teoricamente são encaixáveis, mas não coerente, já que o mesmo tratou inúmeras vezes de deixar claro que os melhores jogadores deveriam estar em sua primeira convocação para a Seleção Brasileira, coisa que parece quase uma unanimidade que não tenha acontecido.

Dos 23 jogadores convocados no último dia 22, muitos atuam em cenários pouco competitivos, outros não são nem destaques em seus clubes, formando assim um elenco composto por grandes pontos de interrogações, pois existe no mínimo um jogador em cada função que não fez por, ou não merecia estar lá.

Comecemos pelos goleiros onde Alisson, apesar de novo e de possuir uma má vontade gigantesca do eixo rio-sp, parece ser a opção mais certeira para a meta, enquanto Marcelo Grohe, ainda que venha sendo muito criticado no Rio Grande do Sul por sua fraqueza na bola aérea se faz aceitável, caso diferente do de Weverton que fazia uma temporada razoável apenas pelo Atlético Paranaense e de um dia para outro virou Herói Olímpico. É óbvio que o goleiro de cabelo engraçado é um bom arqueiro e que teve uma grande colaboração na conquista do ouro inédito, mas nem numa seleção composta por inúmeros jogadores sub-23 era unanimidade, afinal, Fernando Prass havia sido chamado para seu lugar inicialmente, coisa que refletiu muito dentro de campo, já que sempre foi dito por parte de todos que o mesmo não passava segurança alguma no gol. Muitos irão alegar, porém, que é mérito dele esta convocação devido ele ter pego o último pênalti na final olímpica, mas convenhamos, a meritocracia, seja ela em qual estancia for, não é uma coisa legal.

Não só isso, não seria difícil olharmos dentro do próprio cenário nacional para acharmos goleiros melhores do que ele para a convocação, como por exemplo, o próprio Cássio do Corinthians, ou Muralha do Flamengo, nunca se esquecendo, obviamente, daquele que para muitos deveria ser o titular desta seleção, falo de Diego Alves, possível novo goleiro do Barcelona e atualmente jogador do Valencia, da Espanha.

Na zaga, a convocação de Gil é inexplicável, já que além de estar atuando em um lugar aonde não existe futebol competitivo, o mesmo não era uma unanimidade a nível nacional nem mesmo quando atuava no Brasil, tendo Geromel (Grêmio), Gabriel Paulista (Arsenal) e Jemerson (Mônaco) como opções muito melhores e viáveis para jogarem que o mesmo. Rodrigo Caio é inconstante, será ele o do São Paulo? Ou o extremamente seguro da seleção olímpica? Veremos…

A lateral direita também é repleta de dúvidas, estaria Fagner em nível de titularidade? Daniel Alves deveria ainda estar lá? Porém, não entrarei em tal discussão, pois é uma posição carente em que qualquer jogador convocado para lá geraria muita controvérsia. Fato é que Wendell do Bayer Leverkusen vem atuando muito bem (nas duas) na Alemanha e merecia a oportunidade. DANIEL ALVES APRENDE A MARCAR, POR FAVOR.

Chegamos ao meio campo então, onde dos oito jogadores, minimamente metade deles não deveriam estar ali, Paulinho que não joga futebol há pelo menos três anos é uma ofensa que coloca em cheque a ideia de que os melhores devem estar na seleção brasileira, Giuliano, nunca foi querido nem no Grêmio, enquanto as convocações de Renato Augusto e Lucas Lima também se mostram de difícil entendimento, já que o primeiro atua em um nível ridículo (assim como Gil e Paulinho) e conseguiu se destacar apenas na final dos Jogos Olímpicos (POR QUE ELE ESTAVA LÁ MESMO?), enquanto Lucas Lima, apesar de ser o grande jogador que é, faz uma temporada medíocre pelo Santos.

A convocação de jogadores que atuam na China, inclusive, é um grande ponto a ser analisado, pois torna o Brasil a única seleção do MUNDO no top-50 do ranking da FIFA que possui mais de UM jogador que atua no país asiático. Enquanto somos, juntos da Argentina, o único país entre vinte primeiros do ranking com jogadores atuantes no campeonato chinês.

“Ah, mas o autor do post está louco, não temos opções melhores do que eles…” Errado! Temos sim! Allan ex Udinese e atualmente no Napoli está comendo a bola há pelo menos duas temporadas na Itália e faz o box-to-box tão carente no futebol brasileiro, Wallace, do Grêmio, fez uma Olimpíada impecável e é o grande destaque da equipe gaúcha junto de Luan, enquanto Lucas Moura vem sendo extremamente injustiçado convocação após convocação por não estar na lista. Ganso recém-transferido para o Sevilla também seria opção, assim como Luiz Gustavo que é o maior desarmador da Bundesliga nas últimas temporadas se mostrando apesar de não ser um crack de bola, um jogador no mínimo muito interessante para o elenco da seleção.

Por fim, chegamos ao ataque que é composto por dois jogadores imaturos, um grande devaneio e mais Neymar, única certeza do setor que não demanda de comentários.

Muitos dirão “Gabigol e Jesus são cracks”, mas não, não são e todos sabem disso. São grandes prospectos a crack, mas não estão prontos ainda, me parece bem visível, já que ambos fizeram uma Olimpíada não mais que mediana e recém agora estão conseguindo destaque no fraco campeonato brasileiro que não é lá um grande parâmetro.

Levar Jesus e Gabigol pode ser uma coisa maléfica tanto para a seleção quanto para ambos, já que existe uma expectativa muito grande sobre os dois, coisa que POR AGORA, eles não podem cumprir e que pode vir a refletir na evolução de ambos, afinal, quem não se lembra do estrelismo e do “não me toque” de Jesus ao início das Olimpíadas?

Não defendo que ambos não deveriam ter sido convocados, mas sim que ambos não deveriam ser convocados com a expectativa que se está sendo criada em cima deles, pois logo, talvez o “hype” não faça bem para os dois e gere uma má vontade da torcida com os jogadores, pois não está havendo um crescimento degrau a degrau dos mesmos dentro da seleção, mas sim um enquadramento de ambos quase como ídolos nacionais.

Enquanto isso Taison é um jogador que nunca confirmou e que está quase sem contrato com o Shakhtar, da Ucrânia, que se tivesse que ter alguém cedido para a seleção deveria ser o ex são paulino Marlos, que vem atuando muito bem lá fora, enquanto Luan, atacante do Grêmio e melhor jogador do time Olímpico do Brasil nas Olimpíadas nem é cogitado na principal, assim como Jonas, artilheiríssimo do Campeonato Português. Até mesmo o próprio Pato seria uma opção melhor que o ex jogador do Internacional, mas por ter sido chutado por este mesmo treinador alguns anos atrás do Corinthians, dificilmente ganhara novas chances com a amarelinha neste periodo.

Por agora, Tite deveria ter optado pelo básico, convocado os melhores para cada função olhando os jogadores brasileiros como um todo, mas não, seguiu a doutrina da monopolização do eixo rio-sp, tratando de carregar seus “bruxos” como diriam no sul, junto de si. Evidente que muitos desses jogadores citados não seriam titulares da seleção, mas, de fato, seriam melhores opções do que os que foram chamados analisando friamente o futebol dos últimos anos apresentado pelos mesmos.

É fato que o treinador gaúcho é um grande técnico e que ele deverá tratar de conseguir tirar o melhor de cada atleta seu, porém iludir-se com o baixíssimo nível dos jogos olímpicos para basear sua seleção nacional principal é um grande erro, assim como acreditar que apenas seus jogadores de confiança farão com que sua seleção consiga uma unção perfeita é uma grande falácia.

A seleção de Tite pode até ser coesa tratando de armazenar jogadores que podem vir a se encaixar e dar certo, pois o mesmo confia neles, mas por agora, seria um grande erro afirmar que a mesma faz sentido, pois ela é tudo, menos coerente.

Faço o adendo, por fim, de que não foram citados jogadores lesionados até o dia da escrita desta matéria.

__________________________________________________________________________________________________________________

O texto acima reflete a opinião do autor enquanto ser pensante e capaz de refletir por si só e opinar sobre os mais diversos assuntos, fazendo assim com que ele não represente a opinião do site como um todo.

%d blogueiros gostam disto: