De Bandeja – O tenebroso futuro do basquete nacional

Passada a ressaca olímpica, aos poucos voltamos às situações do dia a dia que os esportes convivem. Em meio a crise econômica brasileira, a análise geral é de que as modalidades que dependem mais de apoio governamental ficarão às mínguas nesse começo de novo ciclo olímpico até Tóquio, em 2020. E, podemos dizer, que alguns esportes perderam grandes chances de entrar no gosto popular e alavancar suas ligas com os Jogos. E nosso basquete está entre eles. Não só pelas eliminações precoces, tanto no masculino quanto no feminino, mas pela forma que foi conduzido esse ciclo e as decisões que estão na mãos dos péssimos gestores que temos na CBB.

O feminino foi um desastre por completo. Quase não conseguimos montar uma seleção, não tínhamos treinador até janeiro e, quando chamaram um, colocaram Antonio Carlos Barbosa, um dos sujeitos mais arcaicos na condução de um time que já vi. Nem prancheta para desenhar as jogadas nos pedidos de tempo utilizou nos Jogos Olímpicos. A Liga Brasileira Feminina, que recebe o nome do principal banco estatal federal, têm “incríveis” seis equipes participando. Poucas equipes, poucas opções para formar uma seleção. Por esse motivo, as esperanças de qualquer desempenho mediano caía sobre os ombros das experientes Iziane e Adrianinha, que nunca foram jogadoras de nível internacional contundente, mas eram as principais jogadoras do Brasil há tempos. O resultado não poderia ser diferente. Saímos da competição sem vitórias.

No masculino, a situação era um pouco melhor. Tínhamos uma geração de qualidade e estávamos com um treinador campeão olímpico no banco. Jogando em casa, a esperança era boa de conseguir um bom desempenho e quem sabe entrar entre os quatro melhores, fato que não ocorre sei lá desde quando com o basquete nacional. Oportunidade também de aproximar o basquete nacional com o público, colocar jogadores do calibre de Nenê, Leandrinho, Huertas em contado com a torcida e fazer crescer o interesse no esporte aqui no Brasil. Saiu tudo errado. Treinos fechados, poucas (nulas na verdade) ações de marketing promocional e derrotas (mesmo que por pequenos detalhes) para Lituânia, Croácia e Argentina decretaram a eliminação ainda na primeira fase. Nem a épica vitória sobre a Espanha apaga a dor da eliminação.

Após tudo isso, a CBB, sem dinheiro e com uma dívida que se aproxima dos 17 milhões de reais, segundo dados levantados pelo blog Bala na Cesta, e com eleição para presidência da entidade marcada para março do ano que vem, as seleções ficaram sem treinador. Ruben Magnano não teve seu contrato renovado e Antonio Carlos Barbosa agora será candidato ao cargo maior da entidade. Novos treinadores? A discussão será somente após a eleição. Isso mesmo que você leu, por quase seis meses não teremos treinadores nas seleções principais do país.

Não vou discutir as saídas. Embora Magnano tenha sido um dos principais responsáveis pela re-condução da seleção para os Jogos Olímpicos após 18 anos de ausência (Após 1996, ficamos de fora das edições de Sidney/2000, Atenas/2004 e Pequim/2008), os resultados nas grandes competições não foram lá essas coisas. Não é culpa total do argentino, mas ele tem sim sua parcela de responsabilidade. O que quero debater agora é esse futuro obscuro que vivemos. Com a oportunidade perdida de aproximação da modalidade com o público e a falta de dinheiro, na CBB e no país, deveremos ter anos muito duros daqui para frente. A NBB, que conduz os campeonatos nacionais masculinos, ainda deve sobreviver por um período, por ser uma liga independente e ter uma parceria bem montada com a NBA para gestão do esporte. Já na LBF, o futuro é aterrorizante. E, lembrando um detalhe: Os próximos Jogos Olímpicos serão disputados basicamente nas madrugadas brasileiras, ou seja, a visibilidade de modalidades que não estiverem minimamente estruturadas será quase nula por aqui.

Carlos Nunes, que fez uma administrações das mais horripilantes que já se viu nas confederações esportivas no Brasil, deixará o comando com uma dívida monstruosa e com um legado de participações em competições por convites pagos (ou não, como mostram os balanços) para a FIBA. Não temos nem um cheiro de programas de base decente, num país que em todo parque aberto há uma quadra com uma tabela de basquete (e os que frequente, sempre vejo pelo menos 10 pessoas praticando). E as opções que temos são tudo mais do mesmo. De um lado, teremos Antonio Carlos Barbosa, esse mesmo que citei, que não usa nem prancheta para desenhar jogadas, trabalha na base do “Vamos lá” e espera que alguma coisa aconteça. Do outro, Amarildo Rosa, politico de carteirinha que está a frente da federação paranaense de basquete. Sua competência na gestão do esporte explico em somente um dado: Não temos uma equipe sequer do estado na NBB (primeira divisão) ou LBF. Ou seja, mudaremos os nomes, mas continuaremos com o mesmo enredo. Acho que um pouco mais triste, por que, sem esse trabalho de base, temo que o basquete feminino, que há não muito tempo teve Hortência, Paula e Janeth, não chegará ao Japão. O masculino, que sofrerá com as aposentadorias da seleção de Nenê, Leandrinho, Varejão, Splitter e Huertas, corre grande risco também.

Infelizmente, para nós que gostamos muito desse esporte, que passamos horas e horas na frente da TV ou nos links de stream para acompanhar a NBA, temos o pouco que ver por aqui. E nos vemos com inveja dos nossos vizinhos hermanos. A festa que fizeram na Arena Carioca 1 no jogo da Argentina contra os EUA nas quartas de final, perdendo por 30 pontos e dando adeus à geração dourada de Atenas, foi de comover o mundo do basquete. E de causar vergonha por não conseguirmos repetir essa história aqui. Lógico que não espero que vençamos os EUA com seus principais jogadores da NBA. E também reconheço que o basquete na Europa, que tem diversas seleções das escolas soviéticas, tchecas e iugoslavas muito a frente do Brasil. Mas a Argentina já conseguiu entrar nesse grupo. A Austrália também. Por que não o Brasil? Potencial, temos. Falta um trabalho decente de fomentação do esporte. Algo que, infelizmente, não veremos tão cedo.

 

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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