De Bandeja – Marcel pode ser o novo treinador da seleção de basquete. Ou seja, a modalidade ruma ao fracasso, mais uma vez.

Depois de algumas notícias desanimadoras no basquete nacional, com o resultado pífio nos Jogos Olímpicos, a falta de perspectiva com a administração da CBB e a intervenção da FIBA na entidade que dirige a modalidade no Brasil (você pode ler mais sobre aqui, aqui e aqui), tentamos colocar um pouco de otimismo analisando o trabalho interessante em Franca bem como os jovens de talento que se destacaram na LDB (você também pode ler aqui). Porém, ontem pouco antes de dormir, estava ouvindo o programa Esporte e Debate da Rádio Bandeirantes de São Paulo quando, no encerramento, o apresentador Elia Junior solta a nota de que Marcel, ex-ala da seleção brasileira dos tempos de Oscar Schmidt, será o novo treinador da equipe masculina do Brasil. A informação ainda não é oficial, mas o jornalista garantiu por meio de suas fontes que isso está prestes a ser confirmado. Ou seja, contrariando o filósofo Tiririca, nada é tão ruim que não possa piorar.

Nossa, mas porque tanto pessimismo na escolha do treinador da seleção? Afinal, Marcel foi um importante jogador da história do basquete nacional. Como jogador, foi campeão mundial interclubes com o Sírio Libanês, de São Paulo, em 1979. No mesmo ano foi decisivo na conquista da medalha de bronze no Campeonato Mundial disputado nas Filipinas, fazendo a cesta decisiva, cruzando a quadra com menos de 3 segundos? E no jogo mais emblemático de sua geração, na final do Pan-Americano de 1987 em Indianápolis, anotou 31 pontos e 10 rebotes na final contra os EUA que tinham, entre outros nomes, David Robinson e Danny Manning? Será que essas credenciais não bastam para considerarmos Marcel uma boa aposta como treinador da seleção? Não. Justamente por estarmos falando de feitos que ele teve enquanto jogador.

Como treinador, a carreira de Marcel é insignificante. Poucos trabalhos em equipes relevantes. Forçando a barra, teve três anos em quem foi técnico do Pinheiros, da capital paulista, entre 98 e 2001. Forçando bem a barra mesmo, pois o Pinheiro só começou a ser relevante nessa década, com o vice-campeonato paulista em 2010 e o título estadual no ano seguinte, 10 anos após a passagem de Marcel por lá. Seu último trabalho como treinador foi em 2010 no “inesquecível” Barueri Basketball Club. Não encontrei nenhuma referência sobre essa equipe no Google. Se alguns dos amigos leitores dessa coluna encontrarem algo de relevante sobre esse ou outros trabalhos, podem me informar, terei o prazer de corrigir as informações.

Mas, qual o motivo de escolher Marcel então para técnico da seleção? A mesma razão que a CBF usou para levar Dunga para a seleção em 2006 e 2014: O discurso surrado de identificação e amor a camisa verde e amarela, usando uma personalidade forte com histórico de sucesso com a seleção para isso. Um discurso com não leva a lugar nenhum, como vimos no futebol, e que não eleva o esporte e a seleção. Os perfis são semelhantes. Pouca (ou nula, no caso da primeira passagem de Dunga) experiência como treinador e discursos populistas. Antes dos Jogos Olímpicos, Marcel chegou a dizer em entrevista que a geração atual tem como prioridade a NBA e não a seleção. Ora bolas, comparar uma carreira de sucesso na maior liga de basquete do mundo com eventos sazonais pela seleção do país não tem o menor cabimento. E vai fazer o que como treinador da seleção? Abrir mão de talentos como Raulzinho e Felício, para citar apenas os jovens que já fazem parte da seleção brasileira, e utilizar somente jogadores da NBB? Se for isso, não precisa nem entrar no pré-olímpico para Tóquio, ficamos em casa que é mais barato e ajuda a CBB a diminuir suas enormes dívidas com a FIBA, que motivaram a intervenção da entidade.

Outra pergunta que faço: Se era para trazer um nome com identificação com a seleção, por que não Guerrinha? Também fez parte da “geração Oscar” mas tem uma carreira como treinador bem mais relevante, sendo vice da NBB nas duas últimas edições com o Bauru e agora assumiu a equipe de Mogi das Cruzes. Ou, ficando em técnicos brasileiros, por que não José Neto, treinador do Flamengo e um dos auxiliares de Magnano durante a passagem do argentino pela seleção. O rubro-negro já conhece os jogadores e teria como dar continuidade ao trabalho iniciado. E, diferente do futebol, o basquete não necessita que o treinador seja exclusivo da seleção, uma vez que o calendário da bola laranja é bem menos complexo, sem NBB durante as competições de seleções. Claro que não dá para ter os jogadores da NBA em todo momento. Nossos vizinhos argentinos também não tiveram, e não temos como comparar o sucesso da seleção deles com a nossa nos últimos 15 anos.

Fato é que Marcel nada acrescentará a evolução da seleção brasileira. Nada contra a pessoa do Marcel, muito menos ao jogador que foi extraordinário. Mas não é o mais capacitado para comandar uma renovação de nomes e implantação de estilo de jogo para equipe nacional. Seu currículo como treinador mostra isso. Colocar ele apenas para um discurso populista, de resgatar o amor à camisa, de colocar a seleção brasileira como prioridade frente a carreira dos jogadores em clubes, que lhes dão a condição de viver do esporte, soa patético. Dessa maneira, a espera por mais uma participação em Jogos Olímpicos deixará de ser em Tóquio. E a retomada da relevância do basquete brasileiro no cenário mundial fica cada vez mais distante.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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