Arbitragem e Tecnologia: Como conciliar os dois no futebol

Mais um final de campeonato brasileiro em que se fala muito de arbitragem. Dirigente esbraveja daqui, torcedor reclama de lá e programas de debate nos rádios e TVs gastam mais da metade de seu tempo vendo e revendo lances, em câmera lenta, procurando as polêmicas que alimentam as discussões e, óbvio, a audiência. E na hora de apontar a solução, a quase unanimidade coloca a implantação da tecnologia como a resolução de todos os problemas. E um esporte é sempre citado para isso: O Futebol Americano. Não sou contra o uso da tecnologia, pelo contrário. Mas há detalhes que precisam ser analisados antes de dar uma resposta simples, que cabe em 140 caracteres e ganha cliques. E vou utilizar essa modalidade, que tenho boa familiaridade, para explanar as diferenças e desafios que o futebol tem para conciliar esses dois pontos.

A principal sugestão dada por muitos é o desafio às marcações de campo. Em um lance de impedimento, por exemplo, o técnico ou o capitação da equipe, por algum meio de comunicação, desafiaria a marcação do árbitro e do auxiliar para uma revisão com auxílio da imagem da TV. Esta aí o primeiro ponto que vejo como problema para esse tipo de situação. Na NFL (principal liga dos EUA de futebol americano) o treinador tem uma bandeira vermelha que ele lança ao campo para desafiar a marcação de campo. Porém, ele somente pode fazer isso entre o término de uma jogada e outra, que dura, normalmente de 15 à 40 segundos, pelo menos. O futebol tem uma dinâmica diferente, pois não há essa pausa, essa paralisação, para que tenha-se o desafio. Um lance de impedimento, por exemplo, pode terminar em gol, penalti, contra-ataque e muita coisa acontece.

Outro ponto sobre isso. Durante esse intervalo de tempo na NFL, o técnico principal está conversando com um auxiliar seu que teve a imagem da TV para dizer que há, pelo menos, indícios que a marcação tenha sido incorreta. No futebol, ainda não existe nos clubes essa posição, de um auxiliar que está equipado para isso e analisar. O técnico de campo normalmente não tem uma posição privilegiada para ver esse tipo de lance, pela posição da área técnica (está só em uma metade do campo de jogo e, se for em São Januário, atrás do gol, o deixando a visão pior ainda). O capitão da equipe também não tem uma visão que lhe dê completa certeza em um lance de impedimento. Não foram raros os casos que vimos um goleiro, por exemplo, reclamar acintosamente sobre um impedimento em um gol sofrido e não ter reparado que fora de seu campo de visão tinha um zagueiro dando condição.

Citei o impedimento, mas os exemplos acima também servem para faltas, pênaltis e outras jogadas. A visão de campo e a dinâmica do esporte precisam ser muito bem pensadas para essa conciliação. Outro ponto importante é que muitos pensam que a tecnologia tinha que ser implantada em todas os tipos de jogada e em todos os casos. Olhando novamente para a NFL, vamos entender que a evolução do uso da tecnologia foi feita aos poucos, analisando a aplicação do recurso e as melhorias que podem ser feitas pouco a pouco. Inicialmente, havia somente o treinador poderia pedir revisões, condicionadas seus acertos à pedidos de tempo técnico. Após um tempo colocaram revisão automática em todos os lances de pontuação e troca de posse de bola, sem necessidade dos técnicos desafiarem as marcações de campo. Hoje ainda se debate a possibilidade de treinadores questionarem as faltas marcadas em campo pelos árbitros.

O primeiro passo para a implantação da tecnologia para auxiliar a arbitragem foi dado, com a implantação de chips que verificam se a bola ultrapassou totalmente a linha de fundo em casos de gol. Casos como os ocorridos nos jogos entre Inglaterra e Alemanha nas Copas de 1966 e 2010 devem ser eliminados com isso. Em grandes eventos, o recurso já é aplicado. Porém a questão financeira precisa ser equacionada para que seja possível implantar em qualquer competição. Nesse mesmo modelo, por que não pensar (e digo isso bem numa maneira hipotética mesmo) na implantação de um sistema de GPS, na bola e nos jogadores, para análise do impedimento? Tendo eletronicamente a posição de campo deles, a análise do impedimento seria muito mais precisa e não impactaria na dinâmica do esporte.

Enfim, o debate é válido e demorou para acontecer. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, já se mostrou aberto a essa discussão e já liberou alguns países, o Brasil entre eles, a utilizar o vídeo de maneira experimental. Mas esse debate e estudo tem que ser profundo. Não pode ser simplesmente “É só implantar a tecnologia”, sem dizer como, quanto irá custar e quem pagará a conta da estruturação do certame. Situações complexas precisam de soluções bem pensadas, analisadas e estudadas para não descaracterizar o esporte mais acompanhado do planeta. E, lembrar, que não precisa resolver todos os problemas numa tacada só. Poderiam aqui no Brasil começar simplesmente pela profissionalização da arbitragem. Já seria um belo ganho para a qualidade do serviço prestado pelos árbitros e auxiliares.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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