“Não é só futebol”

Detesto frases feitas e bonitinhas. As pessoas que me conhecem de perto sabem que não sou muito afeito ao politicamente correto e aos modismos. Entre essas coisas, nunca criei grande afeição pelo clichê da utilização da frase título desse post acompanhada regularmente de uma imagem de um torcedor que luta uma batalha maior na vida, como uma doença ou uma necessidade especial. Ao longo principalmente dos últimos 10 anos, minha paixão pelo futebol foi diminuindo consideravelmente, por uma série de motivos. O ápice talvez tenha sido em 2010, última vez que compareci a uma arquibancada do Morumbi para ver um jogo e quando cheguei ao carro para voltar para casa ele estava depredado. Não tenho mais PFC há um bom tempo nem sinto vontade de assistir pela TV jogos que não forem do meu time, a ponto de não querer participar da votação feita aqui no HTE Sports dos melhores do Campeonato Brasileiro desse ano.

A violência das torcidas, o egoísmo dos clubes e os casos cada vez mais escabrosos de todos os que estão na gestão do esporte me trouxeram isso. Todas essas coisas mostravam o pior lado do futebol e da paixão pelo esporte. Mas ontem, em meio a tragédia com a equipe da Chapecoense, em meio a comoção que tomou parte da nossa redação, do mundo da bola e de pessoas que não tem a ver com o esporte, pude novamente enxergar as raízes da esportividade, que são a fraternidade, solidariedade e humanidade.

Nas primeiras horas da manhã, todos os clubes do Brasil já haviam trocado suas fotos de perfis nas redes sociais pela imagem de luto à Chapecoense. Aos poucos, os próprios clubes deram outros sinais de tudo isso que citei com iniciativas honrosas, como sugerir jogar com a camisa da Chapecoense na última rodada do campeonato nacional e demais auxílios propagados a instituição. Mas a história da equipe do interior de Santa Catarina ganharia o mundo, com as manifestações de diversos clubes da Europa e com a ação gigantesca do Atlético Nacional, time com quem duelaria pela conquista da Sul-Americana, que solicitou em nota oficial à Conmebol que as premiações e o título sejam dados à equipe de Chapecó.

A comoção não parou no mundo da bola redonda. Aos poucos, clubes da NFL e NBA (esportes que mais acompanho e por isso estou citando) além dos atletas começaram a mostrar sua solidariedade, que transcedeu as barreiras do país, do esporte e da cultura, com gestos que vieram também de artistas internacionais.

O futebol mostrou que “não é apenas futebol” e que pode ser muito mais. Pode ser uma ferramenta que mostra ao mundo as virtudes mais nobres que um ser humano pode ter. Que a paixão que os jovens nutrem por esse esporte não é apenas uma brincadeira, uma infantilidade, como muitos da minha faixa etária para cima (e eu, pelos motivos já citados acima, entre eles). O esporte pode ser solidário, altruísta, humano. Não precisa ser somente um jogo.

É difícil olhar para a tragédia de ontem e não se comover. Queremos muito entender o que aconteceu. Queríamos muito ter acordado hoje e ver que o dia de ontem não passou de um pesadelo ou uma piada. Mas ontem, diante da comoção generalizada, brilhou de novo a a luz da esperança na humanidade. Talvez todas as iniciativas, todas as demonstrações tenham sido apenas pelo choque da notícia e que daqui há seis meses voltemos a realidade que se apresentava antes. Talvez a frase título do post volte a não fazer sentido. Mas, sinceramente, torço para que não. Torço que a paixão pelo futebol que vejo na “mulekada” consiga fazer que ações que ocorreram mundialmente ontem em pról da Chapecoense não seja apenas em momentos de tragédia e comoção, e sim que elas sejam o norte, o ideal de se viver para o esporte.

Dedico esse texto especialmente aos meus amigos Heider Mota, Thiago Cunha e Elvis Fernando, o trio HTE, que são os jovens, a mulekada, que citei bastante nas simples linhas que escrevi aqui. São de pessoas como vocês que o futebol precisa. E que, quando a comoção passar, as virtudes que vimos permaneça em todos nós.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

%d blogueiros gostam disto: