As flechadas do Índio

Antes de qualquer coisa eu gostaria de agradecer ao HTE Sports pela oportunidade de discorrer sobre a Chapecoense após o ocorrido, ter a chance de falar sobre uma história tão vencedora que passa por um capítulo obscuro e triste, mas que com toda certeza será superado – apesar de nunca esquecido – e esse clube tão amado pelo Brasil e agora pelo mundo alcançará glórias imensas.

O clube fundado em 1973 alcançou o seu primeiro título estadual 4 anos depois. Sempre brigando com os times de seu estado (Criciúma, Avaí, Figueirense e Joinville) e chegou em 10 finais do Campeonato Catarinense, levando o troféu em 5 oportunidades. O time era um dos coadjuvantes em Santa Catarina, até 2005 quando empresários locais decidiram abraçar o clube que estava a beira da falência e ali se inicia uma das trajetórias mais lindas do futebol nacional.

O vice-campeonato catarinense em 2009 garantiu uma vaga na Série D daquele ano onde bateu times do país inteiro e assegurou a vaga na Série C de 2010. Em 2011 com Aloísio (O Boi Bandido) e Douglas Grolli (atualmente no Corinthians) conquistaram o campeonato catarinense de 2011. A série C foi o lar do nosso Índio até 2012.

Passando pelo Luverdense e garantindo a vaga na Série B em 2013, a cidade de Chapecó comemorava o feito como se fosse um título nacional, mas o futuro reservava algo muito além do que um time que viveria de acessos e descensos nas divisões mais baixas do país.

Uma campanha impecável na Série B em 2013 viria junto da quitação das dívidas que foram parcelada em 2005, um ano memorável (e quais anos não são memoráveis na história desse clube?) e a Chapecoense pela primeira vez em sua vida disputaria a divisão de elite do Brasil, o time poderia gritar aos quatro cantos do mundo que era um dos 20 melhores times brasileiros.

Em 2014, até mesmo os menos aficionados por futebol conheceria a Chapecoense, o time tinha como missão se manter na Série A para o ano seguinte, 11 vitórias e 10 empates garantiram que a meta fosse alcançada, o time terminaria o campeonato em 15°. Uma das vitórias jamais será esquecida. 5-0 sobre o Internacional na Arena Condá. HISTÓRICO!

Chapecoense 5x0 Internacional (Série A de 2014)
Chapecoense 5×0 Internacional (Série A de 2014)

Ano passado a maioria de nós já estávamos rendidos a Chapecoense, o clube mais carismático do Brasil, o estoque de flecha parecia inesgotável, quando alcançava um objetivo, automaticamente iriam buscar outro. 2015 foi o ano que a América conheceu a Chapecoense, após ser eliminada na Copa do Brasil o time ganhou o direito de disputar a Sulamericana, o primeiro adversário foi a Ponte Preta, abatida com 3 flechadas certeiras novamente na Arena Condá. O Libertad do Paraguai teve a honra de ser o primeiro confronto internacional da Chapecoense e o meia Camilo estará sempre na história como o autor do primeiro gol internacional da equipe. A classificação veio nos pênaltis e o próximo adversário era nada menos que o River Plate.

55 mil torcedores do River terão o prazer de dizer aos seus filhos e netos que viram a Chapecoense jogar, O Monumental de Nuñez lotado viu a Chapecoense sucumbir ao atual campeão da Libertadores por 3-1. A volta na Arena da Condá apesar da eliminação foi mais um marco na história. O índio com mais flechadas com a camisa da Chapecoense, Bruno Rangel, marcou duas vezes mas infelizmente o gol de Sanchez eliminou o Verdão.

Chapecoense 2x1 River Plate - Sulamericana 2015
Chapecoense 2×1 River Plate – Sulamericana 2015

O que aconteceu esse ano eu não preciso e nem quero ter que descrever a vocês, mais uma campanha histórica, com mais um ano garantido na Série A e novamente na Sulamericana o time encontrou um time argentino, mas como disse o saudoso Deva Pascovicci, o espírito da Condá estava com Danilo e uma defesa no último lance garantiu uma vaga na final do torneio. Uma passagem só de ida para a Colômbia, talvez o peso dos sonhos dos jogadores levou o avião ao chão. O mundo conheceu a Chapecoense, mas da pior forma possível, uma tragédia que assolou o futebol, 77 pessoas mortas, jornalistas, comissários de bordo, comissão técnica e os responsáveis por criar esse sonho e mostrar que seria possível, os jogadores.

Sabe, eu ainda não consigo acreditar que Bruno Rangel, Ananias, Danilo, Kempes e todos esses caras se foram, jogadores de futebol que nunca passaram pelo meu time, mas era tão próximo quanto um familiar meu. Escalar o Bruno Rangel no Cartola, tirar sarro do amigo palmeirense com o “Ananias Park”, querer que o clube contratasse o Danilo, o Thiego, o Tiaguinho, assistir a classe de um jogador de meia idade do Cléber Santana. Infelizmente nunca mais teremos a oportunidades de ouvir um “prepare-se” do Deva, de comemorar os gols do Kempes contra os outros clubes, só pelo prazer de ver a Chapecoense ganhar. Mas o índio, o NOSSO índio só depende de nós para sobreviver, vamos abraçar a Chapecoense com a mesma paixão que abraçamos o nosso clube, não deixaremos que os jogadores que levaram o sonho da bagagem tenham morrido em vão. VAMO VAMO CHAPE!

Dedico esse texto ao Lorenzo, filho do goleiro Danilo, que um dia saberá da importância que o seu pai teve para a Chapecoense e para o futebol brasileiro.

Renan Thierre

Antigamente comia areia e catarro, futuramente um professor de História, atualmente editor no HTE Sports e finge que entende de futebol e outros esportes.

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