Exalte o novo, mas compreenda-se a história

Não há nada mais legal aqui no HTE que uma boa discussão na redação. Ânimos exaltados, opiniões divergentes assim como modos de ver os fatos e a história. Somos um grupo formado na sua maioria por pessoas bem jovens. Creio que somente três de nós, eu entre eles, passaram da casa dos 30 anos. E, como todo grupo jovem, o encantamento com a realidade e a desconexão com a história se faz presente. E, se tem um cara aqui no HTE que tenho o prazer de discordar, é o Thiago Cunha Martins, o moço de Itobi, como diria o grande Fiori Gigliotti (que talvez ele, no alto dos seus 20 e poucos anos, não tenha conhecido).

Recentemente esse grande amigo que tenho aqui, e um dos líderes do site, no HTE escreveu um texto bem interessante sobre a aversão ao novo. Uma visão de alguém como muitos que comentam nas redes sociais sempre que surgem questões como “Quem foi melhor, Messi ou Pelé”, “LeBron James ou Michael Jordan”, “Tom Brady ou Joe Montana” e por aí vai… O texto dele você confere aqui, mas na redação ele foi ainda mais categórico, afirmando que, na visão dele (e vou abrir aspas) “Pelé não é nem top 5 da história do futebol. Talvez nem top 10”.

Não vou fazer aqui nenhum texto saudosista, até porque tenho “apenas” 33 anos e não tive condições de ver Pelé jogar e ter, portanto, qualquer relação mais emocional com os feitos do considerado Rei do Futebol. Nem ser um “box scorer”, ou seja, um numerólogo que vomita estatísticas, títulos e afins para contrapor a afirmação dele. E, para falar a verdade, não gosto muito de ficar fazendo listas de melhores da história e criando rankings para isso. Qualquer lista desse tipo é extremamente subjetiva e muitas vezes quem as realiza, valoriza um argumento qualquer em detrimento de outro para fazer valer sua posição.

Números são frios e a emoção vai da pessoa que conta. Épocas são diferentes e condições físicas e financeiras influenciam muito nos contextos históricos. Mas a construção da história de um atleta na sua época é atemporal. O que quero dizer com isso. Imagine você um jogador de futebol com 17 anos que chega numa Copa do Mundo já encantando muita gente, mas ainda não é considerado o principal protagonista de uma seleção que busca seu primeiro título na competição. Após dois jogos meio ruins da seleção, o treinador dá o braço a torcer para a crítica e coloca o garoto em campo. Nas quartas-de-final, jogo duro, parelho. O moloque dá um chapéu dentro da área e pega de primeira para fazer um golaço e vencer o confronto por 1×0. Chegando na final, contra os donos da casa, sua seleção sai atrás do marcador. Ele, centroavante, vai até o fundo da rede pega a bola, coloca debaixo do braço e fala para os companheiros “fiquem calmos, nós vamos virar”. Lembrando, esse moleque tem apenas 17 anos. Sua seleção vira, contando com dois gols dele, um que novamente aplica um chapéu dentro da área e marca um dos gols mais bonitos da história das Copas. Essa foi a primeira Copa de Pelé. Não observem somente números e títulos, mas como a história foi construída. Ah, mas o futebol daquela época era diferente. Mas, postura desse tipo, ser decisivo com tamanha categoria, independe de época.

Para não ficar só no futebol o exemplo, vou dar um no basquete. Final da NBA, jogo 6 da melhor de 7 jogos, na casa do adversário. O grande jogador da franquia está fora por lesão. O novato da equipe, que joga na posição de armador (normalmente os mais baixos de um time de basquete), começa o confronto na posição de pivô (regularmente os mais altos de uma equipe). Ao longo do jogo, passeia pelas cinco posições comando sua equipe em um jogo contra uma grande equipe que tinha uma e lenda do esporte do outro lado. Termina o jogo com 42 pontos, 15 rebotes e 7 assistências. Segue com carreira gloriosa. Essa final ocorreu em 1980. O novato em questão era Magic Johnson, que não teria Abdul-Jabbar nesse jogo como companheiro para enfrentar os 76ers de Julius Erving, o Doctor J. Como alguém pode dizer que Stephen Curry está na frente da história da Magic? Ou mesmo Lebron James?

Como disse, não basta olharmos números ou a emoção saudosista de quem viu. Não vi Pelé e vi pouquíssimo de Magic Johnson, basicamente o final de sua carreira já no Dream Team 92 e na volta em 96. Mas colocar os de hoje pelos feitos e adicionar o ingrediente “o esporte é diferente de anos atrás” é não compreender a história, não enxergar como ela foi escrita. Não estou dizendo que Messi, CR7, LeBron James, Stepnhen Curry são ruins ou não estão ou podem estar nos melhores da história. Nem vou colocar em rankings ou listas do tipo. Mas simplesmente dizer que o futebol de hoje é melhor e por isso qualquer jogador de hoje pode ser melhor que lendas do passado é não querer enxergar o todo. É não enxergar onde e como as coisas aconteciam. E não dar o devido crédito aos meios que a história foi escrita. Podemos muito bem exaltar o presente sem diminuir o passado. Mas, sempre que forem pensar em qualquer tipo de ranking, é preciso entender também como e onde a história foi construída. Faz parte não só do conhecimento dos fatos, mas da compreensão dos mesmos. Conhecer, entender e compreender são coisas diferentes.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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