Saudosismo FC – O efeito Romário

Nas conversas da redação do HTE um dos jogadores mais citados quando os debates acalorados são sobre os maiores jogadores de todos os tempos é o de Romário. Em via de regra, os mais velhos, que já passaram da casa dos 30 anos, consideram o baixinho pelo menos no top 5. Já os mais novos (com exceção aos vascaínos), na maioria das vezes, não conseguem entender o motivo dessa “idolatria”. Afinal, Romário consagrou-se sendo um monstro da grande área, sem habilidades malabaritas que foi vista em Ronaldinho Gaúcho, por exemplo. Nessa edição da nossa coluna Saudosismo FC tentarei mostrar um pouco da importância de Romário na virada do futebol brasileiro nos anos 90.

E para entender isso, precisamos olhar um pouco para o contesto histórico do futebol nacional antes da Copa de 1994, disputada nos Estados Unidos. Nas duas Copas dos anos 80, comandada por Telê Santana e com uma geração com Zico, Sócrátes, Falcão entre outros craques, a seleção brasileira ficou pelo caminho. O “futebol bonito”, orgulho brasileiro, começava a ser contestado pela grande mídia. Podemos dizer que o Brasil começava a viver sua primeira crise de identidade no futebol, olhando para a Europa como modelo. Para Copa de 90, na Itália, Lazaroni colocava a seleção pela primeira vez com três zagueiros. Sem entender como isso deveria funcionar, principalmente a questão do líbero, o Brasil fez uma participação horrenda, com jogos pífios na primeira fase contra Escócia, Costa Rica e Suécia, sendo eliminada prontamente nas oitavas de final pela Argentina.

Ricardo Teixeira, presidente da CBF na época, faz sua primeira invenção, colocando Falcão como treinador da seleção brasileira após a Copa. O ex-volante estreia tomando sonoros 3 a 0 da seleção da Espanha e não consegue montar uma seleção convincente. Dura pouco tempo no cargo e, no final de 1991, Carlos Alberto Parreira assume o comando da seleção tendo como seu coordenador/auxiliar técnico o último treinador campeão mundial pelo Brasil até então, Mario Jorge Lobo Zagallo. Na mesma época, o São Paulo de Telê Santana encantava a mídia, com um futebol ofensivo, dinâmico e de qualidade. Raí, Müller & cia venceriam a Libertadores de 92 e 93, o mundial interclubes dos mesmos anos contra Barcelona e Milan, além de uma série de excursões em gramados europeus em que goleava times do porte de Real Madrid e Barcelona no velho continente. E Parreira implantava o ortodoxo 4-4-2 na seleção, estático e de pouca movimentação.

Também na época o baixinho brilhava nas terras europeias, quebrando recordes de gols no PSV e sendo primordial no Barcelona. Mas tinha poucas chances com Parreira. Num amistoso contra a Alemanha, em 92, reclamou de ficar no banco e não foi mais convocado pelo treinador. Chegaram as Eliminatórias em 1993, e Parreira insistia na mesma formação com um ataque que não engrenava com Müller, Careca, Bebeto e outros jogadores testados. Em um amistoso contra o México, na preparação para o qualificatório, um empate em 0x0 e o técnico solta a célebre frase de que “o gol é apenas um detalhe”. A primeira derrota brasileira em Eliminatórias ocorre logo na estréia contra a Bolívia, em La Paz. Contra o Equador, no Morumbi, vaias estrondosas mesmo com a vitória por 2×0. A campanha segue protocolar, com vitórias em casa sobre seleções mais fracas e empates fora contra seleções mais organizadas.

Ao mesmo tempo, a Colômbia massacrava, nas mesmas eliminatórias, a Argentina em Buenos Aires com um sonoro 5×0. A última rodada chega para o Brasil, jogo contra o Uruguai, no Maracanã e a equipe canarinho poderia empatar. A mídia, que adora uma tragédia, colocava o jogo como a reedição do Maracanazzo, quando, praticamente nas mesmas condições, a seleção perdeu de virada para o Uruguai na Copa de 1950. Com a lesão de Müller, Parreira precisava de mais um atacante. E, atendendo os apelos da mídia e da torcida (e uma possível imposição de Ricardo Teixeira), engoliu o orgulho e chamou Romário. Quebrou suas regras, e colocou o baixinho já como titular, que não decepcionou. Dois gols, um de cabeça e um driblando o goleiro e classificação para a Copa.

E na Copa foi monstro. Até a final, só não marcou gol nas oitavas, quando, em jogada individual, deu um passe preciso para Bebeto anotar o gol da vitória contra os donos da casa, jogo em que o Brasil jogou com um a menos. Fora de campo, era um dos líderes. “Se tiver pênaltis, seremos nós, que temos mais tempo de seleção, que iremos cobrar”, dizia aos jornalistas na época, em referência aos cobradores de pênaltis da Copa de 1986, no jogo contra a França que eliminou o Brasil na ocasião. Dito e feito. Decisão de pênaltis na final contra a Itália e o baixinho guardou o dele. O Brasil recuperava o orgulho do seu futebol, conquistava seu primeiro mundial pós-Pelé. E seria nos próximos anos a principal seleção do mundo novamente, temida por muitos.

Agora vamos fazer um exercício de imaginação. Sabendo que Parreira era teimoso, imaginemos uma situação que não houvesse a necessidade de uma convocação às pressas contra o Uruguai e que, por vitórias magras ou um empate que seja, o Brasil chegasse a Copa como chegou. Nesse cenário, certamente, não teríamos Romário na Copa dos EUA. E vimos como Parreira desperdiçou talentos de jogadores que poderiam render mais naquela seleção, como Raí, Müller, Cafú, Zinho e etc. Será que venceríamos sem o baixinho? Será que Bebeto seria tão decisivo como foi também naquele mundial?

O efeito Romário no futebol brasileiro é enorme. Dobrando os treinadores teimosos, sendo decisivo em momentos cruciais (Além do jogo contra o Uruguai, o gol de cabeça no meio dos zagueiros grandalhões da Suécia na semi-final foi outro ponto-chave) foi preponderante para que o futebol brasileiro pudesse retomar seu caminho. Foi essencial para que Ronaldo tivesse evolução dentro da seleção nos anos seguintes a Copa do Mundo. E tenho convicção que se estivesse em 98, diminuindo a pressão sobre Ronaldo e dividindo o protagonismo naquele ano, poderíamos ter sido campeões na França (apesar que, vale lembrar, aquela seleção tinha Junior Baiano na zaga!).

Por isso, quando os mais velhos acabam falando de Romário como um dos melhores jogadores da história do futebol brasileiro não é apenas saudosismo. E também não é por simplesmente comparar qualidade técnica de um jogador com outro. É dando o devido valor a importância história do mestre da grande área para o que se seguiu no futebol brasileiro. É entendendo o momento que se vivia na época e o que se pode viver depois das façanhas do camisa 11.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

%d blogueiros gostam disto: