Brazuca FC – A quase América Azul

De tempos em tempos o esporte em geral, e não seria diferente no futebol, nos traz uma equipe não usual que surpreende e alcança níveis reservados somente aos grandes. Na Europa, vimos na última temporada a saga do Leicester que conquistou a Premier League. No começo desse século tivemos aqui no Brasil o simpático São Caetano, que por muito pouco não conquistou um título que muitos grandes times brasileiros ainda não tinham (e outros ainda não tem).

Fundado em 1989, a equipe do ABC Paulista cresceu no cenário nacional no ano de 2000. O extinto Clube dos 13 resolve administrar o campeonato brasileiro (com anuência da CBF) e promove uma das viradas de mesa mais vexatórias da história do futebol nacional, fazendo com que o Fluminense, que jogou a série C em 1999, jogasse diretamente a primeira divisão. E ainda, promoveria ao final de uma primeira fase, confrontos entre os times de primeira, segunda e terceira divisão para determinar o campeão brasileiro. E o São Caetano, que estava na terceira, surpreendeu o Brasil no mata-mata, chegando a final da competição contra o Vasco. E podemos dizer que, talvez, só não foi campeão por conta do fatídico acidente em São Januário no dia da decisão daquele ano. Partida remarcada e vice-campeonato brasileiro para o pequeno São Caetano.

No ano seguinte, o campeonato nacional voltaria para as mãos da CBF e, sem jeito, o São Caetano também estaria na primeira divisão nacional. Com a primeira fase inteira sendo disputada entre os grandes do Brasil, era natural que o Azulão não tivesse o mesmo sucesso, correto? Muito errado. Novamente com elenco de jogadores brigadores, como Magrão, Claudecir, Adãozinho, Sílvio Luiz entre outros, o São Caetano fez bonito e chegou a mais uma decisão de campeonato brasileiro, desta vez contra o Atlético Paranaense. Mas, novamente, ficou no quase.

Em 2002, com os estaduais sendo disputados somente por equipes menores, fez parte do torneio Rio-SP (uma das tentativas de acabar com os torneios estaduais no Brasil). Chegou as semi-finais, sendo eliminado pelo Corinthians, mas voltava suas forças para a disputa da Libertadores da América. Nesse ano, teve em seu grupo equipes tradicionais do torneio, como Cerro Porteño, Cobreloa e Alianza Lima, mas não temeu e fez bonito. 4 vitórias e duas derrotas na primeira fase, sendo duas vitórias fora de casa, terminando com a quarta melhor campanha geral da primeira fase. Flamengo e Atlético-PR caíram logo na primeira fase, restando somente o Azulão e o Grêmio entre os times brasileiros na sequência do torneio.

E os times tracionais continuaram no caminho do Azulão. Nas oitavas-de-final, foi a vez de enfrentar o Unversidad Católica. Dois empates por 1×1 e classificação garantida nas cobranças de pênaltis. Nas quartas, novamente adversário tradicional, o Peñarol, e novamente pênaltis após vitória por 1×0 em São Caetano e derrota por 2×1 no Uruguai. E novamente saíram vitoriosos. Partiram para a semi-final contra a melhor equipe da primeira fase, o América do México. Vitória de 2 x 0 em casa e empate de 1 x 1 em terras mexicanas colocavam o São Caetano em uma inimaginável final de Libertadores, para um time que tinha pouco menos de 15 anos de existência.

E, somente para variar um pouco, mais uma vez teria um time tradicional, o Olímpia do Paraguai, que já havia conquistado a competição em duas oportunidades. Na Europa, o Real Madrid dos galáticos Zidane, Figo, Roberto Carlos e que teriam Ronaldo após a Copa do Mundo venciam a Champions League e aqui no Brasil já imaginávamos o confronto surreal com o São Caetano no Mundial do fim do ano no Japão. E o primeiro jogo, no Paraguai, serviu para aumentar o otimismo. Vitória por 1 x 0 em um Defensores del Chaco completamente lotado e a decisão no Pacaembú na semana seguinte, esperando um grande público com a união de todas as torcidas dos grandes de São Paulo em prol do pequeno gigante Azulão.

O time foi a campo com Sílvio Luiz no gol, Russo, Daniel, Dininho e Rubens Cardoso na defesa, Marcos Sena (aquele mesmo que jogou pela seleção da Espanha posteriormente), Adãozinho, Aílton e Robert no meio e o ataque formado por Anaílson e Somália. Todos sob o comando de Jair Picerni. Do lado do Olímpia, nomes conhecidos como o goleiro Tavarelli e o meio-campista Orteman. E na primeira etapa, a torcida no Pacaembú explodiu com o gol de Aílton, aos 32 minutos. Cenário perfeito para a conquista do título. Mas faltou nesse jogo aquela famosa malícia para o Azulão. Faltou matar o jogo e correr para o abraço. Em um lance bobo, Russo se desentendeu com Benitez depois de uma falta dura do paraguaio. Confusão em campo, amarelos para os dois e o juiz Oscar Ruiz expulsa o treinador Jair Picerni do banco. O segundo tempo começou e logo aos 4 minutos, Orteman fez um bonito gol para empatar o jogo. 10 minutos depois, o empate veio, novamente com Orteman subindo junto com Baez sozinho no meio da zaga e complementando para o gol da virada. Sem conseguir reação, o jogo foi para os pênaltis com o moral totalmente voltado para os paraguaios. Marlon (que entrou no lugar de Anaílson durante o jogo) e Serginho (que substituiu Robert) perderam suas cobranças. O Olímpia foi perfeito nas cobranças e o São Caetano amargou o terceiro vice-campeonato consecutivo.

A equipe continuaria mais uns bons anos na elite do futebol paulista e brasileiro. Em 2004, com direito a um 4 x 1 e show de Douglas no Morumbi contra o São Paulo nas quartas de final, chegou a sua maior conquista, levantando o título do Campeonato Paulista. Mas em 2006 viria a derrocada da equipe, quando, no mesmo Morumbi, Serginho caiu em campo, sofrendo um ataque cardíaco, falecendo pouco depois. Punido com perda de 24 pontos, ainda segurou-se mais nesse ano na primeira divisão, mas sem o apoio da prefeitura e com a morte do zagueiro nas costas, o gigante Azul do ABC Paulista não se levantou mais. Hoje está na segunda divisão estadual e não está mais entre as quatro divisões do futebol brasileiro. Foi uma grande jornada, que poderia ter conquistado a América. Talvez um dia volte. Mas fica a lembrança de uma grande equipe que excedeu as expectativas e superou o tamanho e tradições dos rivais na principal competição do continente.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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