Mais uma demissão de Ranieri: azar, ingratidão ou incapacidade?

Por: Lucas Tinôco (Twitter: @lucastinocof)

No último dia 24, Claudio Ranieri foi demitido do Leicester após ter vencido apenas 2 dos últimos 10 jogos que disputou entre competições nacionais e UEFA Champions League. No currículo ele tem passagens por 12 clubes, com 932 jogos, 439 vitórias, 256 empates e 237 derrotas, números que demonstram como o treinador foi bem ao longo da carreira apesar de ter rodado bastante.

Primeiros anos na Itália

Em seu país de origem ele treinou 7 times, desses 3 foram treinados nos seus primeiros 9 anos na profissão.

Seu início foi no Cagliari, onde levou o time da Serie C1 a Serie A de maneira seguida. No Rossoblu ele ficou de 1988 a 1991, o terceiro clube que ele ficou mais tempo treinando.

Em seguida Ranieri foi para o Napoli. Lá ele teve que superar a crise financeira que o clube passava e conseguiu alcançar o quarto lugar, classificando o time para a Copa UEFA na sua primeira temporada. No seu segundo ano no comando do time napolitano ele foi demitido após ser eliminado da segunda fase da Copa UEFA. Lá foram 47 jogos, 19 vitórias e 13 derrotas em 16 meses.

Em 1993 Ranieri chegou a Fiorentina. Na viola ele ficou 4 anos, sendo esse o time onde ele ficou mais tempo. Na primeira temporada ele conseguiu o título da Serie B e consequentemente o acesso a Serie A. Em 1996 ele foi campeão da Copa Itália e Supercopa italiana e trabalhou com craques como Gabriel Batistuta e Rui Costa, dois ídolos da equipe de Florença. Na mesma temporada ele ainda ficou na corrida pelo título com o Milan até o final do campeonato, quando perdeu 5 dos últimos 9 jogos e acabou na 4ª colocação. Em sua última temporada acabou num desapontante nono lugar. Ao todo foram 160 jogos, 68 vitórias e 39 derrotas.

Rápida estadia na Espanha

Em 1997 ele assumiu o Valencia, onde ficou dois anos até o fim do contrato. Lá ele conquistou o 4º lugar na La Liga e a vaga da Champions League, a Copa Intertoto em 1998 e a Copa do Rei no ano seguinte.

Após o fim do contrato, ele ficou 8 meses comandando um Atlético de Madrid em dificuldades financeiras. Com 13 vitórias e 13 derrotas em 33 jogos, Ranieri deixou os Colchoneros beirando o rebaixamento e pulou do barco antes que fosse empurrado. Mesmo assim o time acabou sendo rebaixado ao final daquela temporada.

Chelsea: da reconstrução à era Abramovich

No ano 2000 o treinador italiano assumiu o Chelsea, onde ficou até 2004. Nos Blues ele passou por reconstrução, quando contratou jogadores como Frank Lampard com o intuito de abaixar a média de idade do elenco. Nas duas primeiras temporadas, foram dois sextos lugares e um vice-campeonato da Copa da Inglaterra (vs Arsenal). Na temporada 2002/2003 ele conseguiu a classificação para a Liga dos Campeões com um elenco que tinha um ainda jovem John Terry e Huth, quem ele encontrou no seu último clube.

Em 2003 o Chelsea foi comprado por Roman Abramovich, bilionário russo e uma revolução começou nos azuis de Londres. A grana dele permitiu que Ranieri reforçasse o time com jogadores como Glen Johnson, Wayne Bridge, Joe Cole, Hernán Crespo, Verón, Makélélé e Mutu. Foram 120 milhões de libras gastos em uma janela de transferências.

Com um elenco recheado de bons jogadores, Ranieri foi vice-campeão inglês, melhor posição na liga em 49 anos. Na mesma temporada o Chelsea ainda chegou as semifinais da UCL, quando inclusive as críticas ao treinador começaram. Ele repentinamente mudou a tática do time e passou a fazer substituições estranhas, levando a eliminação para o Mônaco. Em Maio de 2004, ele saiu do clube e deu lugar a José Mourinho. Ainda deu dois nomes pro time contratar: Drogba e Robben e aí, my friends, o resto é história.

Ao todo foram 173 jogos, 89 vitórias, 43 empates e 41 derrotas no comando dos Blues.

Retornando…

Em Julho de 2004 o Valencia anunciou sua volta. Lá Ranieri fez boas contratações e teve um começo animador. Porém, sequências negativas e decisões ruins levaram a rescisão do seu contrato (recebeu 3 milhões de libras por conta da multa rescisória).

Após um retorno sem muito sucesso na Espanha, Ranieri voltou para a Itália. Em 2007 ele foi para o Parma, salvou o time do rebaixamente mas mesmo assim o time não quis mantê-lo para a próxima temporada.

Para a temporada seguinte (2007/08) ele assumiu uma Juventus recém promovida a Serie A após ser rebaixando por conta da punição no que ficou conhecido como Calciopoli, o famoso escândalo de manipulação de resultados no Campeonato Italiano. Em sua primeira temporada temporada levou o time ao 3º lugar do Calcio. No comando da Vecchia Signora ele tretou com Mourinho, naquela época treinador da Internazionale, após o português chamá-lo de antiquado. Pior que no fim da temporada ele acabou sendo vice-campeão e viu a Inter levar o título. Ao fim da temporada, ele foi demitido da Juve.

Após a Juventus, veio a Roma, clube que o revelou. Lá ele conseguiu levar o time a 24 jogos sem perder e assumiu a liderança. Mas Ranieri nunca foi sortudo na vida (deu pra perceber, né?) e foi novamente ultrapassado pela Internazionale, pra quem também perdeu na final da Coppa Itália e a Supercopa italiana na temporada seguinte. Em Fevereiro de 2011 ele pediu demissão e Vincenzo Montella assumiu o time da capital.

Em Setembro daquele mesmo ano ele assumiu a Inter de Milão.  Novamente teve um ótimo começo, chegou a sete vitórias seguidas, viu seu time ser postulante ao título e desabar. Após um sequência de 7 jogos sem vencer no Campeonato Italiano e a eliminação na Champions League, ele foi demitido.

Mônaco

Assumiu o time francês em 2012 com a missão de levá-lo para a Ligue 1, conseguiu isso na primeira temporada após conquistar a Ligue 2. Ainda foi vice-campeão francês na temporada 2013/2014. Foi demitido dois anos após ser contratado.

Leicester: do milagre a ingratidão

Após uma breve passagem pela seleção da Grécia, Ranieri assumiu o Leicester.

Contar essa história é até difícil, mas em resumo (sei que vocês estão cansados) ele foi um real milagroso. Com o Leicester vindo de uma manutenção sofrida e com Ranieri vindo de várias demissões, ninguém acreditava que a equipe poderia chegar onde chegou.

Ranieri soube motivar o time com discursos fortes, cenas extraordinárias (como a dos jogadores preparando pizza após o primeiro clean sheet na temporada) e um pensamento jogo a jogo. Quando o time liderava, contra quaisquer expectativas, ninguém acreditava que fossem capazes de chegarem nem a Liga dos Campeões, que dirá ao título.

O italiano conquistou os dois feitos e enfim foi consagrado pelo seu trabalho. Ele nunca foi um treinador ruim. Pode até ser “antiquado”, como disse Mourinho, mas nunca ruim. Foi vítima do azar em várias ocasiões, da incapacidade em poucos momentos, e da ingratidão na maioria deles.

No atual campeão inglês não foi diferente. O time conseguiu boa campanha na primeira fase da Liga dos Campeões mas sofre na Premier League, estando apenas a um ponto do rebaixamento. Após a derrota por 2-1 para o Sevilla na partida de ida da UCL, sua segunda derrota na competição, Ranieri foi demitido, sendo mais uma vez vítima da ingratidão.

Lucas Tinoco

21 anos, baiano e aspirante a jornalista esportivo. Fanático por esportes em geral, principalmente futebol. Adepto das ligas europeias e do futebol alternativo. Líder do Editorial de Futebol Internacional do HTE Sports.

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