Especial Dia Internacional da Mulher – Entrevista com Verônica Hipólito, a Magrela

Nesse Dia Internacional da Mulher, nada melhor que uma entrevista com uma mulher de muita fibra que lutou muito na vida em busca de seus objetivos e é definitivamente uma vencedora. Essa é Verônica Hipólito, também conhecida como Magrela. Nos jogos paralímpicos Rio 2016, Verônica conquistou a medalha de prata nos 100 metros e o bronze nos 400m rasos, além disso do título mundial nos 2oo metros rasos. Carrega também em sua bagagem uma força incrível que a move, uma alegria que é contagiante e uma simpatia encantadora. Os jogos paralímpicos não fez com que a Magrela ganhasse apenas as merecidas medalhas, mas também o coração de todos que a acompanharam e se tornaram fã assim como eu.

Verônica sofreu ainda na infância um AVC que quase a tirou do esporte. Além disso ela também tem um tumor no cérebro, porém nada disso foi motivo para que em algum dia ela abaixasse a cabeça. O Dia Internacional da Mulher é um dia que representa resistência e luta de todas as mulheres para que tenham todas as suas merecidas conquistas ao seu alcance, e Verônica é um verdadeiro símbolo, muito guerreira e humilde, é um exemplo a se seguir.

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Quais são suas inspirações e motivações pra chegar até onde você chegou e evoluir cada vez mais?

Pode parecer muito clichê, mas a minha maior inspiração sempre foi, e sempre será, minha mãe e meu pai. Eles eram pessoas extremamente pobres, que desde cedo trabalharam pela família. Nunca me trataram como coitada, e nunca duvidaram de mim, mesmo após os tumores e o AVC. Então, eles são o principal motivo de eu ser quem sou, e ter chegado onde eu cheguei. E claro que isso foi crescendo: a cada pessoas que dizia torcer por mim, cada pessoa que se dizia tocada por mim, que me mandava nos vibrações, me fazia seguir em frente. Nunca corri sozinha, nunca ganhei nada sozinha.

Se comemora nesse dia 08 de março o dia Internacional da mulher. Hoje temos dados que nos entristecem que mostram como a mulher não é valorizada dentro da nossa sociedade. O que você pensa sobre o assunto? Qual a representatividade de um dia como esse?

É desvalorizada (em todos os campos possíveis, inclusive o meio esportivo que é o qual EU me encontro e vejo varias coisas idiotas), é massacrada por um padrão de beleza, e é obrigada a escutar que o Dia Internacional da Mulher é uma comemoração. Não é uma Comemoração, é um dia para relembrar que todas nós ainda somos oprimidas. Não deveria ser só num dia, mas todos os dias, mas, infelizmente, as coisas não são tão rápidas como queremos. E temos que continuar trabalhando todos os dias, e até escutando imbecilidade como ” deixa disso, tá parecendo feminista histérica ” quando brigo por escutar “seu namorado e seu pai sabem que você veste roupas curtas na competição?” Ao invés de escutar sobre minha performance.

E pensando também na sua situação específica, você é uma mulher do atletismo paralímpico, que infelizmente só ganha a mídia necessária no Brasil em tempos de competição importante. Quão difícil foi para você evoluir nessa categoria para chegar aonde chegou? Você muitas vezes sentiu não receber o valor devido dentro da profissão? Como lidar com isso?

Sendo muito sincera, eu peguei uma época considerada “boa” do movimento paralímpico. Cheguei em 2013, primeiro ano do ciclo após as olimpíadas e Paralimpíadas de Londres, quando o Brasil teve sua melhor participação, e primeiro ano do ciclo Rio 2016. Então, tive muitos patrocinadores. Porém, agora (pós-Rio) a maioria dos patrocinadores não continuaram. É uma época realmente complicada, porque acabamos de ter, novamente, a melhor performance em Paralimpíadas, e quase todos os atletas medalhistas não estão recebendo 30 porcento do que recebiam, ANTES da medalha. Algo que eu sempre levo em debate: será que realmente estão tratando todas as modalidades como profissão? Ou ainda profissão é só jogador de futebol?

Qual o significado do esporte para você? Desde pequena você iniciou seu contato com o esporte lutando judô mas teve de se afastar por motivos clínicos. Posteriormente veio seu contato com o atletismo no qual você se mostrou relutante no início. Como foi sua adaptação para o atletismo e quando você se deu conta que aquilo era seu esporte?

Eu SEMPRE estive no meio esportivo. Meus pais sempre acreditaram que é uma ferramenta de inclusão social e educacional muito forte, diferentemente do que a maioria das pessoas pensam (que o esporte anda em uma via diferente da educação). Quando eu entrei no atletismo, era mais para “reabilitação”, mas eu acabei me apaixonando. Nunca fiz por dinheiro, nunca fiz para ganhar um campeonato mundial, fiz por diversão. E treinava como se eu fosse para um campeonato mundial (risos) e aí foi indo, como fui fazendo por e com amor, as coisas acabaram fluindo, para mim, naturalmente.

Como tem sido sua rotina de treinamentos? E como é conciliar toda sua vida, por exemplo a faculdade que você cursa, com o treinamento em vésperas de competições importantes?

Infelizmente muitas pessoas e em muitos lugares, parece que acreditam que a educação e o esporte andam em vias diferentes. E aí fica difícil conciliar qualquer coisa com o esporte, porque a gente não só está treinando na pista ou na academia. A gente tem que comer bem, descansar bem. Mas isso é bem complicado no Brasil. Aí tenho que escolher o que priorizar. Eu tento conciliar tudo, mas realmente é muito complicado.

Qual foi a sensação de disputar os jogos paraolímpicos no Brasil? Quando você começou a correr imaginava esse momento tão grandioso? E como está a expectativa pra Rio 2016?

Foi SENSACIONAL! Eu nunca imaginaria participar de algo tão grande, e ainda no meu próprio país. Quando eu entrei na pista, todo mundo gritava, torcia, vibrava. Isso era absurdamente motivador, e a torcida só fez esse evento ser mais divertido.

Recentemente você passou por um processo cirúrgico que, felizmente, foi um sucesso. Como está o processo de recuperação e quais são seu planos a curto e longo prazo?

Entre 23 desse mês, e 23 de abril devo voltar a treinar. Claro que está sendo complicado para mim, nunca me vi tanto tempo parada. E sei que será muito complicado quando eu voltar, mas sei que tem muita gente que torce por mim, por isso darei o meu melhor. A curto prazo eu não os defini tão bem, mas a longo prazo claro que é o mundial de 2019, o Parapan e os Jogos de Tóquio. Sempre disse que quero fazer história no esporte, e vou batalhar por isso. Para ser um grande exemplo.

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Na Rio 2016 você encontrou atletas de diferentes portes físicos. Mesmo assim a Magrela se saiu muito bem. Apesar do desgaste físico em uma das provas, você se recuperou e conquistou o bronze na competição seguinte. Como é essa sensação de competição, enfrentando pessoas tão diferentes e quais os aprendizados que é possível se tirar nessas competições?

Antes de competir os 400m rasos, eu tinha disputado a semifinal e a final dos 100m, salto em distância. Eu estava absolutamente cansada. Fiquei pensando se realmente iria conseguir competir bem. Mas quando entrei no estádio todo mundo gritava por mim “Vai Magrela!” ou “Vamo Verônica”. Pensei o que o mínimo que podia fazer era dar o meu melhor e que iria me divertir muito aqui. A torcida conseguiu me lembrar que eu estava lá para me divertir. Saíram 5 recordes naquela prova: o asiático, o das Américas, o europeu, o dos jogos e o Mundial. São nesses momentos que você consegue tirar um aprendizado que você nunca vai poder ter na escola ou na faculdade.Coisas como dar o seu melhor, se divertir, sempre dar um algo a mais mesmo quando você acha que não tem nada mais pra dar… São coisas que eu vou levar pra minha vida e que não estão escritas em nenhum livro.

A Magrela fora do esporte é uma pessoa estudiosa e que gosta muito de animais, certo? Quais são seus principais hobbies? O que você curte fazer no tempo livre?

Amo comer e dormir, socorro! Mas eu sou uma pessoa muito elétrica, gosto muito de aprender, não consigo ficar parada ou fazendo a mesma coisa por muito tempo. Uma época meu hobby é escutar música, outra hora é ler, assistir séries, filmes. Atualmente o meu principal é voltar a estudar idiomas. Estou aprendendo que não dá pra fazer tudo de uma vez, mas gosto muito de aprender sobre novos idiomas, novas culturas. Eu não tenho conseguido me dedicar tanto aos estudos como eu queria. Eu gostaria de estar me dedicando mais, estudando mais, do jeito que eu pensava que seria antes de me tornar uma atleta profissional. Mas eu tenho que ter as minhas prioridades. Eu estudo muito em casa, agora estou voltando a tentar conciliar a vida de atleta com a faculdade, com curso de inglês, futuramente com um curso de japonês também. Um passinho de cada vez. Eu gosto de falar muito de animais, eu me considero protetora, sempre ajudo instituições com doações de rações.

Infelizmente sabemos que tanto o governo quanto a mídia não dão valor a esporte que não seja o futebol masculino. Quais as maiores dificuldades estruturais encontradas para se manter no esporte em alto nível?

Essa questão é complicada. Quase todo mundo do meio esportiva enxerga essa espécie de barreira, de um lado, e as outras modalidades esportivas. Nas competições na Europa ou Ásia, os estádios não enchem só para futebol. Atletismo, lutas, sempre cheios. Porém aqui o pessoal dá uma importância absurda ao futebol. Acho que as pessoas acabam esquecendo de valorizar as outras modalidades. O que tento fazer é mostrar a beleza das outras modalidades. É complicado, mas a gente sempre tenta. Hoje, a gente tem o Centro Paraolímpico Brasileiro, que é um dos melhores centros do mundo.Mas é muito complicado de manter esse centro, porque a manutenção dele é muito cara. Mas o nosso Comitê Paralímpico Brasileiro está se esforçando muito, pelo movimento paralímpico em geral. Mas antes disso, era muito complicado achar locais com estrutura para treinar. Eram lugares emprestados, a gente sempre mudava de local, às vezes com poucas condições de treinamento, enfim. Parecia que as pessoas olhavam o movimento paraolímpico do alto, como se fossem superiores. Mas a gente tá conseguindo mostrar que o movimento paraolímpico trabalha junto com o movimento olímpico pelo desenvolvimento do esporte.

Você gostaria de fazer algum apelo ou algo do tipo para que tanto os patrocinadores quanto a mídia volte a dar mais olhos a toda a classe esportiva que acaba sendo meio largada após os jogos?

Não digo que seria um apelo, mas gostaria que as pessoas observassem mais o meio esportivo. Acredito que tanto a torcida quanto os patrocinadores, quanto a mídia, tem o poder de fazer o Brasil virar uma potência esportiva, como de fazer o Brasil cair. Então vamos tentar fazer o Brasil virar uma potência esportiva, porque material humano a gente já tem bastante, só falta esse apoio. Esporte não é só o futebol.

E suas considerações finais, mandando um recado pro Dia Internacional da Mulher e outro recado a todos os seus fãs.

Eu não considero o Dia Internacional da Mulher como uma comemoração, mas sim um dia para a gente relembrar todas as opressões que sofremos e ainda estamos a sofrer. Mas que não seja só nesse dia que a gente coloque em pauta essas questões, que sejam todos os dias, porque se nós formos considerar somente esse dia, a gente vai continuar caminhando em passos lentos. Nós não precisamos nos apegar em um dia, e sim lutar todos os dias. Além disso, eu gostaria de agradecer a todas as pessoas que acreditam no meu trabalho e que, de alguma forma, se inspiram no que eu acredito sobre a gentileza, sobre continuar dando o melhor e buscar o melhor dos outros e pelos outros.

Nós da equipe do HTE Sports agradecemos a Verônica Hipólito pela oportunidade de entrevistá-la. Ficamos lisonjeados e extremamente contentes com o excelente contato que foi feito durante a entrevista. Fica a nossa torcida para que Verônica alcance tudo que almeja, pois se trata de uma pessoa merecedora. Um Feliz Dia Internacional da Mulher e Vai Magrela!

Elvis Fernando

20 anos, estudante de Engenharia na Universidade Federal do ABC. Apaixonado por esportes e isso me mantém firme dentro do HTE Sports. Fundador da marca HTE.

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