Meu Jogo Histórico #17 – A rivalidade da década

Grandes épocas de qualquer modalidade esportiva são movidas por grandes rivalidades. Magic vs Bird, nos anos 1980, transformou a NBA. Senna vs Prost empolgou a Fórmula 1. Sampras vs Agassi, Guardiola vs Mourinho, enfim, poderíamos enfileirar diversas rivalidades que moldaram expectadores, torcedores e fãs mundo a fora.

Eu comecei a acompanhar a NFL na metade da primeira década do século XXI. E logo de princípio, me encantei com um jogador que vestia a camisa 18 do Indianapolis Colts. Quanto mais assistia os jogos, mais ficava impressionado com Peyton Manning. Sua capacidade de mudar as jogadas pouco antes da execução, os lançamentos que pareciam simples, mas que deixavam os recebedores correrem várias e várias jardas livres me fizeram se apaixonar pelo esporte e pela liga. Não a toa, me tornei torcedor dos Colts e comecei a escrever aqui no HTE Sports sobre a NFL.

E, como todo grande herói, precisava de um grande vilão. E ninguém se encaixava melhor nesse perfil que Tom Brady e o New England Patriots. Grandes jogos entre os dois marcaram suas carreiras. Para mim, ficou na memória um Monday Nigth Football, disputado em 2009, mais precisamente no dia 15 de novembro, no Lucas Oil Stadium. Jogo com uma virada que só os maiores de todos os tempos conseguiria fazer. E com uma decisão controversa do treinador dos Patriots.

A frase título desse post era o tom das chamadas desse jogo. A cada intervalo, a ESPN mostrava um quadro de Peyton Manning e Tom Brady com os dizeres “Rivalidade da década” em destaque. Sempre que olhávamos a tabela, procurava esse jogo e me preparava para estar em frente a TV quando começasse. E o início não foi lá muito animador, pelo menos para mim (e acredito para a torcida dos Colts em geral). Os Colts até abriram o placar, em passe de Manning para Addai, mas permitiu uma sequencia de 24 pontos dos Patriots antes do intervalo. Na transmissão da ESPN brasileira, Paulo Antunes, que comentava o jogo narrado pelo sempre brilhante Everaldo Marques, dizia que Brady brincava com a secundária dos Colts, tamanha a facilidade que o camisa 12 dos Patriots tinha de encontrar os recebedores. Tivemos ainda um TD de Indianapolis na primeira metade e o placar iria para o intervalo marcando 24 x 14 para os Patriots.

O segundo tempo veio de forma bem enroscada. A defesa até começava a segurar mais o ataque dos Patriots, mas Manning e o ataque dos Colts não conseguiam reverter a situação. Sem pontos para nenhuma das equipes no terceiro período, entramos no último e decisivo quarto de jogo. Talvez os melhores 15 minutos de futebol americano que eu já tenha assistido. Com pouco menos de 2 minutos jogados do quarto período, Tom Brady achou Wes Welker na endzone e aumentou a diferença para 31 x 14, transformando o confronto num jogo de 3 posses de bola. Foi aí que Manning começou a mostrar por que merece estar na categoria dos gênios do esporte. Na posse seguinte, já com o No Huddle, o que sempre mais gostei em seu jogo, conseguiu marchar o campo todo, com três passes e duas corridas (de Addai e Simpson), encontrando Pierre Garçon numa linda conexão de 29 jardas.

A defesa dos Colts resolveu aparecer e logo mandou Brady, que já iniciava o modo queimar relógio, para o banco rapidinho. Mas, na primeira jogada da campanha seguinte, Peyton Manning foi interceptado, ainda no campo de defesa. Os Patriots capitalizaram o turnover e colocaram mais 3 pontos no placar, deixando em 34 x 21. Era muito para pensar em virada, depois da interceptação de Manning. Muitos jogadores se esconderiam numa situação dessas. Mas a rivalidade da década precisava do jogo da década. E Manning mostrou controle emocional para conduzir mais uma campanha rumo ao TD, dessa vez em corrida de 4 jardas de Joseph Addai, outro que foi genial o jogo inteiro, faltando 2 minutos e 23 segundos no relógio. Ainda era necessário um milagre para termos a bola de volta em condições de buscar o TD da virada.

 E o milagre veio, numa decisão ousada do treinador Bill Belichik. Depois de segurar as três primeiras descidas dos Patriots, faltavam duas jardas para um firts down que praticamente selaria o confronto. Nessa 4ª para 2, com 2 minutos e 11 segundos no relógio e os três tempos já pedidos pelo Indianapolis Colts, Belichick manda Tom Brady de volta para o campo, ao invés de chutar o punt, para buscar, ainda no campo de defesa, essas duas jardinhas. Em formação shotgun, Brady recebe e passa para o lado direito, para o RB Kevin Faulk, que recebe. A uma jarda da marca da primeira descida. Bola para os Colts na linha de 28 do campo ofensivo, dentro o 2 minute warning.

Manning não precisava ter pressa, mas eu não me continha em meu quarto, onde vi o jogo, que já varava a madrugada em São Bernardo do Campo. Com paciência e inteligência, sabia que precisava do TD, mas não podia deixar muito tempo no relógio para um comeback de Brady. Com um passe de 15 jardas para Reggie Wayne e uma corrida de 13 jardas de Addai, os Colts ficavam a uma jarda da virada histórica. E ela veio, duas jogadas depois,  em passe para Reggie Wayne. Só não gritei em casa para não acordar meus pais que nada entendem de futebol americano. Mas vibrava muito. O que parecia impossível tornava-se realidade. Não conseguia dormir de tão extasiado que estava com o que acabava de ver. Junto com uma porrada de gente que ainda usava Orkut na época, vibrava no fórum dos Colts. Fui trabalhar o dia seguinte com muito sono, mas completamente feliz de ter ficado acordo até sei lá que horas. Jogo para ficar na memória. Jogo que valeu o título para os dois maiores QBs do século XXI de Rivalidade da Década.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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