Brazuca FC – O primeiro campeão nacional do interior

Já contamos aqui no Brazuca FC a história do Santo André campeão da Copa do Brasil e do São Caetano vice-campeão da Libertadores, além do Atlético Paranaense campeão brasileiro em 2001. Chegou agora a hora de falar de um outro time do interior do estado de São Paulo. O primeiro do interior do Brasil que conquistou um título nacional. Vamos falar do glorioso Guarani de Campinas, que em 1978 sagrou-se campeão brasileiro e trouxe para a nação um dos maiores camisas 9 da história do futebol nacional, o grande Careca.

O campeonato brasileiro daquele ano seguia a risca as mentes criativas do nosso futebol. Nada menos que 74 equipes disputariam o nacional, isso em ano de Copa do Mundo. Por conta disso, o início foi mais cedo do que o costume da época, com as primeiras rodadas em março de 1978. Além disso, as vitórias poderiam valer de dois a três pontos, de acordo com o saldo de gols. Ah, que saudades desses regulamentos mirabolantes. Os 74 participantes foram divididos em 6 grupos na primeira fase, dois com 13 clubes e quatro com 12. Jogando em turno único, os seis melhores passavam para a fase seguinte e os demais iriam para a Repescagem. No cenário nacional, o Inter de Falcão e o Palmeiras eram as equipes que dominavam as atenções na época.

O Guarani tinha naquela ocasião a missão de superar seu rival campineiro, a Ponte Preta, vice-campeã Paulista no ano anterior e que tinha em seu elenco nomes como o meia Dicá, o zagueiro Oscar (que mais tarde atuaria no São Paulo) e o goleiro Carlos (camisa 1 da seleção brasileira na Copa de 1986). Mas, sem tanto dinheiro para contratações, a solução era trabalhar com jovens da base e alguns reforços considerados mais modestos. E foi assim que o novo treinador, Carlos Alberto Silva, vindo de um bom trabalho na Caldense de Minas Gerais chegou para comandar o Guarani. A base do time que vinha de 77 tinha Renato, que mais tarde seria chamado de Pé-Murcho, Miranda, Mauro, Manguinha, Neneca, Capitão e Gomes, sem contar o craque Zenon. Do Cruzeiro, chegou o volante Zé Carlos, ídolo e jogador que vestiu mais vezes a camisa azul mais famosa de Belo Horizonte. Da base, um garoto de 17 anos chamava a atenção. Antônio de Oliveira Filho, que seria conhecimento simplesmente como Careca ao longo da carreira, seria o responsável pelos gols da equipe.

Mas o começo foi meio titubeante para o Bugre Campineiro. Uma derrota por 3 a 1 na estreia contra o Vasco com três gols de Roberto Dinamite davam a impressão que o time não iria muito longe. Mas, aos trancos e barrancos e ganhando o entrosamento, o Guarani foi melhorando, conseguindo vitórias importantes e empates fora de casa. Ainda não empolgava, mas a equipe começava a ganhar corpo. Nos 11 jogos dessa fase, conquista 5 vitórias e 4 empates e termina na quinta posição do grupo D, assegurando vaga na segunda fase da competição onde os times classificados seriam agrupados em quatro grupos de nove clubes.  O Guarani entraria no grupo D dessa fase, junto de São Paulo, Vasco, Portuguesa entre outros, para disputar em turno único um lugar entre os seis melhores para seguir para a terceira fase.

Nessa fase, estreou com empate em 1×1 contra o São Paulo, venceu o Brasília fora de casa, mas tomou um revés acachapante por 5 x 1 do Remo, no Pará, com todos os gols adversários sendo marcados por Bira “Burro”, atacante que viria a jogar no Internacional de Porto Alegre no ano seguinte. Talvez tenha sido a derrota que tenha dado a guinada necessária para o Bugre, que conquistou bons resultados na sequência e classificaram-se na quarta posição do grupo com 3 vitórias e 3 empates. A terceira fase dividiu novamente em quatro grupos de oito equipes cada e as duas primeiras chegariam as quartas de final da competição. O Guarani ficou no Grupo A, junto do temido Internacional de Porto Alegre, Santos, Goiás entre outros.

Era hora de mostrar a que veio. A imprensa gaúcha tratava o Guarani como o “time de circo e de risos”.  O deboche dos gaúchos foi usado como arma por Carlos Alberto Silva antes do confronto entre as duas equipes no Beira Rio. E naquele 2 de julho de 1978, um show verde e branco nos gramados porto-alegrenses. Renato abriu o placar aos 4 minutos do primeiro tempo. Bozó, ponta-esquerda, ampliou aos 39. Sem se intimidar contra Falcão, Caçapava, Batista e Valdomiro, o Guarani comandava as ações ofensivas. E aos 38 do segundo tempo, um dos gols mais épicos da história do Guarani. Zenon puxou o contra-ataque e olhou Capitão na direita. A zaga do Internacional marcava em linha. Com uma visão que somente os craques tem, Zenou fingiu o passe, a zaga se adiantou e o camisa 10 saiu livre para anotar o terceiro gol bugrino. Um chocolate de dar risada.

Foi nessa fase que o Guarani mostrou que tinha time para ser campeão. Com seis vitórias e um empate, chegou para as quartas de final contra o Sport. Duas vitórias, 2×0 na Ilha do Retiro e 4×0 no Brinco de Ouro levaram o time para a semi-final contra o Vasco de Roberto Dinamite. No primeiro jogo, em Campinas, Neneca fechou o gol. Era o sexto jogo sem ser vazado. Renato e o gol contra de Orlando deram 2×0 e uma ótima vantagem para a volta no Maracanã, que receberia mais de 100 mil pessoas. Mas quem doutrinou mais uma vez foi Zenon, que após ótima jogada de Capitão, colocou a bola no ângulo de Mazarópi para abrir o placar aos 7 minutos de jogo. No segundo tempo, novamente Zenon, em cobrança de falta, ampliou para 2×0. Ainda houve tempo para Dirceu diminuir para o Vasco e acabar com a invencibilidade de 778 minutos de Neneca, mas nada importava, pois o Guarani chegava a final do campeonato Brasileiro.

E o adversário seria ninguém menos que o Palmeiras que tinha em Jorge Mendonça sua principal referência naquele ano, além do goleiro Émerson Leão. O primeiro jogo, no Morumbi com 99 mil pessoas. Jogo tenso refletido no cartão amarelo para Zenon logo no primeiro tempo, que o tiraria do jogo de volta em Campinas. E aquele jovem de 17 anos, Careca, mostrou o que muito jogador de mais de 30 não consegue fazer hoje em dia. Abusado, provou Leão que deu um chega-prá-lá no camisa 9. Arnaldo César Coelho, o árbitro da decisão viu a atitude de Leão e não teve dúvidas. Pênalti para o Guarani e vermelho para o arqueiro palmeirense. Zenon foi para a cobrança e definiu o placar do primeiro jogo e a vantagem para o Guarani jogar a partida decisiva em seus domínios.

E não cabia mais ninguém no Brinco de Ouro da Princesa naquele 13 de agosto. Pouco mais de 27 mil torcedores lotavam as arquibancadas do estádio do Bugre. Sem Zenon, as esperanças caiam sobre Careca que não marcava desde a terceira fase da competição. E ele não decepcionou. Aos 36 minutos da primeira etapa, aproveitou um rebote para colocar 1×0 (seu 13º gol na competição) no placar e dar o primeiro título nacional a uma equipe do interior do Brasil. O Guarani alcançava a glória maior de maneira incontestável. Foram 20 vitórias em 32 jogos, 70,8% de aproveitamento, um dos 10 maiores da história do campeonato nacional. Além de brindar o futebol nacional com Zenon, Careca e Renato, jogadores que seriam idolatrados anos mais tarde por outras torcidas.

Ainda nos anos 80 e 90 a equipe bugrina continuaria sendo relevante no cenário nacional. Em 86, numa final histórica contra o São Paulo, ficaria com o vice-campeonato nacional. Mas desastrosas administrações, especialmente as de Beto Zini na virada do século, relegaram o Guarani aos rebaixamentos no cenário nacional e estadual. O único momento de brilho já no século XXI foi o vice-campeonato paulista em 2012, perdendo a final para o Santos de Neymar. Ano passado, o Bugre subiu da Série C para a B. Espero que em breve possamos ver novamente essa equipe de grande tradição nos gramados da principal divisão do campeonato nacional novamente. O primeiro campeão nacional do interior merece isso.

 

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

%d blogueiros gostam disto: