Saudosismo FC – O milagre do Messias

Algumas camisas no mundo do futebol são emblemáticas e históricas. A 10 do Napoli de Maradona, a 3 e 6 do Milan de Maldini e Baresi, respectivamente, a 7 do Real Madri de Cristiano Ronaldo e a 10 do Barcelona de Messi são grandes exemplos. No Brasil, a mais emblemática certamente é a camisa 10 do Santos, utilizada por ninguém menos que o Rei Pelé. Enquanto algumas no exterior foram aposentadas, esse costume no Brasil não existe. Após Pelé deixar os gramados, muitos jogadores vestiram essa pesada camisa. E poucos foram dignos dela. Em 1995, porém, um jogador não só foi merecedor dessa camisa como teve uma das maiores atuações individuais já vistas em gramados brasileiros. Estamos falando do meia Giovanni, o Messias.

Giovanni comemora um dos gols da vitória santista sobre o Fluminense

Naquele ano o Santos vivia o nono ano de uma seca de títulos que vinha desde o Campeonato Paulista de 1984. O Campeonato Brasileiro reunia grandes times como o Flamengo do centenário que tinha Sávio, Romário e Edmundo no ataque, o Palmeiras da era Parmalat, Botafogo de Túlio e Donizete entre outros. Com 24 clubes divididos em 2 grupos de 12, com dois turnos, onde no primeiro os enfrentamentos eram dentro do próprio turno e no segundo contra os times do outro grupo, os campeões de cada turno em suas chaves passavam para as semi-finais. O Santos venceu o segundo turno do grupo A, com 8 vitórias em 12 jogos e de quebra registrou a melhor campanha da competição nos dois turnos, tendo a vantagem nos confrontos semi-finais e final de jogar a partida decisiva em casa e por dois resultados iguais. Vencedor do primeiro turno do grupo A, o adversário da semi-final para os santistas seria o Fluminense, enquanto Botafogo e Cruzeiro mediriam forças no outro confronto.

O primeiro jogo no Maracanã recebeu mais de 100 mil pessoas. O Fluminense havia sido campeão carioca naquele ano, vencendo o centenário Flamengo na decisão com o famoso gol de barriga de Renato Gaúcho e entrou confiante que poderia levar o Brasileiro também. Mas foi o Santos que abriu o placar com Giovanni. No começo da segunda etapa o Fluminense empatou e virou o jogo. Duas expulsões santistas (Robert e Jameli), o time carioca foi para cima e anotou mais dois gols, decretando a vitória no primeiro confronto em 4 x 1 e uma importante vantagem de 3 gols para a volta. Parecia impossível. Mas foi ali mesmo que “nasceu” o Messias. Terminado o jogo, os jogadores do Santos estavam calmos. O camisa 10 dizia: “Nós vamos vencer o jogo de volta e eu vou fazer dois gols”.

Em 10 de dezembro de 1995 o Pacaembu recebia pouco mais de 28 mil pessoas para o jogo de volta das semi-finais. O jornalista Milton Neves, santista declarado, no pré-jogo da Rádio Jovem Pan de São Paulo fez uma das aberturas mais emblemáticas do rádio esportivo, dizendo: “Treme Fluminense e canta Pacaembu. Pode até ser que não dê, mas como você é lindo Santos, como você é lindo Santos, meu amor!”.

O Santos veio a campo com Edinho, filho de Pelé no gol. Marquinhos Capixaba, Narciso, Ronaldo Marconato e Marcos Adriano formavam a defesa. Gallo, Carlinhos, Giovanni e Marcelo Passos no meio campo com Camanducaia e Macedo no ataque, time comandado por Cabralzinho. O Fluminense de Joel Santana foi escalado com Wellerson; Ronald, Lima, Alê e Cássio; Vampeta, Otacílio, Aílton e Rogerinho; Renato Gaúcho e Valdeir.

Giovanni tinha um olhar sério e um instinto predatório na feição. Queria jogo. Queria ser o dono do jogo. Para virar o confronto precisaria ter uma atuação como a do maior dono da camisa 10 santista. O Santos começou o jogo forte, indo para cima com um chutaço de Carlinhos, respondido por outro bom ataque de Renato Gaúcho. E foi só o que o Fluminense conseguiu produzir no primeiro tempo. Dominante, o alvi-negro praiano amassava o time carioca. Aos 25 minutos, Camanducaia invadiu a área e foi derrubado. Pênalti bem marcado e convertido com precisão por Giovanni para abrir o placar. Não comemorou. Com feição ainda séria foi ao fundo da rede pegar a bola para recomeçar logo o jogo. 4 minutos mais tarde recebeu a bola de Carlinhos que ficou esperando a bola de volta. Giovanni aplicou um drible desconcertante em Alê e chutou de bico, alto, um golaço para explodir as arquibancadas. Novamente não comemorou e, novamente sério, foi só ao fundo da rede pegar a bola para levar ao centro do campo. Macedo ainda parou na trave antes do intervalo, que deixava a diferença que antes do jogo parecia impossível ao alcance santista.

No intervalo, nada de vestiário para o time do Santos

A atmosfera no Pacaembu era incrível e indescritível naquele momento. Por isso, Cabralzinho quebra o protocolo e não leva o time santista para o vestiário no intervalo. O time precisava continuar no clima da recuperação da decisão. Precisava manter a mesma intensidade para a segunda etapa. E, logo aos 7 minutos, Giovanni recebeu a bola livre na entrada da área. Com um passe preciso, deixou Macedo na cara do gol para anotar o necessário e esperado terceiro gol santista. 3 x 0 que daria a classificação para a final do Brasileiro para o Santos, revertendo uma vantagem considerada impossível por muitos. Dois minutos depois, uma ducha de água fria. Em rebote de falta, Rogerinho diminui o placar para o Fluminense. O Santos precisaria buscar mais uma vez o placar. E Giovanni continuaria a ser o protagonista do dia. Aos 16, bola lançada na ponta esquerda. Alê precisava apenas dominar e dar um chutão mas, pressionado pelo camisa 10 santista, que surgiu do nada no seu cangote, perdeu a bola. Giovanni invadiu a área e chutou para defesa de Wellerson. No rebote, Camanducaia tocou para o fundo das redes. Ainda tinha mais. Aos 37, um lance de pura genialidade. Cercado por três jogadores do Fluminense próximo ao meio campo, recebendo a bola meio que no alto, Giovanni dá um leve toque de calcanhar, de costas, antevendo a passagem de Marcelo Passos, que ficou livre para anotar o quinto gol santista. Jogada de craque. Aos 39, Rogerinho diminuiu novamente para o Fluminense, mas aquela tarde era do Santos e do Messias. 5 a 2, vantagem de 3 gols revertida na semi-final do Brasileiro e uma maior atuação de um jogador com a camisa mais histórica do futebol brasileiro. Giovanni cumpria a promessa feita após o jogo de ida. Fez dois gols, o Santos venceu e se classificou. O apelido de Messias fincava em sua história.

Mas, não seria dessa vez que a seca de títulos santista terminaria. Na final, contra o Botafogo em jogo marcado por diversos erros do trio de arbitragem comandado por Márcio Rezende de Freitas, o Santos ficaria com o vice-campeonato nacional. Giovanni iria pouco depois para o Barcelona, onde ficou aquém do esperado, principalmente depois da atuação nessa semi-final contra o Fluminense. Chegou a disputar a Copa do Mundo de 1998 pela seleção, vestindo a camisa 10 no primeiro jogo contra a Escócia na França. Mas perdeu a posição para o meia Leonardo à partir do segundo jogo daquele mundial e não voltou mais a campo. Voltou ao Santos em 2005 em meio a polêmica venda de Robinho para o Real Madri. Deixou o club novamente em 2006 e retornou em 2010, sendo reserva no time que conquistou o título da Copa do Brasil daquele ano. Mesmo com poucas conquistas como titular, entrou para galeria dos maiores ídolos da gloriosa torcida santista. E, quem viveu aquele 10 de dezembro de 1995, certamente nutre um grande saudosismo da maior atuação de sua carreira. E, para muitos dos que estiveram no Pacaembu naquele dia, a maior atuação individual já vista em um estádio. Certamente, a maior atuação da camisa 10 do Santos pós-Pelé.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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